«Pastel de bacalhau»?

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Fornos e frigideiras


É notícia na maioria da imprensa (a estação parva leva a isto…) que o restaurante do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Saragoça está a servir 40 a 50 quilos de bacalhau por dia. Não sabemos se o restaurante servirá os tão característicos croquetes de bacalhau. Ou serão pastéis de bacalhau? É o desafio que me lançam daqui.
Bem, de facto, em culinária, um pastel é uma porção de massa de farinha com recheio de picado de carne ou de peixe, doce, etc., cozida no forno. Talvez venha do italiano pastello: «massa rassodata di varie sostanze (vegetali, animali o minerali) tritate, impastate e fatte rassodare» (in De Mauro).
Um croquete, por seu lado, é um bolo aproximadamente cilíndrico feito de picado de carne, de peixe ou de marisco, envolvido em pão ralado e frito. Vem do francês croquette: «Boulette de composition très diverse, frite après avoir été roulée dans la farine, trempée dans du jaune d’œuf et saupoudrée de chapelure ou de mie de pain fine. Croquette de bœuf, de/au fromage, de morue, de poisson, de pomme de terre, de riz, de volaille. Croquettes aux abricots, de marrons» (in TLFI).
Entre bolinho de bacalhau e pastel de bacalhau, venha o Diabo e leve os dois para o Inferno, para os cozer. Sempre disse croquete de bacalhau, tal como a minha mãe, exímia a fazê-los.

Voz «off»

♫ O Areias…


      Herman José vai voltar com a Roda da Sorte. «As diferenças são que não voltará a voz-off, haverá nova assistente (cujo casting está em curso) e um Herman século XXI» («Dezoito anos depois, o Herman José do século XXI regressa à Roda da Sorte», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 11.08.2008, p. 10). Quem diz «o Herman José», podemos supor, também dirá o Camões, o Vasco da Gama, o Cavaco Silva… Mas isso agora não interessa, mas sim a voz: para já, arrepia-me sempre que numa palavra composta metade apareça em itálico e metade em redondo. No caso, para quê o hífen? Sempre li «voz off». Leio no sítio da Universidade Aberta: «A voz off é proferida por alguém fora do campo visual em questão. Identificamos-lhe três funções: contextualização, como é o caso dos documentários; reflexão interior, o monólogo do pensamento de uma personagem; criar situações imaginárias.»

Regência do verbo «aconselhar»

Mais um conselho

«Em comunicado, o subeditor da Random House anunciou que foi aconselhado de que a obra [The Jewel of Medina, de Sherry Jones] poderia ofender o islão, mas também incitar à violência dos grupos mais radicais» («Livro cancelado por medo de ofender islão», J. M., Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 48). Foi «aconselhado de que a»? A sério? E ele percebeu o conselho? Com esta redacção, só omitindo a preposição a frase fica apresentável: aconselhado que.

Verbo «meter». Confusões (I)

Mete-te na tua vida

Estranhamente, alguns jornalistas confundem os verbos pôr, colocar e meter. Veja-se este caso lamentável da edição de ontem do Diário de Notícias: «Morreu electrocutado na madrugada de ontem o jovem espanhol de 20 anos que meteu a cabeça num poste de alta tensão» («Colocou a cabeça num poste e morreu», Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 26). E no pós-título: «Jovem espanhol faleceu electrocutado quando meteu a cabeça num poste de alta tensão em Valência».
Como é que ele se foi arranjar para fazer entrar, inserir, pôr dentro, introduzir a cabeça no poste, querem ter a bondade de me explicar? Se está bem contado, foi numa frincha do poste.
Com erros destes, como é que o leitor pode meter dente num artigo? Meter água nestas questões básicas da língua não é um pouco humilhante para um jornalista? Como é que metem os pés pelas mãos desta maneira? Não quero meter à bulha ninguém, nem meter o nariz, mas os revisores não tinham obrigação de emendar estes erros tão óbvios, deixando de se meter nas encolhas? Sim, porque meter na cabeça dos jornalistas que é assim ou assado nem sempre resulta, é melhor sermos nós a fazer. Claro, porque não os podemos meter a ferros. Mas eles que não venham agora meter-nos os dedos pelos olhos dizendo que o tempo, a pressa… E nós? Sim, a pobre língua... mete pena. Mete raiva também. Não, não, não vamos agora metê-los à cara. Calma, calma! Vamos antes metê-los num chinelo.

Rei Sol. Pontuação. Etimologia

Assim está melhor

A propósito da provável etimologia da palavra «gravata», lia-se ontem no Diário de Notícias: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França, Luís XIV, o “Rei-Sol”. […] Ninguém sabe ao certo a etimologia da palavra “gravata”. Julga-se que vem da palavra “croata”. Pode não ser verdade, mas faz sentido» («Gravata é parecido com croata», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 6). A primeira frase saiu um pouco torta ao jornalista. Endireitemo-la, pois: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França Luís XIV, o Rei Sol.» Sem mais comentários.

Pronomes de reverência. Tradução

Falsas realezas


      O Panorama BBC de ontem, na Sic Notícias, era sobre a Igreja Anglicana e a crise que a está a afectar. Um dos entrevistados foi, como seria inevitável, o arcebispo da Igreja Anglicana da Nigéria, Peter Jasper Akinola, «o Bin Laden do anglicanismo», tradicionalista que é contra a ordenação de religiosos homossexuais. Porque está na Bíblia, diz, é só ler. Em duas ocasiões, o repórter Ben Anderson profere o pronome de reverência inglês usado habitualmente no trato com um arcebispo da Igreja Anglicana: Your Grace. A tradutora portuguesa não teve dúvidas e verteu para Sua Alteza. Estava-se mesmo a ver. Ora, para um arcebispo, em português a forma de tratamento é Excelência, e por escrito, V.ª Exc.ª Reverendíssima.

Insultos indígenas

Imagem: http://www.bbc.co.uk/

À distância


Estou aqui a ler Algumas Distracções, uma recolha de textos que Francisco José Viegas foi publicando no extinto Aviz e no bem vivo A Origem das Espécies (publicada pelas Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 1.ª ed., 2007). Quanto a distracções (e qualquer dia, distrações), só na pontuação, mas não é disso que quero falar, antes deste texto: «Senhor, Sr. Tornou-se moda, em Portugal, para insultar os adversários à distância, tratá-los por “Senhor”: o “Senhor Bush”, o “Senhor Aznar”, o “Senhor Blair”. Esse arrivismo de pacotilha é irritante mas demonstra a parvoíce em que anda a gramática: quando se ouve alguém a ser tratado por “Senhor”, já se sabe — é insulto. 25.5.04» (p. 200). A simples leitura deste texto fez-me evocar, por contraste, Cambridge e o carteiro que cumprimentava toda a gente (até a mim, um estrangeiro de passagem) com um aceno de quem parece que vai tirar o chapéu. Gesto, aliás, que homens idosos mesmo sem chapéu também fazem. Com pessoas assim, eu até esqueço os dias de chuva inopinada no Verão e a comida intragável.

BBC Radio 4


Ouçam

Diana Athill, considerada a melhor editora em Londres durante 50 anos, escreve na sua obra Somewhere Towards the End: «Tenho amigos queridos em Nova Iorque que estão quase prontos a mudar-se para Londres por causa da Rádio 4.» É porque os amigos não têm ligação à Internet. Sim, a melhor estação de rádio do mundo está aqui.

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