«Bramir armas»?

Sempre foste informação?

      No Jornal das Nove de ontem, na Sic Notícias, Mário Crespo entrevistou longamente o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz-conselheiro Noronha do Nascimento. O tema de fundo era a posição dos juízes no combate à violência. A determinada altura, foram passadas imagens do tiroteio na Quinta da Fonte, em Loures. De facto, parecia Beirute ou Sadr City. E Mário Crespo questionou se «bramir armas assim»… Sim, repetiu pouco depois, «bramir armas». Fui, por precaução, ver todas as acepções do verbo «bramir». Nada, nem em sentido figurado, nenhuma delas diz respeito a armas, como suspeitava. Fiz uma pesquisa na Internet, e lá estava — mas que parvoíce não está na Internet?
      Seria «brandir armas» que Mário Crespo queria dizer. Isso sim, é usual dizer-se, embora no caso fosse sempre em sentido figurado, pois brandir uma arma é elevá-la para melhor descarregar o golpe. Como nas imagens só se viam caçadeiras, só à coronhada se podiam brandir aquelas armas. Noutras línguas novilatinas também existe o verbo. Em catalão, diz-se brandir, brandar ou brandejar. Em castelhano, blandir. Em galego, brandir: «Soster na man [unha arma ou outra cousa], axitándoa no aire ou facéndoa oscilar en sinal de ameaza. Brandi-la espada» (in Diccionario da Real Academia Galega). Em sentido figurado, brandir também é «agitar de modo ameaçador». E Noronha do Nascimento esteve quase para brandir o dedo indicador quando Mário Crespo quis que o presidente do STJ explicasse o que era o imperativo categórico kantiano...

Concordância verbal

Um exercício

Começou por escrever: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta.» Leu a frase e pensou que precisava de mais palavras para perfazer os caracteres a que tinha direito. Acrescentou: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Leu. Entusiasmado, acrescentou mais: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal, com um jogo muito desgastante à mistura (adversário, relvado, humidade), parece ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Leu outra vez. Sorriu, afagando a barriga proeminente. Pensou: «Não, aquele verbo está mal.» Reescreveu: «O cansaço acumulado em três dias passados fora de Portugal, com um jogo muito desgastante à mistura (adversário, relvado, humidade), parecem ter passado à história com os 4-0 obtidos diante de Malta, uma selecção que, não estando sequer na segunda linha do futebol europeu, costuma dificultar a vida às equipas que defronta.» Errou.

Tradução. Tropa

A tradução, como sempre

«Porque é que a Rússia não saiu ainda da Geórgia? O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, explicou aos seus pares europeus que, “como sempre”, a culpa é da tradução” das preposições. Os franceses deram à Rússia o direito de garantir a paz “nas” províncias rebeldes. Só que os russos leram: garantir a paz “para” as províncias rebeldes» («A culpa é da tradução», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 9.09.2008, p. 27).
Convenhamos: escrito assim, não se percebe imediatamente a diferença. Será um problema de tradução? Vejamos. No Le Nouvel Observatoire pode ler-se: «Bernard Kouchner avait ainsi confirmé les propos d’un responsable russe, qui avait expliqué, sous couvert de l’anonymat, que “dans la version russe, le texte évoquait la sécurité ‘de l’Abkhazie’ et ‘de l’Ossétie du Sud”, alors que “dans le document transmis à Saakachvili”, en version anglaise, “cela a été présenté comme ‘en Abkhazie et “en Ossétie du Sud”» («Un retrait complet des forces russes de Géorgie dans un mois», NOUVELOBS.COM, 09.09.2008).
Assim já se percebe: no texto russo do acordo, que é uma versão do francês, lê-se «da Ossétia do Sul» e «da Abcásia». Na versão inglesa apresentada a Saakachvili lê-se «na Ossétia do Sul» e «na Abcásia». É uma diferença crucial, pois a Rússia continua a manter os tanques e os seus soldados («as suas tropas», como sempre escrevem o Diário de Notícias e o Público, esquecendo-se de que «tropa» é um substantivo colectivo. Traduzem mal do inglês. Deixem lá as «troops» com os Ingleses!) no território georgiano.

Legendagem


Nove letrinhas

Ora bem, onde é que nós ficámos ontem? Ah, sim: Tyrone Power. Pois ontem à noite passou na RTP Memória o filme A Justiça de Jesse James (Jesse James, 1939), com Power no papel de Jesse James. Depois de ter sido humilhado e sovado na quinta dos James, Barshee (Brian Donlevy), que trabalha na expansão do caminho-de-ferro de St. Louis Midland, corre juntamente com os seus capangas para junto do xerife e sugere-lhe — isto nas legendas, claro — «se nos nomear deputados»… No original, a personagem disse «deputies», que, no contexto, é «someone authorized to exercise the powers of sheriff in emergencies», ou seja, delegados do xerife. Agora só falta, para o mundo estar perfeito, que Paulo Pedroso queira ser delegado do xerife.

