Voz «off»

♫ O Areias…


      Herman José vai voltar com a Roda da Sorte. «As diferenças são que não voltará a voz-off, haverá nova assistente (cujo casting está em curso) e um Herman século XXI» («Dezoito anos depois, o Herman José do século XXI regressa à Roda da Sorte», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 11.08.2008, p. 10). Quem diz «o Herman José», podemos supor, também dirá o Camões, o Vasco da Gama, o Cavaco Silva… Mas isso agora não interessa, mas sim a voz: para já, arrepia-me sempre que numa palavra composta metade apareça em itálico e metade em redondo. No caso, para quê o hífen? Sempre li «voz off». Leio no sítio da Universidade Aberta: «A voz off é proferida por alguém fora do campo visual em questão. Identificamos-lhe três funções: contextualização, como é o caso dos documentários; reflexão interior, o monólogo do pensamento de uma personagem; criar situações imaginárias.»

Regência do verbo «aconselhar»

Mais um conselho

«Em comunicado, o subeditor da Random House anunciou que foi aconselhado de que a obra [The Jewel of Medina, de Sherry Jones] poderia ofender o islão, mas também incitar à violência dos grupos mais radicais» («Livro cancelado por medo de ofender islão», J. M., Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 48). Foi «aconselhado de que a»? A sério? E ele percebeu o conselho? Com esta redacção, só omitindo a preposição a frase fica apresentável: aconselhado que.

Verbo «meter». Confusões (I)

Mete-te na tua vida

Estranhamente, alguns jornalistas confundem os verbos pôr, colocar e meter. Veja-se este caso lamentável da edição de ontem do Diário de Notícias: «Morreu electrocutado na madrugada de ontem o jovem espanhol de 20 anos que meteu a cabeça num poste de alta tensão» («Colocou a cabeça num poste e morreu», Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 26). E no pós-título: «Jovem espanhol faleceu electrocutado quando meteu a cabeça num poste de alta tensão em Valência».
Como é que ele se foi arranjar para fazer entrar, inserir, pôr dentro, introduzir a cabeça no poste, querem ter a bondade de me explicar? Se está bem contado, foi numa frincha do poste.
Com erros destes, como é que o leitor pode meter dente num artigo? Meter água nestas questões básicas da língua não é um pouco humilhante para um jornalista? Como é que metem os pés pelas mãos desta maneira? Não quero meter à bulha ninguém, nem meter o nariz, mas os revisores não tinham obrigação de emendar estes erros tão óbvios, deixando de se meter nas encolhas? Sim, porque meter na cabeça dos jornalistas que é assim ou assado nem sempre resulta, é melhor sermos nós a fazer. Claro, porque não os podemos meter a ferros. Mas eles que não venham agora meter-nos os dedos pelos olhos dizendo que o tempo, a pressa… E nós? Sim, a pobre língua... mete pena. Mete raiva também. Não, não, não vamos agora metê-los à cara. Calma, calma! Vamos antes metê-los num chinelo.

Rei Sol. Pontuação. Etimologia

Assim está melhor

A propósito da provável etimologia da palavra «gravata», lia-se ontem no Diário de Notícias: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França, Luís XIV, o “Rei-Sol”. […] Ninguém sabe ao certo a etimologia da palavra “gravata”. Julga-se que vem da palavra “croata”. Pode não ser verdade, mas faz sentido» («Gravata é parecido com croata», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 6). A primeira frase saiu um pouco torta ao jornalista. Endireitemo-la, pois: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França Luís XIV, o Rei Sol.» Sem mais comentários.

Pronomes de reverência. Tradução

Falsas realezas


      O Panorama BBC de ontem, na Sic Notícias, era sobre a Igreja Anglicana e a crise que a está a afectar. Um dos entrevistados foi, como seria inevitável, o arcebispo da Igreja Anglicana da Nigéria, Peter Jasper Akinola, «o Bin Laden do anglicanismo», tradicionalista que é contra a ordenação de religiosos homossexuais. Porque está na Bíblia, diz, é só ler. Em duas ocasiões, o repórter Ben Anderson profere o pronome de reverência inglês usado habitualmente no trato com um arcebispo da Igreja Anglicana: Your Grace. A tradutora portuguesa não teve dúvidas e verteu para Sua Alteza. Estava-se mesmo a ver. Ora, para um arcebispo, em português a forma de tratamento é Excelência, e por escrito, V.ª Exc.ª Reverendíssima.

Insultos indígenas

Imagem: http://www.bbc.co.uk/

À distância


Estou aqui a ler Algumas Distracções, uma recolha de textos que Francisco José Viegas foi publicando no extinto Aviz e no bem vivo A Origem das Espécies (publicada pelas Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 1.ª ed., 2007). Quanto a distracções (e qualquer dia, distrações), só na pontuação, mas não é disso que quero falar, antes deste texto: «Senhor, Sr. Tornou-se moda, em Portugal, para insultar os adversários à distância, tratá-los por “Senhor”: o “Senhor Bush”, o “Senhor Aznar”, o “Senhor Blair”. Esse arrivismo de pacotilha é irritante mas demonstra a parvoíce em que anda a gramática: quando se ouve alguém a ser tratado por “Senhor”, já se sabe — é insulto. 25.5.04» (p. 200). A simples leitura deste texto fez-me evocar, por contraste, Cambridge e o carteiro que cumprimentava toda a gente (até a mim, um estrangeiro de passagem) com um aceno de quem parece que vai tirar o chapéu. Gesto, aliás, que homens idosos mesmo sem chapéu também fazem. Com pessoas assim, eu até esqueço os dias de chuva inopinada no Verão e a comida intragável.

BBC Radio 4


Ouçam

Diana Athill, considerada a melhor editora em Londres durante 50 anos, escreve na sua obra Somewhere Towards the End: «Tenho amigos queridos em Nova Iorque que estão quase prontos a mudar-se para Londres por causa da Rádio 4.» É porque os amigos não têm ligação à Internet. Sim, a melhor estação de rádio do mundo está aqui.

Verbo haver

Hão, hão, hão

      De todas as vezes que referi aqui o verbo «haver» na sua acepção impessoal, aposto que houve sempre, por esse mundo fora, algum sorrisinho trocista de quem se julga a salvo de erro tão básico. O sorrisinho não é grave — se não provier, afinal, dos que caem em erro tão básico. «— Amo-te mais que tudo! És tu! — disse-lhe baixinho, ansiosa por tudo o que ele lhe poderia dizer, e querendo garantir que não houvessem dúvidas ao que ela sentia por ele» (1613, Pedro Vasconcelos. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Oficina do Livro, Lisboa, 2.ª ed., 2006, p. 236). É bom trabalhar nas obras.
      José Neves Henriques escreveu uma vez, referindo-se a frases com o verbo haver nesta acepção erradamente conjugado no plural, que «estas frases estão tão profundamente erradas, que inferiorizam quem as diz». De caminho, ficam a saber como se pontua uma oração subordinada consecutiva.

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