Frases longas

Viver dentro das frases

      A propósito da tradução no Brasil da obra História do Pranto, o escritor argentino Alan Pauls foi entrevistado pelo Jornal do Brasil («Elipses e enigmas da sintaxe narcótica», Alvaro Costa e Silva, 8.08.2008, p. L3). Diz o entrevistador: «Como n’O passado, as frases são longuíssimas, à la Proust.» Ao que Pauls responde: «Gosto de trabalhar a frase como se fosse um transe, e não há dimensão mais narcótica na literatura que a sintaxe. Uma frase longa transforma a literatura numa arte ambiental: o leitor pode viver dentro da frase, como se estivesse num ecossistema raro, cheio de prazeres e perigos.» A obra de Alan Pauls, traduzida já para inglês, não está publicada em Portugal. No Brasil, uma tiragem de 3000 exemplares de O Passado vendeu-se num mês.

A verdade das entrevistas

Hum…


      A estranheza de Ferreira Fernandes é a minha estranheza: na entrevista ao Público, as palavras eram mesmo de Cristiano Ronaldo? De facto, há elementos a afiançarem ao leitor que foi uma entrevista presencial: «O Manchester e os seus adeptos podem ter a certeza que nunca os esquecerei, aconteça o que acontecer. São especiais e têm um cantinho aqui guardado [bate com a mão no coração]» («“Ficar no Manchester não será um sacrifício mas uma honra enorme”», Nuno Prata, Público, 7.08.2008, pp. 2―3). Conclui Ferreira Fernandes a sua crónica no Diário de Notícias: «Pois eu não lhe ‘tou grato por ele falar como Paulo Rangel interpela o Governo. Não vai a bota do mais genial dos extremos com a perdigota do falar de um qualquer professor agregado. CR corre, não tem motricidade; CR é bom sempre, não tem sustentabilidade. Se ele falasse como parece na entrevista, a transferência não seria para o Real Madrid mas para o ISCTE» («Alinhar na equipa barata do falar caro», Ferreira Fernandes, 8.08.2008, p. 64). Até eu, no Record, ponho os atletas, em especial os futebolistas, a falarem com menos erros, mas coisa ligeiríssima, evitando apenas os erros que suponho (e se calhar suponho mal) chocariam os leitores. Nunca me passou pela cabeça pô-los a falar com a eloquência de Catão, o Censor.


«Tutsis» («Tútsis») e «Hutus» («Hútus»)

Sic, sic, sic...

«No Ruanda, os belgas ficam na história por terem patrocinado a estratificação étnica, reconhecendo aos tutsis a supremacia sobre os hutu» («Bélgica: país à beira da divisão?», Alexandra Carreira, Diário de Notícias, 21.07.2008, p. 28). «Tutsis» e «hutu»? Há-de ser «Tutsis» e «Hutus», ou, seguindo a adaptação registada no Dicionário Houaiss, «Tútsis» e «Hútus», porque são palavras graves (também chamadas «proparoxítonas» por Carlos Rocha aqui, e ninguém corrige). Mas o «hutu» foi lapso do Diário de Notícias, pois duas semanas mais tarde lia-se no mesmo jornal: «Ainda segundo aquele relatório, os militares franceses “deixaram operacional [sic] as infra-estruturas do genocídio, em especial os postos de controlo das milícias Interahamwe (os extremistas hutus). Os franceses pediram expressamente que as Interahamwe continuassem a controlar os postos de controlo e a matar os tutsis, [sic] que por aí tentassem passar”» («Ruanda acusa Paris de envolvimento em genocídio», Diário de Notícias, 6.08.2008, p. 25).

Estação parva

Parva mas portuguesa

      Arrastado por Ferreira Fernandes, também eu me começo a interessar pelo paradeiro de Pascal Henry, o gourmet suíço misteriosamente desaparecido. Os mais importantes jornais já referiram a notícia, desde o The Times, The Independent (que tem o melhor título), El País… you name it… Perdão, os que quiserem. Aliás, a propósito de inglesices, o que eu queria mesmo era congratular-me com o facto de Ferreira Fernandes não ter usado a expressão silly season, mas «estação parva».
      «Bendita a estação parva que permite atenção a notícias parvas: um homem desapareceu. Fosse ele Fevereiro ou Novembro, dias de estações cheias, não ligaríamos, ocupados que estávamos com uma moção de censura. Assim, dou conta que um homem desapareceu. Ele foi comer ao restaurante El Bulli, catalão e o mais premiado do mundo — “tenho uma reserva no El Bulli”, digo quando quero relançar o interesse de uma amiga —, ao pagar, não tinha carteira, foi ao carro e nunca mais foi visto. Simples caloteiro? Não — vou sabendo, saboreando o caso (que já vai numa semana). O homem visitava todos os restaurantes do mundo, são 68, com 3 estrelas Michelin. Com o El Bulli estava a meio da lista (restaurante 40.º). Já engoli o anzol. O homem era simples estafeta, desses que entregam envelopes de moto. Já não preciso de anzol, estou viciado. O homem tinha um patrocinador misterioso. Parva ou não, só darei por encerrada a estação quando souber tudo sobre o homem que desapareceu» («Um dia, as notícias serão todas assim», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 8.08.2008, p. 64).

