Plural dos topónimos

Everestes

Lia-se no Record de ontem: «A massa total do sistema de anéis de Saturno — que são constituídos por uma mistura de gelo, poeiras e material rochoso — equivale a cerca de 30 milhões de Montes Evereste... juntos!» («Saturno é o planeta com o maior sistema de anéis», Record, 25.07.2008, p. 43). É correcto dizer «Montes Evereste»? Como substantivos próprios que são, os topónimos, como os antropónimos, têm plural. Contudo, neste caso concreto, a anteceder o topónimo está o nome de um acidente geográfico, «montes», pelo que apenas este pluraliza: montes. Com inicial minúscula, claro. Não se diz e escreve frequentemente Eldorados? Como explica Evanildo Bechara, trata-se na realidade de nomes da «classe», «e, portanto, substantivos comuns» (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, p. 114).

Acordo Ortográfico

Indolor

Rui Tavares, uma das vozes mais sensatas na comunicação social a falar sobre o Acordo Ortográfico, já aqui o disse, em artigo publicado na edição de anteontem do Público escrevia sobre as consoantes mudas e a propósito de se ver com alguma frequência «contracto» (no sentido de acordo), «traducção», «conductor» e outras palavras com um c a mais: «A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele “c”? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.» Conclui Rui Tavares: «Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência» («Nem se vai dar por isso», Público, 23.07.2008, p. 36).

«Relações públicas» e detenção

Abaixo o hífen!

Caro Luís Ferreira: não, «relações públicas», o termo para designar o «profissional que tem como função alargar a projecção de determinada empresa, sociedade ou grupo junto do público, transmitindo destes uma boa imagem» (na definição do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora), não tem hífen. O uso inadequado do hífen, o seu uso excessivo, é uma das maldições da escrita jornalística dos nossos dias. Agora que sou revisor de uma publicação periódica como é um jornal (de revistas já o sou há anos, mas nestas escreve-se infinitamente melhor), estou bem colocado para o afirmar. «Bernardo Macambira, ex-marido de Rute Marques e um dos mais conhecidos relações públicas da noite portuense, está desde terça-feira da passada semana detido* na prisão de Custóias, onde cumpre uma pena de quatro meses devido à apreensão de um CD pirata, a 10 de Dezembro do ano 2000, na hoje extinta discoteca Voice, da qual era então o principal responsável» («Bernardo Macambira preso por ter CD pirata na sua discoteca», Marcos Cruz, Diário de Notícias, 23.07.2008, p. 15).


* De caminho, aproveito para lamentar que os jornalistas continuem a escrever este disparate. Alguém pode estar (em Portugal, não no Zimbabué, por exemplo) mais de oito dias detido? O máximo, e é uma garantia constitucional, são 48 horas, prazo só ultrapassável se já se tiver iniciado o interrogatório judicial. Mas não são realizados de vez em quando seminários de Direito para jornalistas? Ninguém aparece?
Por outro lado, quem é o responsável pela incoerência de no corpo do artigo se usar o vocábulo «detido» e no título «preso»? Um revisor atento não corrige ou pelo menos não chama a atenção do jornalista ou do editor?

Os títulos dos jornais


Uma imagem de si


É interessante ver a imagem que cada jornal tem si de mesmo. Já tinham pensado nisto? Alguns, como A Bola, O Jogo, o Metro e o Público, vêem-se maiusculizados: A BOLA, O JOGO, METRO, PÚBLICO. Outros, como o Diário de Notícias, vêem-se abreviados: DN. Outros, como o Jornal de Negócios, vêem-se como coisa quase comum: Jornal de Negócios. Um, o Record, quer destacar-se do resto: Record. Outros, como o Meia Hora, vêem-se como nós os vemos, sem psicoses nem megalomanias: Meia Hora. O 24 Horas, finalmente, vê-se quase como o vemos, com uma ligeira distorção: 24horas.
Nunca, até hoje, vi o que o autor de Regret the Error viu: um jornal escrever incorrectamente o próprio nome. Mas ainda sou novo.

«Isto apesar de Moutinho estar, segundo A BOLA apurou, receptivo a escutar as condições que os toffees têm para lhe oferecer» («Leão irredutível segura Moutinho», Rui Baioneta, A Bola, 22.07.2008, p. 6).

«Este é um destino histórico de Portugal”, disse ao METRO, de forma lacónica, o criminalista, considerando que, não havendo provas para acusar os arguidos, “deveria ter-se retirado o estatuto e continuado a investigação”» («Arquivamento suscita críticas», André Rito, Metro, 23.07.2008, p. 5).

«Ao que O JOGO apurou, as qualidades do guarda-redes foram apreciadas em Goodison Park, mas não a ponto de os responsáveis avançarem, no imediato, para a contratação do internacional sérvio, até porque o valor da cedência, um milhão de euros, não aconselha decisões precipitadas (mesmo para um clube inglês)» («Everton ainda pondera “Stoi”», António Bernardino, O Jogo, 22.07.2008, p. 7).

«A Ordem dos Médicos (OM) lembrou há dias que os médicos internos nos hospitais têm que ser acompanhados por colegas especialistas, não lhes podendo ser atribuídas responsabilidades de decisão clínica, depois de ter encontrado situações que considerou ilegais numa visita-surpresa realizada em Março ao Centro Hospitalar de Coimbra, conforme noticiou o PÚBLICO no sábado» («Internos nas urgências não preocupam ministra», Público, 22.4.2008, p. 9).

