Topónimo: Mindanau

De certeza?


      O tufão Fengshen fez estragos nas Filipinas e na ortografia portuguesa: «O gabinete da Protecção Civil filipina registou 26 mortos na ilha de Mindanao (Sul). “Este balanço vai aumentar muito quando dispusermos da lista de vítimas entre os passageiros do ferry”, sublinhou o presidente da Cruz Vermelha» («Tufão causou centenas de mortos», Global/Jornal de Notícias, 23.6.2008, p. 15). Ora, tanto quanto sei, há muito tempo que se escreve Mindanau, não há qualquer necessidade de macaquear o inglês. Já temos sorte que não escrevam «Philippines» ou «typhoon», não é?

Uso da maiúscula inicial

Sim, não, talvez

É quase fatal: nove em cada dez vezes que escrevem «sim» ou «não» a propósito de resultados de referendos ou eleições, os jornalistas grafam aquelas palavras com maiúscula inicial. E porquê? É um mistério. Não o tendo feito na notícia que cito a seguir, o Meia Hora está, pelo menos por isto, de parabéns. «A população de Tarija pronunciou-se ontem em referendo quanto à autonomia da pequena região boliviana, embora uma das mais ricas deste país sul-americano. Tal como nos anteriores referendos autonómicos, que se realizaram em Santa Cruz, Beni e Pando, também o “sim” à autonomia perante o Governo central do Presidente Evo Morales deverá vencer, segundo as primeiras projecções de ontem, à boca das urnas» («Tarija deverá dizer “sim” à autonomia», 23.6.2008, p. 8).

Verbo haver

Hão coisas terríveis

      No serviço noticioso da Antena 1, às 13 horas, tive a desdita de ouvir o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, afirmar que «vão haver» não sei o quê. Não ouvi o resto. Acho que vou emigrar com o verbo «pôr». O meu será um exílio voluntário.

Uso dos numerais ordinais

Sem afinidades electivas

      A propósito de coisas ridículas e da afinidade, lembrei-me de quão risível é ouvir os primeiranistas (e, às vezes, os quintanistas) de Direito usarem numerais ordinais em referência a números de artigos do Código Civil e de outras leis superiores a dez. «A cessação da afinidade», dizem eles, «está consignada no artigo milésimo quingentésimo octogésimo quinto.» Não seria melhor, mais inteligente, reservar os neurónios para tarefas mais úteis? E, sobretudo, pergunto, que lhes aconteceu no ensino básico?

Uso da maiúscula inicial

Já era

Mesmo que eu concordasse, e não concordo, que se use maiúscula inicial em nomes como «presidente», «rei», «primeiro-ministro», e outros, para expressar grande deferência, acho um pouco desassisado que se use para ex-titulares. Acabo de ler no Meia Hora: «Após ter acusado sexta-feira a União Europeia de “hipocrisia” nas suas políticas em relação a Cuba, o antigo Presidente e líder histórico da ilha, Fidel Castro, escreveu ontem um artigo em que desmente haver “lutas internas” ou apoiar “alguma facção”, no Partido Comunista cubano» («Fidel desmente cisões no partido», Meia Hora, 23.6.2008, p. 7). Neste caso concreto, acho que só mudaria de opinião se tivesse de ir a Cuba para ser submetido a uma cirurgia oftalmológica. Contudo, como subitamente e como que por milagre o problema foi resolvido, nada me convence.
Agora a sério. Já viram, ó senhores jornalistas, como é ridículo escrever-se «antigo Presidente»? Até parece que aqui a «grande deferência» não cessa, como a dissolução do casamento não leva à cessação da afinidade. Uma vez sogra, sogra toda a vida. Uma vez «Presidente», presidente toda a vida. Dantes só se ouvia uma vez p… Chega. Já perceberam.

Verbos «colocar» e «pôr»


Outros perigos

O verbo «colocar», esse fura-vidas (ou hustler, para os anglófonos…), continua a sua gloriosa ascensão na língua portuguesa, tendo já conseguido escorraçar o verbo «pôr» da frequência da melhor sociedade. O verbo «pôr» pondera mesmo emigrar ou retirar-se para a província. («Só por causa do que as galinhas têm de fazer com os ovos», afirma com ironia. «Se no Palácio de São Bento ainda se criassem galinhas para vender os ovos ao Hotel Aviz, ficava em Lisboa. Assim, nada feito!») «Para “não colocar em perigo a vida dos apoiantes”, o líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) anunciou ontem a sua desistência à corrida da presidência, cuja segunda volta está agendada para esta sexta-feira» («Violência leva rival de Mugabe a sair da eleição», Margarida Caseiro, Meia Hora, 23.6.2008, p. 7).

Efeito de estufa

Com efeito!

Há um fenómeno que é o «efeito (de) estufa», não é assim? Muito bem. E há gases associados a este fenómeno, não é? Estabelecido isto, passemos a determinar se são os gases que causam o fenómeno ou se, pelo contrário, é o fenómeno que origina os gases.
O que os especialistas em climatologia afirmam é que certos gases, como o dióxido de carbono, o metano, o óxido de diazoto, o hexafluoreto de enxofre, o hidrofluorcarboneto, entre outros, criam uma espécie de cobertura, como a de uma estufa, sobre a Terra, deixando entrar a luz solar e impedindo a saída do calor. Uma estufa gigantesca, pois. São os gases, então, que criam o fenómeno, que por isso mesmo se designa por «efeito de estufa». E finalmente, «gases com efeito de estufa» ou «gases de efeito de estufa»?
É verdade que tanto a preposição «de» como a preposição «com» relacionam por subordinação, mas sempre lemos e escrevemos: «detergente com efeito ambientador», «ténis com efeito calmante», «chás com efeito relaxante», «casamento religioso com efeito civil», «plantas com efeitos medicinais», «agravos com efeitos suspensivos», «fármacos com efeito secundário» (quase todos)… Todavia, ultimamente, começou a aparecer muito a expressão «gases de efeito de estufa». Até pela repetição da preposição «de» se deveria evitar. «De acordo com a autarquia, a iniciativa pretende contribuir para a “beneficiação ambiental, através da redução de gases de efeito de estufa”» («Protocolo permite plantar 16 mil árvores em Loures», Meia Hora, 23.6.2008, p. 6).

Formação


Oficina de Pontuação


      Ainda há vagas para este curso intensivo de pontuação, que irei orientar na Booktailors no dia 28 (último sábado) deste mês. Trata-se de um curso intensivo, eminentemente prático, mas fortemente ancorado nas regras da gramática. Darei umas breves indicações de como era a pontuação dos Gregos, dos Romanos, na Idade Média, depois da invenção da imprensa e na escrita moderna. Não deixarei de abordar, naturalmente, pela sua singularidade, a virgulação de José Saramago. Com abundantes exemplos e exercícios. Inscrições aqui.

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