Títulos da imprensa

Imagem: http://www.judo.ethz.ch/

Bom golpe


      O melhor título, por mais criativo, mais inesperado, da imprensa portuguesa de ontem foi este: «Telma Monteiro faz ‘ippon’ ao peso». É do jornalista Rui Hortelão, do Diário de Notícias, e refere-se à dieta que a judoca portuguesa tem estado a seguir para poder competir nos Jogos Olímpicos na categoria de -52 kg. E, naturalmente, explica-se o que é o ippon: «Restringiu o prato a grelhados de carne e saladas e deixou de beber refrigerantes, ficando-se apenas pela água. Tudo para fazer ippon (golpe que dá a vitória imediata) ao peso» (p. 34).

Crítica literária

Venham mais assim

Haverá críticas literárias que interessem a tradutores, revisores, editores e leitores em geral? Poucas, mas há — e esta, assinada por José Mário Silva, é uma delas: «Se uma editora decide apostar num romance extraordinário (como “Os Detectives Selvagens” [do chileno Roberto Bolaño (1953-2003)]), ninguém lhe poderá levar a mal que alinhe na contracapa, como numa vitrina de troféus, os encómios da melhor imprensa: “El País”, “Le Monde”, “The New York Times”… A Teorema fez isso — e bem —, mas infelizmente borrou a pintura ao prometer-nos “o primeiro grande romance latino-americano do século XXI”, quando ele foi originalmente publicado em… 1998. Mais graves são outras lacunas, como: o facto de não se mencionar a proveniência da imagem da capa (o quadro “The Billy Boys”, de Jack Vettriano); a excessiva compactação do texto, que permitiu reduzir cem páginas em relação às edições espanhola (Anagrama) ou inglesa (Picador), mas que sujeita o leitor a uma cansativa mancha de texto, demasiado larga e densa; um número inadmissível de gralhas; uma tradução razoável mas que fica ferida por erros básicos (”cadáveres requintados” em vez de “esquisitos”; “corrector” em vez de “revisor”; “Teoria da Libertação” em vez de “Teologia da Libertação”; “índice” em vez de “dedo indicador”, etc.)» («Quando o século XXI em 1998», José Mário Silva, Expresso/Actual, 2.08.2008, p. 25. Ver aqui também).

Topónimo: «Mêda»


Ai que meda!...

Ontem, na Antena 1, ouvi que «em Mêda», distrito da Guarda, havia um incêndio com duas frentes activas. Pois é, mas os medenses (de Aveloso, Barreira, Casteição, Coriscada, Fontelonga, Longroiva, Marialva, Meda, Outeiro de Gatos, Paipenela, Poço do Canto, Prova, Rabaçal, Ranhados e Valflor) e os meios de comunicação social mais judiciosos dizem «na Mêda». Alguma imprensa escreve «Meda», sem acento circunflexo. Contudo, a maioria das ocorrências do nome no sítio da Câmara Municipal desta cidade, por exemplo, tem acento. Os dicionários, pelo contrário, grafam sem acento, pois deriva do substantivo comum «meda». No Diário de Notícias, no título de uma notícia lemos Meda («Incêndio consumiu cem hectares em Meda», 6.08.2008, p. 14) e no corpo da notícia, Mêda.

Fotografias nos livros

Imagens tagarelas

Depois da reabilitação das notas de rodapé e dos índices remissivos, chegou o momento de os críticos abominarem as fotografias nos livros: «Quanto à edição. O editor tem uma excelente ideia e trata depois de torná-la antipática. Todo o livro que se preze tem hoje que incluir as suas previsíveis e insípidas fotografias. Cá estão elas a onerar a edição e, no caso, a contribuir para a detestável mística do Autor ou, melhor, dos seus Aposentos: clichés do escritório de Agamben, a biblioteca, os rostos emoldurados que só a ele pertencerão. Não nego que a fotografia fale; ela anda é a falar demais e a calar tudo o resto» («O anjo descriador», Francisco Luís Parreira em recensão à obra Bartleby, Escrita da Potência, de Giorgio Agamben, publicada pela Assírio & Alvim, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 33).

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