«Esta é a convicção manifestada em entrevista à NS’, a publicar no sábado, com o DN e o JN, dois dias depois do lançamento do seu [de Gonçalo Amaral] livro Maddie, A Verdade da Mentira» («Arquivamento é “o fim de uma grande injustiça”», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 4).

«Sónia Casaca, em entrevista ao Jornal de Negócios, conta que “a Magirus já tem todas as condições para avançar. Vamos iniciar desde já a formação certificada de dois fabricantes e aos poucos acrescentar novos cursos”» («Alemã Magirus cria centro de formação em Portugal», Ana Torres Pereira, Jornal de Negócios, 14.07.2008, p. 14).

«Mas apesar de Alípio Ribeiro estar agora afastado do caso e do lugar que ocupava, especialistas ouvidos pelo Meia Hora defendem que o antigo director deve continuar a proferir as suas opiniões» («Director da PJ responde ao antecessor sem reservas», Maria Nobre, Meia Hora, 23.07.2008, p. 5).

«De acordo com a escritura de partilha assinada a 18 de Junho, e a que o 24horas teve acesso, Carla ficou com a vivenda com piscina na zona de Cascais, avaliada em 1,2 milhões de euros» («Ex de João Pinto está mais rica que ele», Sónia Simões, 24 Horas, 22.07.2008, p. 4).

«Era o mais esperado e dessa opção Record dera conta na projecção do primeiro jogo oficial da época, na Turquia» («“Espero que possamos fazer uma grande dupla”», Marco Aurélio, Record, 22.07.2008, p. 16).

Léxico: «apronto»

Primeira página da edição de hoje

E a prestações


      No Record, habituei-me depressa aos termos que referem as posições de jogo e ao facto de os compostos terem todos hífen: ala-direito, defesa-central, defesa-direito, guarda-redes, lateral-esquerdo, médio-ala, médio-defensivo, médio-ofensivo, ponta-de-lança… Mas uma palavra frequentíssima nos textos do diário desportivo nunca a tinha lido: apronto. «Entretanto, os nigerianos Chidi e Samson não tomaram parte no apronto de ontem» («Espionagem ao Benfica», L. L., 19.07.2008). O Dicionário Houaiss regista o termo: «apronto s. m. DESP treino, exercício final para testar, antes de uma competição, as condições técnicas de um atleta ou de uma equipa».

Léxico: «desteinado»

Quase destreinado

Um desses fanáticos da vida saudável que querem deixar um cadáver lindo quando morrerem estava na semana passada no restaurante do Celeiro na Baixa. As empregadas são quase todas — да, да — russófonas e simpáticas como é difícil acreditar. O fanático perguntou então a uma empregada se determinado chá era bom. Ela respondeu que sim, claro, tendo acrescentado que era descafeinado. O fanático quase explodiu. Que não, isso era o café. O chá tinha «outra coisa qualquer». Contra o meu feitio, tive de me intrometer, para informar o fanático de que essa «outra coisa», o princípio activo do chá, se chamava teína, e ao chá sem essa «outra coisa», desteinado. O fanático acalmou e agradeceu: «Obrigado. Eu devia saber.»

Cores

Verde-hospital

Longe vá o agoiro


Estava aqui a traduzir uma frase do inglês e, por referir uma cor, lembrei-me de como sempre tive um enorme fascínio pelas cores em si e pelos nomes que as designam. «Chris olhou para as paredes verde-hospital do edifício da Laminated Papers.» Hospital-green, no original. Creio que foi na década de 1950 que os primeiros hospitais começaram a ser pintados desta cor, porque se pensou então que tranquiliza mais o doente do que o tradicional branco brilhante. Ah, as cores, os matizes, os tons. Amorado, anil, calibado, cárdeo, cróceo, garço, glauco, gris, groselha, gualdo, havana, miniano, múrice, níveo, ostrino, pagiço, rom, rosura, rútilo, zabelo, zinzolino…

Monaco e Mónaco

No futebol

Foi notícia recente a ida do médio-ofensivo Freddy Adu para outro clube, por empréstimo. Segundo alguns jornais, foi para o Monaco; segundo outros, para o Mónaco. Para os jornais, como o Record, que optam por escrever Monaco, a justificação encontra-se no facto de o nome do clube ser esse: AS [Association Sportive] Monaco Football Club, S. A. Que fica, sim, no Principado do Mónaco.
«Freddy Adu vai representar o Monaco, na próxima temporada, por empréstimo do Benfica» («Adu cedido ao Monaco por uma época», Record, 22.07.2008, p. 6).
«Freddy Adu, médio-ofensivo do Benfica, vai ser emprestado ao Mónaco durante uma época, ficando o clube gaulês com direito de opção em relação ao passe do jogador» («Benfica. Adu vai jogar no Mónaco», Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 64).
«Fora das opções irá estar Freddy Adu, já que o norte-americano, que também está ao serviço da selecção, foi emprestado ao Mónaco» («Internacionais à disposição de Quique e Bento», Metro, 22.07.2008, p. 7).

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