Ortografia: «guarda-florestal»

Guardem-se

      E a propósito de hífenes, lia-se ontem no Diário de Notícias: «A reunião entre a estrutura sindical que representa os guardas florestais e o Governo foi “muito inconclusiva”, afirmou ontem Paulo Trindade, à saída da reunião com o secretário de Estado da Administração Interna» («Reunião “muito inconclusiva”», Diário de Notícias, 2.09.2008, p. 12). O Público, por seu lado, titulava recentemente: «Guardas-florestais protestam». É bem certo que vivemos numa época de fúria hifenizadora. Contudo, desta vez é o Público que tem razão: os guardas das matas nacionais são designados por guardas-florestais. É uma palavra composta, e assim surge nos dicionários.

Jargão médico I

Embirrações



      Embirro (mas, à cautela, nunca o confesso aos próprios) com o jargão médico. Até já aqui dei exemplos, embora só tenha recebido objecções de estudantes de Medicina. Ou seja, os aprendizes de feiticeiro é que assumem a defesa da honra. Embirro muito mais quando os jargões extravasam da classe. Lê-se no Record de hoje: «O médio Guerra fez uma rotura muscular na coxa esquerda e realiza hoje uma ecografia para avaliar a extensão da lesão, que o deverá afastar dos relvados por um período entre duas a três semanas. Por seu turno, o avançado Pires fez uma luxação num dedo da mão esquerda e terá de colocar gesso» («Quatro baixas para Garcia», Record, p. 35).
      Aposto que se o senhor Alfredo, ali o das hortas junto à Estrada da Circunvalação, tiver um problema semelhante, seja luxação seja rotura, não dirá nada disso (nem dirá que vai «realizar uma ecografia», de resto). Os jornalistas deviam seguir o exemplo do senhor Alfredo. Quando li o texto, lembrei-me logo de outro que Fernando Venâncio publicou já este ano no Aspirina B, intitulado «Jeito para tudo»: «— Não pude ir. Fiz uma nevralgia. — Ah… E ficou bem feita?»


Formações com prefixos: anti-

Vejam lá isso

      O Diário de Notícias, que nem sequer é o pior jornal neste aspecto, titulava (mas os títulos têm vindo ultimamente a ser escritos da forma mais desleixada que é possível) ontem: «Quercus ‘condena’ caravanistas anti-ambiente» (Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 24). Pergunto: não será a maioria destes erros proveniente da Lusa? E a Lusa não tem revisores?
      Anti- leva hífen antes de h, i, r, s: anti-herói, anti-infeccioso; anti-racista, anti-semita.

«Profeta» com minúscula

Maiores e menores

      Um nigeriano, Mohammed Bello Abubakar, professor e pregador, divorciou-se anteontem de 82 mulheres (ainda fica com quatro). Tem mais de 170 filhos. «A família de Abubakar não trabalha e ninguém sabe como se sustenta», lê-se na notícia publicada ontem no Diário de Notícias. Posso dar uma ajudinha: várias organizações «humanitárias» de países islâmicos (normalmente a Arábia Saudita, com os seus petrodólares) aproveitam-se da pobreza para converter: a quem usar o hijab, o véu islâmico, é dado dinheiro. Já se viu isso na Somália, na Bósnia, etc. Mas não era sobre isso que queria escrever, mas sobre isto: «Abubakar diz que fala pessoalmente com o profeta Maomé» («Nigeriano divorcia-se de 82 das 86 mulheres», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 31). Nada de novo por aqui, só para reforçar: Maomé é profeta como profetas são os da tradição cristã, e estes nunca mereceram maiúscula inicial. Está, pois, muito bem: profeta Maomé. Só se for por antonomásia, argumentam? Porquê? De qualquer modo, não ficaria junto do nome Maomé.

Recursos

Mui•to bem



      O que um simples dicionário de menos de 5 euros fazia, e muito bem, é feito agora também pela MorDebe, uma base de dados com palavras do português: informar sobre a partição das palavras na escrita. Utilíssimo.




Recursos

Leiam

Já aqui deixei hoje a indicação de uma obra — O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós — alojada no Arcos Digital, o portal de Arcos de Valdevez, que vale a pena explorar. Agora deixo a indicação da obra, que os leitores podem descarregar, A Língua Portuguesa no Alto Minho, da autoria de Victor Domingos.

Máfia ou mafia?

É o que vamos ver

«A notícia foi revelada pelo diário ABC na sua edição de ontem. De acordo com este jornal espanhol, Jurij Salikov, um dos elementos da Tambovskaya (mafia russa) que se encontra detido em Maiorca foi investigado por ter estado ligado a uma operação de venda de aviões de guerra russos para um país africano, presumivelmente Angola» («Mafia russa negociou aviões de guerra para Angola», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 27).
Máfia ou mafia? O Diário de Notícias grafa sempre «mafia». Nos últimos anos, porém, só se lê e ouve a primeira. Escreve, a propósito, o consultor do Ciberdúvidas F. V Peixoto da Fonseca: «Em italiano é Mafia, nome próprio, esdrúxula mas sem acento gráfico, conforme preceitua a ortografia da língua. E é assim que se deve também pronunciar em Portugal como no Brasil: /Máfia/. A pronúncia do vocábulo como grave (/Mafía/) é pois errada e causada pelo desconhecimento do italiano, que leva a querer sujeitar a palavra às regras de acentuação portuguesas.»
Será mesmo errada? Eu sempre disse e escrevi «mafia», porque será esdrúxula em italiano, mas em português é claramente grave, como muitas outras terminadas em –ia: biopsia, glicemia, hipocondria, leucemia, miopia, orgia, radioterapia, septicemia, tecnocracia, etc. (Podem pesquisar mais neste Rimário, muito útil, da autoria de Creusmar Pereira de Almeida.) Por analogia, então, mafia.

Derivação imprópria

Morno, morno

O Diário de Notícias publicou ontem um especial (pp. 32-33) sobre o furacão Gustav. «Talvez por isso, o mayor de St Paul, Chris Coleman, diga que Mineápolis é um Chablis — um vinho branco da região francesa da Borgonha — e St Paul é uma cerveja» («Que nome dar a esta convenção?», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 33).
Em português, já aqui o escrevi mais de uma vez, à mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria. A questão é que esta alteração também afecta — ao contrário do que muita gente defende, vá-se lá saber porquê — graficamente a palavra. No caso, teria de se escrever chablis, derivado de Chablis, localidade vinícola francesa. Uma abonação da obra (que pode descarregar integralmente aqui) O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós (1948-1919): «Não saíra, depois, dos seus aposentos, onde lhe foi servido um simples caldo, bocado de peito de galinhola, um pequeno copo de chablis...» (p. 13)

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