Títulos de filmes

Não é fácil?

É já a segunda vez que leio críticas à adaptação do título do filme Forgetting Sarah Marshall, actualmente em exibição nos cinemas do País. Adaptação, repito. Não se trata de tradução, como tenho lido.
Vejamos o que escreve Paulo Narigão Reis no Meia Hora: «Por esta altura ainda corre nas salas nacionais Forgetting Sarah Marshall, título que o exibidor resolveu chamar Um Belo Par... de Patins. Tente-se imaginar o dilema: Esquecer Sarah Marshall, tradução lógica — digo eu... — seria pouco chamativo para o público. Seria, além disso, pouco revelador do género do filme, uma comédia. Vá lá, pelo menos ninguém se lembrou de traduzir Forget Paris, de Billy Crystal, para Um Belo Par de Bolas... de Basquete... A tradução muito livre de títulos é um clássico da exibição nacional. Como esquecer o brilhante Grande Moca, Meu, título português com que foi brindado Harold & Kumar Go to White Castle. Admita-se: as dificuldades aqui eram mais sérias. Arranjar um título para um filme sobre dois consumidores de marijuana atacados pelos munchies e cheios de vontade de comer hambúrgueres da cadeia White Castle não é pêra doce, nem sequer um Sundae. Mas até os franceses, como seu Harold & Kumar chaissent le burger, conseguiram dar a volta à questão» («Que Belo Par de… Títulos Idiotas», Meia Hora, 4.7.2008, p. 12). Quanto a mim, acho que tais títulos revelam tanto de sentido comercial como de falta de imaginação.

Topónimo: «Michigão»

Usa-se

Quem disse que «Michigão» não se usa? Ei-lo: «Madonna Louise Veronica Ciccone nasceu a 16 de Agosto de 1958 em Bay City, Michigão, EUA» («À beira dos 50 anos», Pippa Smith, Certa, n.º 126, 1-13.7.2008, p. 12). Como, de resto, recomenda José Manuel de Castro Pinto no Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora).

Plural dos nomes próprios

Os Clappertons

Creio que foi Ellie Henderson que, no porto de Alexandria, perguntou a Hercule Poirot se tinha visto «os Clappertons». Foi assim, mesmo, no plural, que a tradutora Mafalda Eliseu escreveu nas legendas do episódio de hoje, intitulado «Problema a Bordo», da série televisiva Agatha Christie’s Poirot. Mais tarde, «Mrs. Clapperton» aparece morta no camarote 66. Ou terá sido «Mrs Clapperton»? «O manual de estilo da Universidade de Oxford, amplamente seguido no Reino Unido, tem muito a recomendar como solução de compromisso. A regra é: use um ponto apenas quando a palavra terminar de forma prematura. Ele deve ser omitido se a abreviação iniciar com a primeira letra da palavra e terminar com a última. Assim: Sra Bodoni, Sr John Adams Jr e Srta Lucy Chong-Adams, Dr McBain e Sto Tomás de Aquino; mas Prof. Czeslaw Milosz e Cap. James Cook» (BRINGHURST, Robert. Elementos do Estilo Tipográfico, versão 3.0, tradução de André Stolarski, Cosac Naify, São Paulo, 2005, pp. 99-100).
Quanto ao plural dos nomes próprios, Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, escreve: «Os nomes próprios usados no plural fazem o plural obedecendo às normas dos nomes comuns, e a língua padrão recomenda se ponham no plural, e não no singular» (p. 125). Abona depois com uma citação da novela O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco.

Caldeirão ¶

Ao anónimo

Um leitor, daqueles que sabem tudo (mas que ainda assim lêem o meu blogue…), depois de aqui ter lido duas vezes a palavra «caldeirão» a designar o símbolo ¶, desafia-me a apresentar «uma abonação que seja». Aceito. Tenho aqui seis abonações, mas, como só pediu uma, é o que vai ter: «Nos documentos de carácter económico e nos formados por elementos distintos (como constituições, tratados, cartas de privilégio ou de foral, etc.), convém abrir parágrafo para cada um dos elementos introduzidos por Item ou pelo caldeirão, ¶ e, na falta destes, quando a divisão em artigos tornar o texto mais inteligível» (COSTA, Avelino de Jesus da. Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos, 3.ª edição, Coimbra, 1993, IPD/FLUC, p. 43).

