Léxico: «sagging»


Linda figura

      Se José Rentes de Carvalho, escritor e bloguista seriíssimo e vernáculo, pode escrever, no Tempo Contado, sobre o camel toe, sinto-me autorizado a abordar aqui o sagging. Foi o Diário de Notícias que veio lembrar o fenómeno e a designação: «É um mistério como conseguem andar com as calças pelo meio da coxa, mas os adeptos desta moda (sagging, em inglês) são cada vez mais e insistem em mostrar ao mundo roupa interior de todas as cores e tamanhos. A moda terá surgido nas prisões norte-americanas, onde os cintos são proibidos devido ao eventual uso em enforcamentos» («Calças baixas», Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 9).

Espanhol do Uruguai


Coisas do Uruguai


      Aposto que alguém, por esse mundo fora, me irá mentalmente agradecer por indicar aqui este léxico com 1000 palavras do espanhol do Uruguai.

Pontuação

Vírgulas a mais

     Estou cada vez mais convicto de que existem usos arbitrários deste sinal de pontuação, ainda que não o aparentem. Tome-se este excerto da obra Algumas Distracções, de Francisco José Viegas, já aqui citada: «Aliás, uma das coisas que mais me preocupa hoje, em Portugal, é a tendência para que a opinião individual desapareça diante das chamadas “opiniões maioritárias” — é cada vez mais rara a figura do colunista, do cronista ou do cidadão comum que arrisca a sua opinião sem cuidar das consequências e do desprestígio que uma “má opinião” lhe pode trazer. Alguns, perdem o emprego. Outros, perdem a consideração das maiorias» (p. 7). Por mais voltas que se dê, a pontuação das últimas duas frases está errada. E está errada porque não se separa o sujeito do verbo por vírgula, a não ser que haja entre ambos um termo intercalado, que não é o caso destas frases. Por exemplo: Alguns, menos precavidos, perdem o emprego. Outros, desprestigiados por algum motivo, perdem a consideração das maiorias.
      O erro, neste caso concreto, decorre da malfadada crença de que onde há uma pausa há uma vírgula. Nada mais errado. Até pode acontecer que onde haja vírgula não haja pausa.

Milhões e biliões

Menos é mais… certo

«Parece mentira, mas é verdade: a Índia, gigante demográfico com 1 bilião de habitantes, só ontem obteve a sua primeira medalha de ouro individual em Jogos Olímpicos — o melhor que conseguira, desde 1896, fora a vitória, em oito ocasiões, no hóquei em campo» («Novo herói da Índia vai receber 370 mil dólares», Rodrigo Cordoeiro, Público, 13.08.2008, p. 23). Veja lá, caro Rodrigo Cordoeiro, se faz a coisa por menos. Por menos zeros. Parece mentira, mas é verdade: a confusão persiste, apesar do que regista o próprio Livro de Estilo do Público: «bilião — Um milhão de milhões, em português.»

Tradução

Será plausível?

Mentiria se dissesse que não gostei de ler a crónica de ontem de José Vítor Malheiros no Público. Eis um excerto: «Pode-se pensar que os carros deixaram de obedecer à passadeira em virtude daquilo que os americanos chamam plausible deniability. (“Passadeira? Qual passadeira? Eu vi umas marcas muito sumidas, mas pensava que fossem de uma passadeira antiga que já nem existisse.”) Pode-se pensar que alguns dos automobilistas não vejam mesmo as marcas (é por isso que a deniability é plausible)» («Da pintura das passadeiras», José Vítor Malheiros, Público, 12.08.2008, p. 33).
O que me pergunto é se o autor não podia ter traduzido as palavras e expressões inglesas que usa, e nomeadamente a que se lê acima, plausible deniability, para cabal compreensão do leitor. A não ser — ponho ser esta hipótese — que o objectivo não seja ser-se compreendido. Pois traduz-se por negação plausível ou negação capciosa. A negação plausível refere-se à recusa de responsabilidade nas cadeias de comando informais, em que os escalões mais elevados de poder atribuem a responsabilidade aos escalões mais baixos de comando. É uma estratégia muito usada na política, na guerra e nas acções de espionagem, para dar cobertura a actos ilegais ou impopulares. Não sei é se se aplica com propriedade ao caso dos automobilistas. Vou pensar.

Léxico: «georgiano»

Isso é no Brasil

A propósito da guerra no Cáucaso Meridional, o ex-embaixador José Cutileiro dizia ontem num serviço noticioso da Antena 1 que «o presidente geórgio» não sei quê. Quanto ao não-sei-quê, estamos de acordo, mas «geórgio»? Em Portugal, o adjectivo do que é relativo ou pertencente à República da Geórgia é «georgiano». O mais parecido com o que José Cutileiro disse é «geórgico», também adjectivo, mas este relativo aos trabalhos agrícolas, com etimologia grega através do latim (não é assim, Adriana?). Talvez, a influência entre as línguas é incalculável, o gentílico provenha do vocábulo grego para cultivar, γεωργία (gueōrguia).
No português do Brasil é que o adjectivo do que é relativo ou pertencente à República da Geórgia é «geórgio». «O presidente geórgio tem acusado a Rússia de apoiar as regiões para sabotar o seu governo. Moscou nega as alegações» (in BBC Brasil, aqui).

«Arcebispo emérito». Tradução

Mais elevação

Ainda a propósito da tradução do programa Panorama BBC de anteontem, na Sic Notícias, nas legendas o sul-africano Desmond Tutu foi dado como «ex-arcebispo». Bem, ainda que esta formulação apareça com alguma frequência, a verdade é que se deve dizer «arcebispo emérito». Não sei o que pretendem os tradutores fazer com os milhares de vocábulos que jazem, empoeirados, nos dicionários. Não há-de ser assim, com esta pobreza lexical, que elevarão o espírito dos leitores nem o seu próprio. Antecipo-me a qualquer objecção: desculpas. As pessoas aprendem.

«Pastel de bacalhau»?

Imagem: http://www.fajardoeteresa.kit.net/

Fornos e frigideiras


É notícia na maioria da imprensa (a estação parva leva a isto…) que o restaurante do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Saragoça está a servir 40 a 50 quilos de bacalhau por dia. Não sabemos se o restaurante servirá os tão característicos croquetes de bacalhau. Ou serão pastéis de bacalhau? É o desafio que me lançam daqui.
Bem, de facto, em culinária, um pastel é uma porção de massa de farinha com recheio de picado de carne ou de peixe, doce, etc., cozida no forno. Talvez venha do italiano pastello: «massa rassodata di varie sostanze (vegetali, animali o minerali) tritate, impastate e fatte rassodare» (in De Mauro).
Um croquete, por seu lado, é um bolo aproximadamente cilíndrico feito de picado de carne, de peixe ou de marisco, envolvido em pão ralado e frito. Vem do francês croquette: «Boulette de composition très diverse, frite après avoir été roulée dans la farine, trempée dans du jaune d’œuf et saupoudrée de chapelure ou de mie de pain fine. Croquette de bœuf, de/au fromage, de morue, de poisson, de pomme de terre, de riz, de volaille. Croquettes aux abricots, de marrons» (in TLFI).
Entre bolinho de bacalhau e pastel de bacalhau, venha o Diabo e leve os dois para o Inferno, para os cozer. Sempre disse croquete de bacalhau, tal como a minha mãe, exímia a fazê-los.

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