Aprender mandarim

Mandarim calmante

Perante a emergência da China como nova grande potência mundial, os Brasileiros não perdem tempo. Cada vez há mais interessados em aprender mandarim. «Na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), o curso já chegou a ter fila de espera e a procura aumentou cerca de 70 % de 2007 para 2008» («Aprendendo mandarim para dominar o mundo», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 25.5.2008, A17). Uma professora de Mandarim, Luysi Chao, diz que a «notícia de que o idioma não tem conjugação verbal sempre acalma os iniciantes». Pois, e o resto? Mas admito: se a conjugação verbal da nossa própria língua já é uma complicação para os falantes, o que não seria igual complexidade para os que estão a aprender uma língua tão estranha à nossa cultura.

Vantagem injusta

E porque não?

Recentemente, alguém me dizia que o conceito de «vantagem injusta» era inconcebível. Ora, não soube então nem agora sei porquê. Por coincidência, soube que há dias Oscar Pistorius, o atleta sul-africano duplo amputado, declarava a propósito de o Tribunal Arbitral do Desporto entender, ao contrário da Federação Internacional de Atletismo, que as próteses da marca Cheetah Flex-Foot que usa não lhe concediam vantagem relativamente aos outros atletas: «Estes últimos dias foram muito stressantes. Este é um dos melhores dias da minha vida e espero que isto cale as teorias malucas que circularam acerca da minha injusta vantagem”» («Pistorius, o atleta com próteses nas pernas, pode correr nos Jogos Olímpicos de Pequim», Filipe Escobar de Lima, Público, 17.5.2008, p. 38). Não há, tanto quanto a minha inteligência abrange, qualquer contradição nos termos.

Léxico contrastivo: «grotão»

No cu de Judas

«Em 2004, o programa ainda estava começando, e o que nós já observamos naquele ano foi que o PT finalmente conseguiu penetrar nos grotões e aumentou bastante sua cota nos municípios menores. Muita gente fala sobre como o Bolsa Família ajudou Lula nas eleições de 2006, quando o programa atingia dez milhões de famílias, mas agora já está chegando a 12 milhões. Então, provavelmente, o PT vai ter esse ano um resultado ainda melhor, penetrando mais nas cidades menores» (David Fleischer, em entrevista a Raphael Bruno. «“PT conseguiu entrar nos grotões”», Jornal do Brasil, 25.5.2008, p. A9). Grotão é o termo popular brasileiro para designar um lugar muito distante em relação aos centros urbanos. É o aumentativo de «grota», um vale, terreno entre duas montanhas (do italiano grotta, que também regista a acepção, literária e obsoleta, de luogo scosceso, rupe: andatevene su per questa grotta (Dante)).

A necessidade de revisão

Erros? Gralhas? Ambos?

«Infelizmente, a versão portuguesa [da obra Um Oceano de Ar, de Gabrielle Walker, com tradução de Maria Emília Novo e publicada pela Europa-América] não faz justiça à inspirada prosa de Walker. As incorrecções gráficas abundam e nalgumas passagens a média é de uma por página — excedendo claramente o limite do tolerável» («A ciência do ar», Luís Tirapicos, Expresso/Actual, 10.5.2008, p. 41). Embora a expressão «incorrecção gráfica» não seja das mais claras (são erros? São gralhas?), um facto se percebe: a obra referida tem mais erros do que é admissível. Parece ser uma opção editorial a que só os leitores poderão pôr fim.

Iliteracias

Tantas mortes

No Metro, dois homens falavam dos dez anos da morte de Francisco Lucas Pires, esse homem admirável e político como poucos.
— De que é que ele morreu mesmo?
— Acho que foi de morte natural.
— Morte natural? Mas não foi doença?
— Há aí uma conjunção a mais. De morte natural. Mais concretamente, ataque cardíaco.

Iliteracias

Disparates transpirenaicos

Em reportagem, ontem, Daniel Ribeiro, o correspondente da Antena 1 em França, falava, a propósito da greve convocada pelos sindicatos, de se ter aberto a «caixa de Pandorra». Não acredito que tenha sido um lapsus linguæ.
Pandora (Πανδώρα, em grego), a que tem todos os dons, foi a primeira mulher criada por Zeus, que a ofereceu em casamento a Epimeteu. Pandora levou, como presente de Zeus, uma caixa (segundo outras versões, uma jarra ou ânfora). Epimeteu, apesar de avisado pelo irmão, Prometeu, de que não devia aceitar nenhum presente de Zeus, aceita que Pandora abra ou abre ele mesmo a caixa, saindo dela os males que ainda hoje atingem a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira, o vício, o crime e a paixão.
Enfim, assim já temos mais uma rima para Andorra e modorra e *orra. Mais a sério: é imperdoável que um jornalista profira um disparate deste calibre.

Selecção vocabular

Síndrome de Fritzl

É verdade: o verbo ter já teve mais cotação. Agora, a esmagadora maioria de quem escreve prefere o verbo possuir. Dizia o original: «They are the most likely to have a mother with a master’s degree and a father with a doctorate degree.» O tradutor quis que fosse: «São os que mais probabilidades têm de possuir uma mãe com um mestrado ou um pai doutorado.» «Possuir uma mãe»? Tenham dó!

Ortografia: «malvisto»

Com os erros aprende-se

      «Com os erros aprende-se. O problema é que em Portugal o erro é mal visto» («PSD: Experiência governativa», Joaquim Jorge, Meia Hora, 20.5.2008, p. 9). Com os erros aprende-se: deve escrever-se «malvisto», como recentemente aqui escrevi. Até no âmbito da nova ortografia: «Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado), bem-ditoso (cf. malditoso), bem-falante (cf. malfalante), bem-mandado (cf. malmandado), bem-nascido (cf. malnascido), bem-soante (cf. malsoante), bem-visto (cf. malvisto)» (Artigo 4.º, Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares) do Acordo Ortográfico de 1990).

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