Nomenclatura científica

Quase, quase

      «Chama-se Flavescência Dourada (FD), é provocada por um fitoplasma (um vírus) que tem como transmissor um insecto da família das cicadelas, o Scaphoideus titanus Ball» «Vinhas do Norte ameaçadas por praga que pode ser devastadora», Pedro Garcias, Público, 17.07.2008, p. 29). Por acaso, o insecto não se chama Scaphoideus titanus Ball. Chama-se, e não sei se assim se afigurará menos deletério, Scaphoideus titanus Ball. Pormenores.
      Já agora, devo dizer que a flavescência é a qualidade ou estado de flavescente, isto é, que se torna ou pode tornar flavo, amarelo, louro ou cor de ouro. Flavescente era um particípio presente em latim. Embora em português antigo alguns dos particípios presentes ainda conservassem o sentido verbal latino, com a evolução da língua passaram a adjectivos (estrela cadente, ou seja, que cai), a substantivos (assistente, ou seja, que assiste) e a preposições (durante, tirante).

A sigla CEO

O inferno do CEO

      Ontem Jorge Coelho fez 54 anos. Sabiam? Ah, mas isto é importante: vinha no Público! «Jorge Coelho, CEO da Mota-Engil, 54» («Hoje fazem anos», Público/P2, 17.07.2008, p. 12). Não percebo é esta mania de usar a sigla inglesa CEO a torto e a direito. Director executivo não exprimia o mesmo?

Dar ou fazer erros

Daria 20 valores

Se fosse Marcelo Rebelo de Sousa. Como não sou, limito-me a saudar o jornalista que escreveu o título «Norman Foster acusado de fazer “maior erro da carreira” na Bulgária» (P2, 16.07.2008, p. 11) no Público de ontem. Muito bem: os erros dão-se ou fazem-se; os pecados e os crimes é que se cometem.

«Presidenta»?

A president…


      Alguns leitores pedem-me que me pronuncie sobre a afirmação de Pilar del Río de que é presidenta e não presidente da Fundação José Saramago. Na entrevista ao Diário de Notícias (edição de 6.7.2008, pp. 2-5), interrompeu o jornalista para lhe chamar ignorante. «Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.»
      Que história é essa de antes não haver a função? Antes quando? O substantivo «presidente» é comum de dois. Alguém diz a agenta, a clienta, a estudanta, a gerenta, a imigranta, a serventa? Nestes substantivos, são os adjuntos (artigos, adjectivos, pronomes, numerais) com flexão de género que indicam o sexo: o agente, a agente; o cliente, a cliente; o estudante, a estudante; o gerente, a gerente; o imigrante, a emigrante; o servente, a servente… Pilar del Río é espanhola, e o Diccionario de la Real Academia é que regista que «presidenta» é a «mujer que preside». Cá, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, ainda apenas regista: «presidenta s. f. (De presidente). 1. Deprec. Esposa do presidente. 2. Fam. e Pop. Mulher que desempenha as funções de presidente. Masc. presidente.» Eu sei e digo-o sempre: os dicionários não são oráculos. O que interessa é reflectirmos nisto: qual a necessidade de alterarmos uma palavra com estas características tão neutras? Historicamente, é verdade, alguns destes substantivos variaram: diz-se infante, mas também se diz infanta; diz-se governante, mas também se diz governanta; diz-se parente, mas também se diz parenta.
      Uma solução de compromisso seria chamar presidenta a Pilar del Río apenas quando a entrevista é feita além-fronteiras. Em Badajoz, seria presidenta. Se decorresse em Olivença, por exemplo, já nos deveríamos mostrar minimamente patriotas, chamando-lhe afoitamente presidente.

Eufemismos


O malogrado

«O elenco do novo filme da série Batman, The Dark Knight, juntou-se anteontem em Nova Iorque para a estreia mundial e aproveitou para homenagear Heath Ledger, o actor australiano que desempenha o papel de Joker e morreu em Janeiro, aos 28 anos, num acidente com drogas» («Tributo a Ledger na estreia de Batman», Público/P2, 16.07.2008, p. 12). Não sabia que Heath Ledger fazia biscates na construção civil (ou seria como ajudante de fiel de armazém de retém?). Como tenho formação na área de Higiene e Segurança no Trabalho, sei bem do que se está a falar: os acidentes com drogas podem envolver a quebra de um recipiente, o derrame de líquido, a dispersão de pó, a inalação ou ingestão de partículas…

Chumbar, reprovar

É o progresso, estúpido!

«Houve igualmente mais jovens a chumbar a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática» («Exame de Português “mais acessível” na 2.ª fase», I. L., Público, 16.07.2008, p. 12). Cá está a «evolução» da língua e a sua força imparável: dantes, o verbo chumbar (como reprovar) era transitivo directo, ou seja, um verbo que pede complemento directo. Se queremos que aquele que sofre a acção seja sujeito, temos de usar a voz passiva: «Houve igualmente mais jovens a serem chumbados a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática.» Recentemente, contudo, alguns dicionários vieram legitimar a construção da frase acima. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, até a abona com uma frase de Pepetela: «Chumbar Gír. Reprovar num exame. “Os amigos insistiam para ele ao menos terminar o Liceu. Nada feito. Chumbava regularmente no último ano.” (PEPETELA, Geração da Utopia, p. 14).» Potencialmente, qualquer erro pode ser «legitimado» pelos fazedores de dicionários. Parafraseando Churchill, apetece dizer: «O progresso da língua é a capacidade de ir de um falhanço a outro sem perder o entusiasmo.»

Cólon ou colo

Dá-lhe com uma petição

O leitor Fernando Ferreira acaba de me enviar uma mensagem em que me chama a atenção para o facto de haver na Internet uma petição sobre o cancro do cólon do útero. Ou, se quisermos, colo do útero. Ora, tanto o sítio em que está a petição como os numerosíssimos blogues que fazem referência ao assunto grafam «cólo». Só uma pergunta: não seria útil que aprendessem português antes de se porem a escrever? Para quando uma petição para que isso se torne obrigatório?

A Schutzstaffel ou a SS

Escudo Protector

      «Operações e amputações sem anestesia, injecções directamente no coração de petróleo e outras substâncias tóxicas. Rotina para um médico das forças de elite de Hitler, as SS, como Aribert Heim. Mas ao contrário dos seus camaradas de maquiavelismo, Heim ainda está vivo e a monte. […] Aribert Heim foi médico SS no campo de concentração de Mauthausen, Áustria. Ali efectuou experiências em seres humanos, torturou e matou prisioneiros. Esteve escondido na Alemanha até 1962, ano em que fugiu, como muitos outros nazis, para a América do Sul» («Em busca do último dos monstros nazis», João Magalhães, Meia Hora, 16.7.2008, p. 8).
      Vamos ver se percebo: se em vez de escrever SS, o jornalista tivesse desdobrado a sigla, teria escrito «Schutzstaffel». E, logo, «a Schutzstaffel». Donde vem então o plural? Também ninguém diz «as PSP» quando a sigla se refere à Polícia de Segurança Pública.
      Por outro lado, o que é isso de «coração de petróleo»? Deveria ter escrito «injecções de petróleo e outras substâncias tóxicas directamente no coração». Mataria menos leitores...

Actualização em 9.10.2009

      «Dado que o seu pai [de Herta Müller, laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 2009] pertenceu à SS — tropa de elite chefiada por Himmler na II Guerra Mundial —, perpassa ainda pela sua escrita algum sentimento de culpa perante o passado obscuro da Alemanha» («Nobel premeia escritora corajosa», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 9.10.2009, p. 41).

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