Discurso político

Português político


      João Miguel Tavares analisou, no Diário de Notícias de ontem, o discurso de rentrée de Manuela Ferreira Leite na Universidade de Verão do PSD. Eis um excerto do artigo: «Infelizmente, o discurso padece logo de uma doença grave: está escrito com os pés. Não sei se é por os speech writers estarem de férias ou por as eleições americanas aumentarem a exigência, a verdade é que estive para enviar uma mensagem a Ferreira Leite com o meu número de telemóvel. Eu não percebo muito de política, mas acho que podia contribuir modestamente para lhe endireitar o português» («Manuela Ferreira Leite e o ‘copyright’ de 2006», João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 9).
      O jornalista exemplifica depois com vários lugares-comuns e algumas expressões ambíguas, nada (e ele próprio o escreve) que destoe do discurso político a que estamos habituados. Infelizmente. Ora, se é verdade que é preciso saber ler um texto (e eu que já fui speech writer, para usar a expressão inglesa, bem sei que alguns políticos não sabem fazer as pausas, as inflexões de voz requeridas, não sabem dar a ênfase que ideámos para o texto), a verdade é que no caso temos acesso ao próprio texto, e é a qualidade deste que está longe de ser boa. E quem quer governar o País, os Portugueses, deve começar por governar o discurso.

Verbo haver


Alma Mater?

No institucionalíssimo sítio da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, podemos ler o seguinte: «1) Avaliação Contínua — um mínimo de 75% de presenças Avaliação Contínua está disponível para turmas com 25 alunos ou menos. Haverão vários testes nas aulas e trabalhos de casa. É obrigatório o estudo do livro da gramática do curso, que será testado regularmente. Os alunos devem manter uma Ficha Pessoal de Vocabulário, avaliado oportunamente. Cada aluno fará um pequeno trabalho escrita [sic], a pesquisa, apresentação e discussão do qual fazem parte da avaliação oral.»
O destaque é meu, ao menos isso. Não haverá ali uma cabeça minimamente pensante que veja a enormidade e a corrija? Ou este é também o fado de Coimbra?

Ortografia: «Skeeper»

Imagem de Skeeper de pulso


Marca registada



      «Os skeepers são aparelhos que os idosos usam ao pescoço e lhes permite [sic], em caso de se sentirem mal, carregar num botão para pedir ajuda, sendo que o mecanismo faz uma espécie de chamada para determinados números de telefone» («Cavaco dá prémio a obra de Alegre», Diário de Notícias, 9.09.2008, p. 18). A maior parte da imprensa, porém, grafa «Skeepers», e vai no caminho certo. Mais correctamente, é SKeeper, que é uma marca registada. Como aconteceu com algumas outras invenções, a designação comercial pode vir a tornar-se nome comum, e então sim, skeeper.


Galicismo?

Imagem: in Jornal de Negócios, 9.09.2008, p. 2.

Claro está


Se rejeitássemos tudo o que nos veio do francês, do inglês, do espanhol, do italiano, se nos ocorresse essa infeliz ideia, o que nos sobrava? Sim, «bem entendido» parece vir do francês (e se for mera coincidência?), mas está bem formado e não desdoura quem fala português, salvo melhor opinião. Sim, eu sei o que diz Rodrigo de Sá Nogueira. E a Marina sabe que a Academia Brasileira de Letras, para não ir mais longe, embora tenhamos de atravessar o Atlântico, considera que «bem entendido» não vem do francês? Ah, não sabia…
«Ele, que é velho, gosta de se fazer ainda mais velho, acentuando as maleitas, as recordações fugazes e, bem entendido, as deliciosas idiossincrasias oitocentistas» («À moda antiga», Pedro Mexia em recensão à obra Os Males da Existência ― Crónicas de um Reaccionário Minhoto, de António Sousa Homem, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 35).

Actualização em 24.10.2009

Acabo de ler: «Isso não impediu, como excepção que confirma a regra, que um escritor consagrado como Miguel Torga tivesse sistematicamente (e em Portugal, bem entendido) optado por editar, com sucesso, as suas próprias obras» (O Conhecimento da Literatura. Introdução aos Estudos Literários, Carlos Reis. Coimbra: Almedina, 2.ª ed., 2008, p. 68).

