Selecção vocabular

Maçaricos

«Em condições normais, fracassadas as tentativas de localizar um foragido em Portugal, o Tribunal envia um mandado de captura para a Interpol portuguesa, sedeada no quartel-general da PJ, na Gomes Freire, que depois de verificar a não existência de erros se encarrega de o difundir na base de dados da Interpol internacional» («Mandado para Vale ainda não chegou a Londres», André Rito, Metro, 24.6.2008, p. 3). Nunca antes vi a sede da Polícia Judiciária referida como «quartel-general». Um quartel-general não é uma instalação militar? Peço aos meus leitores que sejam ou tenham sido militares ou polícias que contribuam com achegas para esclarecer esta questão.

Detenção e apreensão

Era o que faltava

Na primeira página da edição de hoje do Metro, pode ler-se que «a PJ revelou ontem uma nova detenção de fenproprorex, substância ilícita e perigosa que inibe o apetite». Tanto quanto sei, as pessoas são detidas e os bens apreendidos. Já é suficientemente mau que os operadores judiciários falem em «mandados» (como ainda ontem, a propósito de Vale e Azevedo), e os jornalistas digam que são «mandatos». Estão sempre com a cabeça no futebol e na política.

Uso do itálico

Nem eles sabem

A incoerência é uma coisa muito triste. Não há uma única vez em que o jornal Meia Hora não grafe em itálico o vocábulo «Knesset». Ao mesmo tempo, nunca grafa em itálico o vocábulo «Duma». Qual é o critério, podemos saber? Não são ambos nomes de instituições, parlamentos? «O Presidente francês pediu ontem no Knesset (parlamento israelita) para Israel “correr riscos pela paz”, referindo a aprovação de uma lei, por parte de “vários deputados”, que estimularia a saída dos colonos da Cisjordânia, “através da compensação e realojamento em Israel”» («Sarkozy pede “riscos pela paz” na região», Meia Hora, 24.3.2008, p. 8). Mas: «O Rússia Unida tem maioria no Parlamento (Duma) e criou recentemente o cargo de “presidente” especialmente para o entregar a Vladimir Putin» («Putin aceita presidir ao partido mais poderoso», Meia Hora, 16.4.2008, p. 9).

À custa de, outra vez

Lord have mercy!


      O líder da Comunhão Anglicana, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária (topónimo que, felizmente, caiu nas boas graças dos jornalistas, que nunca usam Canterbury), está a ser criticado na Conferência Global para o Futuro Anglicano (GAFCON), a decorrer em Jerusalém. O Meia Hora dá alguns pormenores: «Os líderes africanos acusaram ainda Williams de “incapacidade” de unir os anglicanos e de adulterar a Bíblia. Num folheto dado aos conferencistas lia-se: “Queremos união, mas não às custas de reescrever a Bíblia para satisfazer as mais recentes modas culturais”» («Casamento gay ameaça cisão», Margarida Caseiro, Meia Hora, 24.3.2008, p. 7).
      Se o comunicado estivesse escrito em português, não valia a pena dizer nada. A culpa seria dos conferencistas. Assim, diga-se que «às custas» está errado. Deve dizer-se «à custa de». Custas só as judiciais. Lia-se no referido folheto: «We earnestly desire the healing of our beloved Communion, but not at the cost of re-writing the Bible to accommodate the latest cultural trend.» Até o pior dicionário inglês-português regista que a locução at the cost of se traduz pela locução prepositiva «à custa de», já registada em 1712 no Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau. Só no plural, costs, o vocábulo (e não já a locução) se refere ao Direito e, logo, terá como tradução «custas». Dois exemplos de uso deste dicionário: «Fizerão as suas exequias à custa do Publico» e «Se anda elle cheyroso, he à minha custa.»


Uso das aspas

Sem razão

Fico sempre perplexo quando vejo os jornalistas usarem aspas (ou plicas, como é, erradamente, o caso em apreço) em vocábulos menos usuais ou populares. É algum cordão sanitário? «José Marques Escada, também conhecido por Ti Zé Marques, um dos últimos tosquiadores de ovelhas da região da Guarda, já só faz tosquias “para matar o tempo” e por “gostar da arte”. […] O processo de tosquia começa com a separação do exemplar do resto do rebanho. O animal é dominado pelo método do ‘apernar’ [,] que consiste em colocar uma cinta de couro em redor das quatro patas para não se mexer e poder ser tosquiado» («Tosquiador de ovelhas ainda usa a tradicional tesoura manual», António Sá Rodrigues, Global, 23.6.2008, p. 10). Segundo registam muitos dicionários, apernar é prender um animal pelas pernas, que é o mesmo que pear.

Topónimo: Mindanau

De certeza?


      O tufão Fengshen fez estragos nas Filipinas e na ortografia portuguesa: «O gabinete da Protecção Civil filipina registou 26 mortos na ilha de Mindanao (Sul). “Este balanço vai aumentar muito quando dispusermos da lista de vítimas entre os passageiros do ferry”, sublinhou o presidente da Cruz Vermelha» («Tufão causou centenas de mortos», Global/Jornal de Notícias, 23.6.2008, p. 15). Ora, tanto quanto sei, há muito tempo que se escreve Mindanau, não há qualquer necessidade de macaquear o inglês. Já temos sorte que não escrevam «Philippines» ou «typhoon», não é?

Uso da maiúscula inicial

Sim, não, talvez

É quase fatal: nove em cada dez vezes que escrevem «sim» ou «não» a propósito de resultados de referendos ou eleições, os jornalistas grafam aquelas palavras com maiúscula inicial. E porquê? É um mistério. Não o tendo feito na notícia que cito a seguir, o Meia Hora está, pelo menos por isto, de parabéns. «A população de Tarija pronunciou-se ontem em referendo quanto à autonomia da pequena região boliviana, embora uma das mais ricas deste país sul-americano. Tal como nos anteriores referendos autonómicos, que se realizaram em Santa Cruz, Beni e Pando, também o “sim” à autonomia perante o Governo central do Presidente Evo Morales deverá vencer, segundo as primeiras projecções de ontem, à boca das urnas» («Tarija deverá dizer “sim” à autonomia», 23.6.2008, p. 8).

Verbo haver

Hão coisas terríveis

      No serviço noticioso da Antena 1, às 13 horas, tive a desdita de ouvir o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, afirmar que «vão haver» não sei o quê. Não ouvi o resto. Acho que vou emigrar com o verbo «pôr». O meu será um exílio voluntário.

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