Ortografia: «porto-santense»

Espera lá

«Em declarações à Lusa, o presidente do município portossantense, Roberto Silva, garantiu que o grupo Plaza Prestige, que inclui o futebolista, mantém a aposta no projecto, tendo já adquirido alguns terrenos e “continua a comprar” na zona da Calheta» («Cristiano Ronaldo avança com hotel de luxo em Porto Santo», Diário de Notícias, 20.08.2008, p. 30). Ainda o leitor incauto vai julgar que é alteração imposta pelo Acordo Ortográfico de 1990. Nada disso: é erro. Erros e gralhas inçam agora o Diário de Notícias. Os próprios títulos, objecto de muito mais atenção nos jornais, são agora desprezados neste diário: «Contra-bando de bíblias descoberto» (19.08.2008, p. 41). Sobre uma ponte romana em Chaves: «Autarquia desfaz tabu sobre a ponta romana» (19.08.2008, p. 20).

Particípios regular e irregular

Morta está a língua

«No sangue de centenários que sobreviveram à pandemia da gripe de 1918, cientistas norte-americanos conseguiram ainda descobrir anticorpos activos contra aquela estirpe viral [,] que terá morto pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo» («Anticorpos contra gripe de 1918 ainda estão activos», Clara Barata, Público, 19.08.1008, p. 13). Pois, cara Clara Barata, mas com os verbos auxiliares ser e estar, devemos empregar o particípio irregular do verbo principal: foi/está morto; com os auxiliares ter e haver, devemos empregar o particípio regular: tinha/havia matado.
Outra vez: «No sangue de centenários que sobreviveram à pandemia da gripe de 1918, cientistas norte-americanos conseguiram ainda descobrir anticorpos activos contra aquela estirpe viral [,] que terá matado pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo.»

Bilião, outra vez

Desilusão


      Afinal, parece que o jornalista Rui Marques Simões não lê este blogue. «Liu Xiang desiludiu ontem um quinto da população mundial» («Pressão de um bilião de chineses foi calcanhar de Aquiles de Xiang», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 19.08.2008, p. 36).

Léxico: «basónimo»

Ficam a saber

Já sei que sabem o que são acrónimos, alónimos, antónimos, antropónimos, asterónimos, astiónimos, astrónimos, autónimos, axiónimos, bibliónimos, criptónimos, cronónimos, etnónimos, fitónimos, hagiónimos, heortónimos, heterónimos, hidrónimos, hierónimos, hiperónimos, hipónimos, holónimos, homónimos, matrónimos, merónimos, mitónimos, orónimos, ortónimos, panteónimos, parónimos, potamónimos, prosónimos, pseudónimos, sinónimos, tautónimos, teónimos e topónimos — mas sabem o que são basónimos? Não sabem? Então já têm algo em comum com os jornalistas. Estes não os sabem grafar, os leitores não conhecem o conceito. Pois basónimos são epítetos binominais ou trinominais, em latim, usados para designar um ser vivo, seus Homo sapiens.

topónimo

Até que enfim!

No Diário de Notícias já perceberam — aposto que à custa de muitos protestos de leitores — que o topónimo não se escreve como o estavam a fazer, mas assim: «As aventuras dos cinco da Abrançalha de Baixo» (reportagem de Isabel Lucas, Diário de Notícias, 17.08.2008, pp. 6-7).

Transliteração de nomes

Ouvindo o provedor

Karadzic ou Karadžič? «Não existe em Portugal», lembra o provedor do jornal Público em resposta à carta de um leitor, João Sousa André, «nenhuma convenção que os jornais sigam a este respeito. Mas o provedor recomenda que, nas transliterações, o jornal consagre para cada nome a forma foneticamente mais aproximada em português, e não siga a mera grafia usada na imprensa anglo-saxónica, que é o que mais se pratica (tal como antes se seguia a francófona)» («Ouvindo os leitores», Joaquim Vieira, Público, 17.08.2008, p. 16). Agora só falta que ouçam o provedor.

Dixit e dixerunt


Latim de cozinha

Metade está errada. Qual? Uma qualquer. Não, não estou a tresler. Uma qualquer. A demonstração? Ei-la: Treinador dixit. Treinadores dixerunt. Fica sempre bem usar latim no meio daquilo que escrevemos, excepto quando está errado. Traduzindo a metade latina, temos: «Treinadores disse.» Isto está correcto? É claro que não. Fica o recado. Aqui e lá.
No latim há, como em português, três pessoas: a primeira, que fala: ego; nos; a segunda, com quem se fala: tu; vos; a terceira, de quem se fala: ille; illi.
Dico, dicis, dixi, dictum, dicere
. Há, em relação à conjugação verbal latina, uma especificidade no ensino: costuma-se enunciar os verbos pelas formas dos chamados tempos primitivos: a primeira pessoa do singular do presente do indicativo (dico); a segunda pessoa do singular do presente do indicativo (dicis); a primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (dixi); o supino (dictum) e o infinitivo (dicere). O pretérito perfeito do indicativo conjuga-se assim: dixi, dixisti, dixit, diximus, dixistis, dixerunt. De nada. Aprendam sempre. Voltem sempre, digo.

Arrear ≠ arriar

Arriar no público leitor



      «A Bandeira Azul voltou ontem a ser arreada na praia dos Olhos d’Água, no litoral de Albufeira, por existir indícios de que a água do mar não reúne as condições para exibir o símbolo europeu de qualidade» («Praia dos Olhos d’Água volta a arrear Bandeira Azul devido aos resultados das análises à qualidade da água», Idálio Revez, Público, 16.08.2008, p. 24).
      Bem pode o Livro de Estilo do Público registar: «rédea — Como arrear (dif. de “arriar”) e arreata.» Os jornalistas e os revisores não o lêem. As bandeiras, os cabos, as linhas, as redes e as velas arriam-se, isto é, fazem-se descer, abaixam-se, soltam-se. As montadas é que são arreadas, isto é, aparelhadas, lhe são postos arreios. Se querem uma mnemónica, ei-la: é com i, arriar, quando tem o significado de fazer descer, abaixar. Dois ii: arriar, abaixar.
      Em catalão é que tanto se pode arriar uma bandeira como uma cavalgadura: «Estimular (una bèstia) a continuar o accelerar la marxa, amb la veu, les xurriaques, etc.» Curiosamente, temos a palavra «arrieiro», o condutor de bestas de aluguer, de arre+-eiro.

Actualização em 18.08.2008


      Também o Diário de Notícias traz o mesmo erro: «A Praia Olhos d’Água, Albufeira, ficou este fim-de-semana prolongado sem bandeira azul, situação que ocorre pela segunda vez este Verão, depois de já ter sido arreada no início deste mês por descargas de esgotos» («Olhos d’Água de novo sem bandeira azul», Diário de Notícias, 17.08.2008, p. 16). A fonte, é claro, é a mesma: Lusa. O problema também é o mesmo: aceitação acrítica do que se recebe.


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