Chumbar, reprovar

É o progresso, estúpido!

«Houve igualmente mais jovens a chumbar a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática» («Exame de Português “mais acessível” na 2.ª fase», I. L., Público, 16.07.2008, p. 12). Cá está a «evolução» da língua e a sua força imparável: dantes, o verbo chumbar (como reprovar) era transitivo directo, ou seja, um verbo que pede complemento directo. Se queremos que aquele que sofre a acção seja sujeito, temos de usar a voz passiva: «Houve igualmente mais jovens a serem chumbados a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática.» Recentemente, contudo, alguns dicionários vieram legitimar a construção da frase acima. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, até a abona com uma frase de Pepetela: «Chumbar Gír. Reprovar num exame. “Os amigos insistiam para ele ao menos terminar o Liceu. Nada feito. Chumbava regularmente no último ano.” (PEPETELA, Geração da Utopia, p. 14).» Potencialmente, qualquer erro pode ser «legitimado» pelos fazedores de dicionários. Parafraseando Churchill, apetece dizer: «O progresso da língua é a capacidade de ir de um falhanço a outro sem perder o entusiasmo.»

Cólon ou colo

Dá-lhe com uma petição

O leitor Fernando Ferreira acaba de me enviar uma mensagem em que me chama a atenção para o facto de haver na Internet uma petição sobre o cancro do cólon do útero. Ou, se quisermos, colo do útero. Ora, tanto o sítio em que está a petição como os numerosíssimos blogues que fazem referência ao assunto grafam «cólo». Só uma pergunta: não seria útil que aprendessem português antes de se porem a escrever? Para quando uma petição para que isso se torne obrigatório?

A Schutzstaffel ou a SS

Escudo Protector

      «Operações e amputações sem anestesia, injecções directamente no coração de petróleo e outras substâncias tóxicas. Rotina para um médico das forças de elite de Hitler, as SS, como Aribert Heim. Mas ao contrário dos seus camaradas de maquiavelismo, Heim ainda está vivo e a monte. […] Aribert Heim foi médico SS no campo de concentração de Mauthausen, Áustria. Ali efectuou experiências em seres humanos, torturou e matou prisioneiros. Esteve escondido na Alemanha até 1962, ano em que fugiu, como muitos outros nazis, para a América do Sul» («Em busca do último dos monstros nazis», João Magalhães, Meia Hora, 16.7.2008, p. 8).
      Vamos ver se percebo: se em vez de escrever SS, o jornalista tivesse desdobrado a sigla, teria escrito «Schutzstaffel». E, logo, «a Schutzstaffel». Donde vem então o plural? Também ninguém diz «as PSP» quando a sigla se refere à Polícia de Segurança Pública.
      Por outro lado, o que é isso de «coração de petróleo»? Deveria ter escrito «injecções de petróleo e outras substâncias tóxicas directamente no coração». Mataria menos leitores...

Actualização em 9.10.2009

      «Dado que o seu pai [de Herta Müller, laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 2009] pertenceu à SS — tropa de elite chefiada por Himmler na II Guerra Mundial —, perpassa ainda pela sua escrita algum sentimento de culpa perante o passado obscuro da Alemanha» («Nobel premeia escritora corajosa», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 9.10.2009, p. 41).

Grandes números

Um milhão, mil milhões, um bilião: 1 000 000, 1 000 000 000, 1 000 000 000 000

Já que falam nisso



      Numa mensagem de correio electrónico, o IPQ (Instituto Português da Qualidade) pergunta se «sabia que a designação correcta para o número 10 elevado a 9 (1 000 000 000) é mil milhões e para o número 10 elevado a 12 (1 000 000 000 000) é um bilião». Eu sabia, mas será que todas as pessoas sabem? Os tradutores, por exemplo, costumam meter os pés pelas mãos. A norma portuguesa sobre os grandes números é a NP 18:2006.

Folhear ≠ desfolhar

Folhas caídas

      O Meia Hora entrevista hoje a professora de Literatura Portuguesa Ana Paula Arnaut, autora da compilação de entrevistas (António Lobo Antunes — Confissões do Trapeiro, ed. Almedina) dadas entre 1979 e 2007 por António Lobo Antunes. Lê-se naquele jornal: «Durante a digressão de apresentação da obra, a autora falou com o Meia Hora e desfolhou-nos as páginas desta compilação» («“Através desta obra conseguimos perceber as diferentes maneiras de estar de Lobo Antunes”», 15.7.2008, p. 15). Regista qualquer dicionário: Desfolhar, verbo transitivo: 1 tirar as folhas ou as pétalas a; descamisar; descapelar; 2 sentido figurado extinguir pouco a pouco.
      É isto que os jornalistas pretendem, extinguir-nos a paciência pouco a pouco?

Revista em linha

OPS!

Foi ontem lançado o primeiro número da revista bimensal Ops!, de Manuel Alegre, que é aberta a todos os que têm um pensamento de esquerda. «Chegou a hora de resistir ao condicionalismo e à colonização ideológica», escreve Manuel Alegre no editorial («escreve o deputado-poeta», não resistiriam os jornalistas a escrever). Cada número da revista será dedicado a um tema, tendo o primeiro número como tema o trabalho e o sindicalismo. Pode descarregar o PDF.

Bibliotrónica Portuguesa

Colaborem

Dantes havia o livro único; agora, o livrónico. Sabia? Até às 17.34 de ontem, eu também não. Àquela hora, Carlos Costa, assessor do projecto Bibliotrónica Portuguesa, resgatou-me da minha ignorância. Na Bibliotrónica Portuguesa, que é um sítio dedicado à edição de textos em suporte electrónico, alojado na página do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traduzem e-book por livrónico. Os textos editados e a editar têm de cumprir três condições: têm de ser textos em língua portuguesa; têm de ser textos cuja edição não ofenda os direitos de autor (domínio público ou cedência dos direitos); têm de ser editados de acordo com normas previamente explicitadas. Veja aqui.

Um anglicismo semântico

Evidentemente

Afinal, a estátua da Loba Capitolina, símbolo de Roma, é 1800 anos mais nova do que se pensava. Como é que se sabe? Para mim, foram provas científicas, com recurso ao carbono-14. Para Ricardo Nobre, «evidências científicas (o teste do carbono) acabam de pôr a descoberto mais um erro da Arqueologia». Evidência, no sentido de «prova», «indício», é um anglicismo inútil e que não merece contemplação. Claro que também vem do latim, através do inglês, mas mais de 50 % do léxico inglês provém do latim. Um caso bem diferente do vocábulo «paciente», aqui explicado por Adriana Freire Nogueira. Curioso é ver que a notícia para que remete Ricardo Nobre não usa a palavra «evidence».

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