Pontuação e cognomes

Dona Tareja

Afinal, parece que D. Teresa não era má pessoa, vem assegurar-nos Marsilio Cassotti. «Na novíssima biografia D. Teresa — A Primeira Rainha de Portugal [ed. Esfera dos Livros], o investigador Marsilio Cassotti deita por terra um dos maiores mitos da História de Portugal, apresentando a mãe de O Conquistador como uma mulher injustiçada. Depois de ano e meio de trabalho em arquivos, às voltas com documentação medieval portuguesa e leonesa, Marsilio Cassotti defende a tese de que a filha de Afonso VI, mulher de D. Henrique de Borgonha, está envolta em mitos» («Biografia revela “nova” D. Teresa», Ana Filipa Baltazar, Meia Hora, 2.7.2008, p. 12).
Numa caixa, ao meio, é reproduzida uma entrevista ao autor da obra. Para título da entrevista, aproveitaram uma frase do entrevistado («Se não fosse ela, este território havia-se perdido.»), mas uma pequena transformação correu mal: «Sem ela este território havia-se perdido». Se há inversão da ordem directa, a vírgula é necessária: «Sem ela, este território havia-se perdido.» Ah, e outra coisinha: mesmo aparecendo o cognome isolado, e não como aposto ou modificador apositivo do nome, o artigo escreve-se com minúscula: o Conquistador.

Abuso de «onde»

Onde?
     

      O moderno abuso do pronome relativo e advérbio de lugar «onde», em vez de «no/na qual», «em que», está a tomar proporções impensáveis. Vejamos só alguns exemplos mais recentes.

  1. «A história alternativa, onde se especula sobre cenários históricos diversos, e paralelos, dos que aconteceram na realidade (os what if…?, “e se?”), é um dos subgéneros mais populares da ficção científica, amplamente explorado pelos autores anglo-saxónicos» («E se D. Carlos não tivesse sido assassinado?», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 18.1.2008, p. 34);

  2. «Mesmo assim, os níveis de precipitação forma muito inferiores aos registados nas cheias de 1967, onde morreram mais de 700 pessoas» («Mais temporais e mais fortes são inevitáveis para especialistas», Global/DN, 19.2.2008, p. 6);

  3. «Tanto doce até fez com que voltasse atrás nas declarações que fez anteriormente, onde acusou a RTP de ainda não ter decidido o seu futuro» («Merche Romero vestiu-se de chocolate mas RTP não lhe liga», Global, 25.2.2008, p. 23);

  4. «A maior amplitude de opiniões foi encontrada no jornal Público onde Zapatero venceu para 45,7% contra 30,1% que deram a vitória a Rajoy» («Zapatero vence Rajoy à tangente», Global/DN, 27.2.2008, p. 14);

  5. «A 27 de Janeiro, um raide da polícia, em Urumqi, a capital de Xinjiang, originou um tiroteio onde foram mortos dois rebeldes» («Atentado contra Jogos Olímpicos», Global/DN, 10.3.2008, p. 15);

  6. «Os reformados e os operários são quem mais adere aos Alcoólicos Anónimos (AA), onde os membros têm uma média de idades de 47 anos, segundo uma sondagem desta organização que apoia na recuperação do alcoolismo» («Alcoólicos Anónimos traçam perfil», Global, 19.3.2008, p. 3).


Logradouros públicos

Escolham

Depois de a obra actual [sic] — O novo acordo ortográfico, publicada pela Texto Editores, ter vindo afirmar que o Acordo Ortográfico de 1990 vem estabelecer, o que não é verdade, que se podia passar a escrever «Avenida da Liberdade ou avenida da liberdade» (p. 12), vi, com espanto, que também Guia Prático do Acordo Ortográfico, da prestigiada Porto Editora, afirma que se passará a escrever «Rua da Restauração ou rua da restauração» (p. 27). A especialista em dicionários, porém, deu-se entretanto conta do erro ou recebeu reclamações, pois já vi uma reimpressão da mesma obra em que se lê «Rua da Restauração ou rua da Restauração». Cabe assim ao leitor escolher o exemplar sem mácula. Contudo, de preferência, leia o próprio texto do Acordo Ortográfico de 1990.
Base XIX, n.º 2, al. i): «Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de logradouros públicos: (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).»

«Marca umbrella»

Debaixo do mesmo tecto

      «A Sonaecom vai adoptar uma estratégia monomarca nas telecomunicações, já a partir deste mês, descontinuando a marca Novis, com que operava na rede fixa, e passando a utilizar a marca Optimus em todos os segmentos do negócio» («Optimus vai ser marca-umbrella da Sonae», OJE, 30.6.2008, primeira página). Em marketing, costuma dar-se o exemplo da Lactogal, que comercializa vários produtos (iogurte, leite, manteiga, natas e queijo) com a marca Mimosa, que não corresponde à denominação social da empresa. Costuma ver-se sem hífen: marca umbrella.


Arquivo do blogue