Pontuação

To my parents, Ayn Rand and God

Se fizerem uma pesquisa no Google à frase que serve de título a este texto, perceberão de imediato do que se trata e a importância que tem. Para os anglo-saxónicos, não para nós. Chamada serial comma ou Oxford comma, esta vírgula, opcional, é usada antes do último termo de uma enumeração precedido da conjunção and (e). No caso do título, não se usar a vírgula antes de and pode, advogam os defensores da Oxford comma, levar o leitor a crer que os pais do autor da frase (uma presumível dedicatória de um livro) são Ayn Rand e Deus. A blasfémia (e exemplo extremo) serve para demonstrar como faz falta ali uma vírgula. O Chicago Manual of Style «strongly recommends this widely practiced usage, blessed by Fowler [Fowler, H. W. A Dictionary of Modern English Usage. 2.ª ed. revista e editada por Sir Ernest Gowers. Oxford: Oxford University Press, 1965] and other authorities, since it prevents ambiguity».
Contudo, os jornais nem sempre a usam, sobretudo nos títulos. Entre nós, contudo, e é isto que importa, o uso desta vírgula é desnecessário e indefensável. (Não, Nuno, o Novo Prontuário Ortográfico, de José Manuel de Castro Pinto, não prevê «o carácter expressivo da famosa Oxford comma». Refere, isso sim, que «não poucas vezes, é a própria linguagem expressiva que leva o escritor a colocar a vírgula antes de conjunções», e nenhum dos exemplos aduzidos por Castro Pinto se encaixa na definição da Oxford comma.)

Concordância: «horas extras»

Extraordinário

      «Ministra não quer pagar a dobrar por horas extras» (Diana Mendes, 31.07.2008, p. 11), titulava o Diário de Notícias, evitando um erro para que eu venho aqui prevenindo há anos: a falta de concordância. Antes, este jornal escreveria «horas extra». Afinal, nem tudo piora.

Léxico: «gastrossexual»

Menhã-menhã…

O noticiário das 18 horas da TSF dá-me a notícia: depois do termo «metrossexual», eis que surge o vocábulo «gastrossexual». Designa o homem entre 25 e 45 anos, não necessariamente rico, que gosta de misturar ingredientes para fazer pratos para impressionar os amigos. A designação e rebarbativa, é certo, mas encaixo nela. De resto, é algo mais simpático e proveitoso do que ser metrossexual ou ogrossexual ou… Não deixaram de referir, claro, Jamie Oliver.

Propriedade e clareza

Mas qual «qual»?

Cada época tem as suas manias, os seus modismos. Actualmente, e já com alguns anos, o abuso e uso inadequado das expressões «à qual» e «da qual» é algo de penoso. Na oralidade, e é a ela que me estava a referir, é simplesmente atroz e fonte de complicação. Na rádio e na televisão, todos os dias ouço «da qual», «à qual» e variantes, a maioria das vezes sem concordância. É também desta questão que o excerto de recensão a seguir trata: «Aspecto decisivo, porém, é o da tradução. Agamben é um estilista de grande clareza. Os tradutores deploram esta clareza; acham por vezes que têm de defender o filósofo de si mesmo e apõem-lhe uma complexidade mais adequada ao seu “estatuto”. Esta escusada generosidade tem o seu preço gramatical: ocorrem os “à qual” em vez de “pela qual”; uma ou outra expressão toscamente traduzida é grafada com aspas para desculpar-se da sua aspereza» («O anjo descriador», Francisco Luís Parreira em recensão à obra Bartleby, Escrita da Potência, de Giorgio Agamben, publicada pela Assírio & Alvim, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 33).

Traduzir do inglês

Preferir não

«O editor decidiu também rever a tradução do texto de Melville, em particular a fórmula de Bartleby, agora rendida como “preferiria de não”. Segundo nota, é para torná-la conforme à leitura de Agamben. No entanto, “I would prefer not to”, que se saiba, é tudo menos agramatical (daí o seu interesse), e não se vê onde é que Agamben cauciona uma coisa tão ridícula» («O anjo descriador», Francisco Luís Parreira em recensão às obras Bartleby, Escrita da Potência, de Giorgio Agamben, e Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, ambas publicadas pela Assírio & Alvim, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 33). Mas a opinião do crítico não é consensual, como se pode ver no ensaio «“I would prefer not to” ― Bartleby, a fórmula e a palavra de ordem», da autoria de António Bento, da UBI, que pode ler aqui.

Traduzir do inglês

Pateticamente


      «“O uso da tortura está a aumentar de forma dramática”, disse, citado pelo diário britânico Guardian, o investigador da Human Rights Watch, Fred Abrahams» («Fatah e Hamas torturam os respectivos prisioneiros», L. R., Diário de Notícias, 30.07.2008, p. 28). É qualquer coisa de fatal: em inglês aparece um dramatically ou um dramatic e o tradutor português não tem dúvidas: «dramaticamente» e «dramático» espelham bem o que o original pretende significar. «“The use of torture is dramatically up,” said Fred Abrahams, a senior researcher for the group» («Middle East: Palestinians 'routinely torture' rival detainees», Jonathan Steele, The Guardian, 29.07.2008). Talvez fosse bom saberem que dramatic também se traduz por acentuado, decisivo, drástico, profundo, radical…

Influência anglo-saxónica

Dignidade

Ana Margarida de Carvalho perguntou a João Ubaldo Ribeiro, distinguido com o Prémio Camões 2008, na entrevista que lhe fez para a Visão (edição de 31.07.2008, p. 18) como anda a língua portuguesa, ao que o escritor respondeu: «Não estamos no bom caminho. Vocês em Portugal se comportam com mais dignidade. E se recusam a se curvar, da mesma forma subserviente que nós, à influência americana.»

Uso das maiúsculas

Frases urgentes e destravadas

Isabel Coutinho entrevistou Valter Hugo Mãe para a Ípsilon. A determinada altura, a jornalista diz ao escritor que de certeza que aprendeu a escrever na escola primária com «letra grande», mas que «mais tarde, as minúsculas desaparecem dos seus textos». Resposta: «A dada altura percebi que as maiúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões.» Isabel Coutinho pergunta (e era a minha curiosidade): «Tem tido reacções de leitores? Dificulta-lhes a leitura?» «Ao que sei», responde o entrevistado, «no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fica contente quando percebe que este tipo de pontuação o leva mais rápido ao fim da história» («O escritor que não usa maiúsculas para o leitor ficar sem travões», Público/Ípsilon, 1.08.2008, p. 8).

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