«Nelson» e «Nélson». «Triplo salto»


Vamos contá-los

Muito curioso: o Diário de Notícias, entre outros jornais, escreve sempre «Nélson Évora». O Record, «Nelson». No que se refere aos nomes próprios, já sabem, respeito sempre (até para que sempre me respeitem) a forma como os escrevem quem os tem. A fonte mais acessível é o sítio do atleta, em que se pode ler «Nelson Évora».
Estabelece a Instrução n.º 38 do Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (1947): «Para ressalvar de direitos, poderá ser mantida a grafia dos nomes próprios adoptada pelos seus possuidores na assinatura, bem como a grafia original de firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos inscritos em registo público.»
A primeira página do Record que ilustra este texto é paradigmática. Por um lado, grafa «Nelson Évora», por ser, estou convencido disso, o nome do atleta; por outro, grafa «Nélson», o lateral-direito do Benfica. Não, não é a minha influência a fazer-se sentir. Não concordo com tudo, de resto. Porquê «triplo-salto»? É, tanto quanto sei, o único jornal que escreve assim. O que é que o atleta faz? Dá três saltos: primeiro, segundo, terceiro. Triplo salto. Só há uma obra a registar a ortografia «triplo-salto»: o Novo Prontuário Ortográfico de José Manuel de Pinto Castro.

Símbolos. Medidas de tempo

Ah, pois

A propósito do texto «Só se for na China» (e espero que o leitor já tenha encontrado o poste, seja lá qual for a intenção), devo acrescentar que, ainda que o correcto seja não afastar o símbolo da parte numérica — 36’ —, esta indicação da medida de tempo é incorrecta, pois os símbolos e ’’ representam minuto e segundo enquanto unidades de ângulo plano e não de tempo. Logo, o correcto é escrever, por exemplo, 4 h 32 min 3 s (com afastamento de até um carácter) e não 4:32 h ou 4 h 32’ 3’’. Ora, basta ler qualquer jornal desportivo ou secção de desporto de um generalista para vermos esta forma incorrecta.

Plural dos nomes próprios

Muito bem

«Os Mukaseis escreveram ainda um livro de memórias, publicado em 2004, intitulado Zephyr, do nome de código de Mikhail» («Um espião que prestou grandes serviços à Rússia», Diário de Notícias, 22.08.2008, p. 37). O excerto faz parte de um obituário e os Mukaseis são Mikhail Mukasei e Elizaveta Mukasei. São dois, logo, Mukaseis. Sim, com qualquer nome: o Bush, os Bushes.

Transliteração de nomes

Respeitinho

      Sim, sou apologista de se escrever os antropónimos tal como são nas línguas originais. (No alfabeto latino, naturalmente.) Nos jornais, é claro, pensa-se de forma diversa. Um exemplo. O defesa sérvio Nemanja Vidić, actualmente a jogar no Manchester United, vê o nome desvirtuado para Vidic nos jornais portugueses. Podia ser pior, claro. Contudo, o correcto é ser grafado com o diacrítico no c, a indicar palatização (produção de som pelo contacto da língua com o palato) fraca.
 


Símbolos

Só se for na China

«Fez 9,69s mas, mais do que a marca que o torna o 19.º recordista do hectómetro, o jamaicano impressionou pela forma tranquila como a atingiu» («Bolt supersónico até a travar», Rui Hortelão, Diário de Notícias, 17.08.2008, p. 45). Talvez Rui Hortelão não o possa fazer em Pequim, mas em Lisboa o editor e o revisor da peça podem, se quiserem, saber se este símbolo fica sem espaço depois do valor numérico. E não fica. Deve ser confusão com isto, que está certo: «A Argentina defrontou a Holanda e Lionel Messi voltou a marcar (14’), tendo Bakkal empatado (36’)» («Argentina e Brasil medem forças na meia-final», Diário de Notícias, 17.08.2008, p. 49).

Erradamente «arreado»

Reincidentes

«Também a Praia de Olhos d’Água, em Albufeira, viu arreado na quinta-feira o símbolo de qualidade balnear, mas neste caso apenas até serem conhecidos os resultados das próximas análises. […] A praia da Baleia, no concelho de Mafra, perdeu ontem definitivamente a Bandeira Azul por diminuição da qualidade da água, anunciou a entidade que atribui o galardão e fiscaliza as condições das praias» («Praia da Baleia perde bandeira azul», Diário de Notícias, 20.08.2008, p. 10). Os editores e os revisores não lêem o jornal no dia seguinte? Deviam. A bandeira continua ornamentada. Ora é «Bandeira Azul», ora «bandeira azul». No mesmo texto… Ora «praia» (da Baleia), ora «Praia» (de Olhos d’Água). Pobre leitor…

Tradução

Aguanta firme

Na redacção do Record, por cima de cada sanita da casa de banho dos homens há (que luxo!) um dispensador de folhas de papel para cobrir o assento da sanita. Como a engenhoca é espanhola, a indicação está na língua de Cervantes: Presione hacia abajo. Pressionei, só para ver. Papel vegetal. Muito higiénico. Contudo, não é para escrever de assuntos escatológicos que serve este texto. Serve, isso sim, para lamentar que as traduções de espanhol que vou vendo sejam tão, tão más, quando os instrumentos (e a sensibilidade? e o discernimento? e o estudo? e o empenho? e o esforço? e a cultura geral?) abundam. Claro que sempre dá para escolher um menos mau entre os 10 milhões de tradutores do espanhol que vivem no território.

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