Recursos

Nova ortografia

Da autoria do professor brasileiro Douglas Tufano, a Editora Melhoramentos disponibiliza o Guia Prático da Nova Ortografia, que pode descarregar aqui. Embora mais útil aos Brasileiros, não deixa de nos interessar.

Greve e «lock-out»

Nem agora

Em alguns jornais, a confusão entre motoristas e camionistas, entre greve e paralisação continua a fazer estragos. Até no Jornal Económico, publicação em que, quanto a estas matérias, se devia ter mais cuidado, se lê: «Aquele que foi o principal instigador da greve de camionistas [Silvino Lopes] que no início de Junho lançou o quase-pânico em Portugal não tem dúvidas, o regresso à greve “é normal que aconteça”» («Camionistas admitem voltar à greve», Filipe Paiva Cardoso, Jornal de Negócios, 9.09.2008, p. 40). Ao longo de todo o texto, ora se fala em «greve», ora em «paralisação». Ora em «camionistas», ora em «motoristas». Em que ficamos? Como é que os camionistas — quase sempre identificados como os donos dos camiões e não como os seus condutores —, entidades empregadoras, fazem greve, querem explicar-me? O artigo citado diz ainda que «alguns motoristas envolvidos no protesto decidiram lançar uma nova associação, a Associação Nacional das Transportadoras Portuguesas (ANTP)». O equivalente, digamos, a os revisores lançarem uma associação de editores…
O artigo 605.º do Código do Trabalho proíbe o lock-out, definindo-o como «qualquer decisão unilateral do empregador que se traduza na paralisação total ou parcial da empresa ou na interdição do acesso aos locais de trabalho a alguns ou à totalidade dos trabalhadores e, ainda, na recusa em fornecer trabalho, condições e instrumentos de trabalho que determine ou possa determinar a paralisação de todos ou alguns sectores da empresa ou desde que, em qualquer caso, vise atingir finalidades alheias à normal actividade da empresa».
A obrigação de saber isto impende sobre o jornalista e o editor, não sobre o revisor, naturalmente. Alguém tem de saber. Nem que seja a mulher da limpeza.

«Bramir armas»?

Sempre foste informação?

      No Jornal das Nove de ontem, na Sic Notícias, Mário Crespo entrevistou longamente o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz-conselheiro Noronha do Nascimento. O tema de fundo era a posição dos juízes no combate à violência. A determinada altura, foram passadas imagens do tiroteio na Quinta da Fonte, em Loures. De facto, parecia Beirute ou Sadr City. E Mário Crespo questionou se «bramir armas assim»… Sim, repetiu pouco depois, «bramir armas». Fui, por precaução, ver todas as acepções do verbo «bramir». Nada, nem em sentido figurado, nenhuma delas diz respeito a armas, como suspeitava. Fiz uma pesquisa na Internet, e lá estava — mas que parvoíce não está na Internet?
      Seria «brandir armas» que Mário Crespo queria dizer. Isso sim, é usual dizer-se, embora no caso fosse sempre em sentido figurado, pois brandir uma arma é elevá-la para melhor descarregar o golpe. Como nas imagens só se viam caçadeiras, só à coronhada se podiam brandir aquelas armas. Noutras línguas novilatinas também existe o verbo. Em catalão, diz-se brandir, brandar ou brandejar. Em castelhano, blandir. Em galego, brandir: «Soster na man [unha arma ou outra cousa], axitándoa no aire ou facéndoa oscilar en sinal de ameaza. Brandi-la espada» (in Diccionario da Real Academia Galega). Em sentido figurado, brandir também é «agitar de modo ameaçador». E Noronha do Nascimento esteve quase para brandir o dedo indicador quando Mário Crespo quis que o presidente do STJ explicasse o que era o imperativo categórico kantiano...

Concordância verbal

Um exercício

Começou por escrever: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta.» Leu a frase e pensou que precisava de mais palavras para perfazer os caracteres a que tinha direito. Acrescentou: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Leu. Entusiasmado, acrescentou mais: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal, com um jogo muito desgastante à mistura (adversário, relvado, humidade), parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Leu outra vez. Sorriu, afagando a barriga proeminente. Pensou: «Não, aquele verbo está mal.» Reescreveu: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal, com um jogo muito desgastante à mistura (adversário, relvado, humidade), parecem ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Errou.

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