Descriminar e discriminar

Todos sabem

      Foi prefeito da Congregação da Doutrina da Fé? Perfeito. Descriminar a marijuana? Porquê discriminar esta de outras drogas? Claro, são parónimos, e toda a gente sabe. Ainda assim, falo sempre nas possíveis confusões, porque há pessoas que sabem mas se enganam, ou não? Muito reveladores, esses sorrisinhos entendidos…
      «Contudo, passados estes anos e ganhos tantos avanços, a mulher em Portugal continua a ser descriminada» («Mulher continua a ser descriminada», António Manuel Pinho, Conversas de Café, n.º 38, 20.6.2008, p. 3). Neste caso, foi o próprio director do jornal a dar o erro. Segundo a ficha técnica, a publicação não tem revisor. Preferem pagar a um cão: «É o novo companheiro de redacção. Snooky, um animal entre o podengo e o rafeiro, torna este jornal o único do Mundo que tem um cão cronista.»

«Água-ardente» e «aguardente»

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Aulas de substituição

O caso que a seguir relato aconteceu no Porto e foi-me contado por uma leitora. Uma professora substituta do 6.º ano de escolaridade afirmou categoricamente, numa aula de Português, que a grafia «água-ardente» não existe. Já estamos habituados a estas atitudes: quanto menos se sabe, mais categórico se é. Será que esta professora alguma vez ouviu falar de Rebelo Gonçalves e do Vocabulário da Língua Portuguesa, publicado em 1967? Ou conhece a importância desta obra e a própria obra e esqueceu-se do que se lê na terceira coluna da página 42 e na primeira da página 43? Deve ser isso, mas eu relembro-a: «água-ardente, s. f. Var.: aguardente (àguar). Pl.: águas-ardentes.» Contudo, como decerto é adepta da dúvida metódica, publico também uma imagem da página 42.
Como, no limite, os professores de substituição podem ser docentes de outras disciplinas, imagino quantos disparates vão pelo País fora. Seria preferível mandarem os alunos para o recreio, em contacto com a Natureza. Ou para uma biblioteca, onde pudessem consultar estas obras que os professores não tiveram tempo de ler.

Livros

Olisipografia

Desde Abril que o Gabinete de Estudos Olisiponenses, com sede no Palácio do Beau Séjour, na Estrada de Benfica, disponibiliza na sua página na Internet um livro, que se pode descarregar em formato PDF, por mês. Os livros são, naturalmente, sobre olisipografia.

Selecção vocabular

Maçaricos

«Em condições normais, fracassadas as tentativas de localizar um foragido em Portugal, o Tribunal envia um mandado de captura para a Interpol portuguesa, sedeada no quartel-general da PJ, na Gomes Freire, que depois de verificar a não existência de erros se encarrega de o difundir na base de dados da Interpol internacional» («Mandado para Vale ainda não chegou a Londres», André Rito, Metro, 24.6.2008, p. 3). Nunca antes vi a sede da Polícia Judiciária referida como «quartel-general». Um quartel-general não é uma instalação militar? Peço aos meus leitores que sejam ou tenham sido militares ou polícias que contribuam com achegas para esclarecer esta questão.

Detenção e apreensão

Era o que faltava

Na primeira página da edição de hoje do Metro, pode ler-se que «a PJ revelou ontem uma nova detenção de fenproprorex, substância ilícita e perigosa que inibe o apetite». Tanto quanto sei, as pessoas são detidas e os bens apreendidos. Já é suficientemente mau que os operadores judiciários falem em «mandados» (como ainda ontem, a propósito de Vale e Azevedo), e os jornalistas digam que são «mandatos». Estão sempre com a cabeça no futebol e na política.

Uso do itálico

Nem eles sabem

A incoerência é uma coisa muito triste. Não há uma única vez em que o jornal Meia Hora não grafe em itálico o vocábulo «Knesset». Ao mesmo tempo, nunca grafa em itálico o vocábulo «Duma». Qual é o critério, podemos saber? Não são ambos nomes de instituições, parlamentos? «O Presidente francês pediu ontem no Knesset (parlamento israelita) para Israel “correr riscos pela paz”, referindo a aprovação de uma lei, por parte de “vários deputados”, que estimularia a saída dos colonos da Cisjordânia, “através da compensação e realojamento em Israel”» («Sarkozy pede “riscos pela paz” na região», Meia Hora, 24.3.2008, p. 8). Mas: «O Rússia Unida tem maioria no Parlamento (Duma) e criou recentemente o cargo de “presidente” especialmente para o entregar a Vladimir Putin» («Putin aceita presidir ao partido mais poderoso», Meia Hora, 16.4.2008, p. 9).

À custa de, outra vez

Lord have mercy!


      O líder da Comunhão Anglicana, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária (topónimo que, felizmente, caiu nas boas graças dos jornalistas, que nunca usam Canterbury), está a ser criticado na Conferência Global para o Futuro Anglicano (GAFCON), a decorrer em Jerusalém. O Meia Hora dá alguns pormenores: «Os líderes africanos acusaram ainda Williams de “incapacidade” de unir os anglicanos e de adulterar a Bíblia. Num folheto dado aos conferencistas lia-se: “Queremos união, mas não às custas de reescrever a Bíblia para satisfazer as mais recentes modas culturais”» («Casamento gay ameaça cisão», Margarida Caseiro, Meia Hora, 24.3.2008, p. 7).
      Se o comunicado estivesse escrito em português, não valia a pena dizer nada. A culpa seria dos conferencistas. Assim, diga-se que «às custas» está errado. Deve dizer-se «à custa de». Custas só as judiciais. Lia-se no referido folheto: «We earnestly desire the healing of our beloved Communion, but not at the cost of re-writing the Bible to accommodate the latest cultural trend.» Até o pior dicionário inglês-português regista que a locução at the cost of se traduz pela locução prepositiva «à custa de», já registada em 1712 no Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau. Só no plural, costs, o vocábulo (e não já a locução) se refere ao Direito e, logo, terá como tradução «custas». Dois exemplos de uso deste dicionário: «Fizerão as suas exequias à custa do Publico» e «Se anda elle cheyroso, he à minha custa.»


Uso das aspas

Sem razão

Fico sempre perplexo quando vejo os jornalistas usarem aspas (ou plicas, como é, erradamente, o caso em apreço) em vocábulos menos usuais ou populares. É algum cordão sanitário? «José Marques Escada, também conhecido por Ti Zé Marques, um dos últimos tosquiadores de ovelhas da região da Guarda, já só faz tosquias “para matar o tempo” e por “gostar da arte”. […] O processo de tosquia começa com a separação do exemplar do resto do rebanho. O animal é dominado pelo método do ‘apernar’ [,] que consiste em colocar uma cinta de couro em redor das quatro patas para não se mexer e poder ser tosquiado» («Tosquiador de ovelhas ainda usa a tradicional tesoura manual», António Sá Rodrigues, Global, 23.6.2008, p. 10). Segundo registam muitos dicionários, apernar é prender um animal pelas pernas, que é o mesmo que pear.

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