Legendagem

Bah

Na comédia romântica As Leis da Atracção (Laws of Attraction, de 2004), que ontem à tarde passou na TVI, há várias cenas de tribunal. Numa delas, entre réplicas, tréplicas, perguntas e respostas, lê-se a determinada altura nas legendas: «Meirinho!» Talvez tenha sido a juíza Abramovitz a gritar («Marshal!»?), não sei. A tradutora, Sara David Lopes, não tem estado certamente na Terra nos últimos tempos. (E não há revisão das legendas, como a não há da edição de Internet dos vários meios de comunicação. O público, bah, não merece tais luxos...) O primeiro meirinho-mor, que tinha à sua disposição outros meirinhos (do latim majorinu, diminutivo de major, maior), surgiu com o rei D. Afonso II. É uma figura que, entretanto, ficou pelo caminho da História. Agora temos os oficiais de justiça, nas suas diversas categorias (escrivão de direito, escrivão-adjunto e escrivão auxiliar; técnico de justiça principal, técnico de justiça-adjunto e técnico de justiça auxiliar) e carreiras (judicial e do Ministério Público).
Esta era uma película delico-doce, claro. Os autênticos filmes de tribunal (court movies, na designação norte-americana) são, para mim, o género preferido. Ainda me lembro de ter visto na Cinemateca Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957), com o magnífico Charles Laughton, Marlene Dietrich, Tyrone Power, entre outros.

Aportuguesamento

Assim somos

Já não sei quando (e eu esforço-me assaz para me esquecer), um autor português não quis que se aportuguesasse o vocábulo francês guichet com que quis «enriquecer» a sua obra. Nem pensar, argumentou, isso são «brasileirices propinadas pelo Dicionário da Academia». A verdade é que ainda o autor não tinha nascido e já Rebelo Gonçalves registava na página 515 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa (1966): «guiché, s. m. Aportg. do fr. guichet. Var. bras.: guichê
«São os sujeitos mais retrógrados do País, os revisores. Uns empatas.» Enganado pelo meu aspecto de executivo, devia pensar, coitado!, que eu era um dos editores. «A quem o diz…», suspirei. Desde então não uso gravata.

«Suster», «sustar» e ignorância

Ora sus!

Na semana passada, vi na RTP Memória parte do documentário Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado, da autoria de Diana Andringa (e pelo qual ganhou em 1993 o Prémio de Jornalismo da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento). A determinada altura, a voz off lê excertos de um relatório que o embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira (1902-1972), depois de ter falado com o cônsul em Bordéus, escreveu a Salazar. No documento lia-se claramente «sustei» (do verbo sustar), mas a voz «corrigiu» para «sustive» (do verbo suster). No contexto, têm um significado semelhante, mas para o caso não interessa. O erro decorre, creio, do facto de a maioria dos falantes não conhecer o verbo «sustar». Imperdoável num comunicador. Boa lição para toda a gente: se mostrar, não leia, e vice-versa. E vão consultando o dicionário da língua portuguesa. Não nos (e se) envergonhem.

«Rodeio» e «Estoi»

Nada de rodeios

      «O Tribunal de Faro proibiu ontem a realização de um “rodeio brasileiro”, espectáculo programado para a Feira do Cavalo de Estói, que decorre este [sic] hoje e amanhã na capital algarvia, informou a associação Animal. O “rodeio brasileiro” deveria acontecer hoje à noite, como parte do Campeonato Nacional de Rodeo, promovido pela associação portuguesa da modalidade e uma empresa que recentemente organizou um “rodeio” em Santiago do Cacém, que culminou no desabamento de uma bancada» («Tribunal proíbe realização de rodeio», Diário de Notícias, 6.09.2008, p. 39). Temos então, no mesmo texto, «rodeio» e «rodeo». No Brasil, há duas acepções do vocábulo: uma significa a reunião de gado, no campo, para o marcar; outra, a competição que consiste em montar cavalo ou boi não domesticados e permanecer montado o maior tempo possível. Ora, este conceito parece coincidir com o expresso pela palavra espanhola rodeo: «En algunos países de América, deporte que consiste en montar a pelo potros salvajes o reses vacunas bravas y hacer otros ejercicios, como arrojar el lazo, etc.» (in DRAE). Seja como for, não me parecem necessárias as aspas a envolver a palavra.
      Quanto ao nome da localidade: quase todas as obras ainda registam «Estói» — tenho o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, Editorial Notícias, 30.ª edição, aberto na página 168 e é isso que leio —, e eu próprio assim o grafei aqui uma vez, mas o certo é que pela Lei n.º 32/2005 (D. R. n.º 20/2005, I-A), de 28 de Janeiro, se alterou a denominação para Estoi.No Público, as aspas e a ortografia da palavra são as mesmas: «Tribunal de Faro proíbe “rodeio” em Estói dando razão aos defensores dos direitos dos animais» (Idálio Revez, Público, 6.09.2008, p. 22).

Actualização em 8.10.2009

      No debate da Antena 1, moderado por Maria Flor Pedroso, entre os candidatos de Faro às eleições autárquicas, José Apolinário, presidente da Câmara de Faro desde 2005 e recandidato pelo PS, pronunciou claramente /Estôi/. Infelizmente, também disse: «desde os 4/5 anos calcorrei cada um das estradas e caminhos do interior do concelho».

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