Selecção vocabular

Síndrome de Fritzl

É verdade: o verbo ter já teve mais cotação. Agora, a esmagadora maioria de quem escreve prefere o verbo possuir. Dizia o original: «They are the most likely to have a mother with a master’s degree and a father with a doctorate degree.» O tradutor quis que fosse: «São os que mais probabilidades têm de possuir uma mãe com um mestrado ou um pai doutorado.» «Possuir uma mãe»? Tenham dó!

Ortografia: «malvisto»

Com os erros aprende-se

      «Com os erros aprende-se. O problema é que em Portugal o erro é mal visto» («PSD: Experiência governativa», Joaquim Jorge, Meia Hora, 20.5.2008, p. 9). Com os erros aprende-se: deve escrever-se «malvisto», como recentemente aqui escrevi. Até no âmbito da nova ortografia: «Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado), bem-ditoso (cf. malditoso), bem-falante (cf. malfalante), bem-mandado (cf. malmandado), bem-nascido (cf. malnascido), bem-soante (cf. malsoante), bem-visto (cf. malvisto)» (Artigo 4.º, Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares) do Acordo Ortográfico de 1990).

Dicionário de Calão

Valha-me Deus

      Onde tinha a cabeça a equipa que fez o Dicionário de Calão do Instituto da Droga e Toxicodependência? Até um leigo sabe que, dado o público-alvo, nunca poderia escrever coisas tão ineptamente estúpidas como definir como «betinho», «cocó» ou «careta» «aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante». Assim se gastam os dinheiros públicos.

«Colóquio/Letras» em linha

Colóquio/Letras

A revista literária Colóquio/Letras, que publicou até agora cerca de 24 mil páginas e contou com o contributo de 1100 colaboradores, editada desde 1971 pela Fundação Gulbenkian, terá a partir de hoje as suas edições publicadas até ao ano 2000 disponíveis para consulta na Internet.

Pontuação

Nem meio mas

Para um trabalho que estou a fazer, tenho estado a ler vinte obras infanto-juvenis. Muita coisa me surpreende, e desde logo o desleixo com que são escritas, traduzidas e revistas. É, contudo, uma surpresa relativa, pois sabia, temia, que não fossem mais bem revistas, traduzidas ou escritas que todas as outras obras. Numa que estou a ler agora, Henrique, o Terrível, de Francesca Simon (tradução e adaptação de Rómina Laranjeira, publicada pela Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007), o uso da pontuação em orações em que está presente a conjunção coordenativa adversativa mas é completamente errada. O erro parece dever-se, em parte, à ideia ainda persistente de que a vírgula corresponde a uma pausa. Dez exemplos:
  1. «Mas, Henrique, o Terrível, pensou: “E se eu fosse perfeito? Como seria?”» (p. 10).
  2. «— Mas, eu estou sentado correctamente — respondeu o Henrique» (p. 18).
  3. «O pé do Henrique queria acertar no Pedro. Mas, lembrou-se que devia ser perfeito e continuou a comer» (p. 20).
  4. «Mas, o Henrique baixou a cabeça» (p. 23).
  5. «Mas, o Henrique não obedeceu» (p. 25).
  6. «— Mas, já fui para lá umas catorze vezes — lamentou-se o Pedro. — Por favor, posso ser o Capitão Gancho?» (p. 50).
  7. «Mas, o pai não parou…» (p. 77).
  8. «— É um bocadinho distante… — disse o Pedro. — Mas, não me estou a queixar… — acrescentou, de imediato» (p. 81).
  9. «Mas, os chuviscos transformaram-se em aguaceiros e começou a soprar um vento mesmo forte» (p. 88).
  10. «— Mas, está a chover torrencialmente — constatou o Henrique» (p. 90).


Antropónimos

Fiquei profundamente decepcionado.
Sempre achei que os comunistas eram excelentes pedreiros.
Como é que eles chegaram ao poder?

Millôr Fernandes sobre a queda do Muro de Berlim

Melhor assim, Millôr


As vicissitudes das palavras, dos substantivos comuns, são desconcertantes. As dos nomes próprios, ainda mais. Pela entrevista que Millôr Fernandes (jornalista, escritor, humorista, dramaturgo, artista gráfico, desenhador e tradutor autodidacta de Shakespeare e Molière) dá hoje ao Jornal do Brasil, ficamos a saber que o nome que a família lhe destinara era outro: Milton. «O escrivão se atrapalhou no momento de redigir a certidão de nascimento do filho dos Fernandes. E o nome Milton ­— desejado pela mãe —­ ganhou estranhos contornos na grafia confusa do funcionário público. O traço de corte ficou além do T ­— que virou um L ­— e se transformou num acento circunflexo. O N quadrado ficou parecendo um R. E assim eternizou-se a variação esdrúxula que, de acordo com o próprio, foi decisiva para a sua formação. Adotado definitivamente desde os 17 anos, o nome resume, por seu exotismo e singularidade, a obra de um dos artistas mais desconcertantes do país» («Um nome a zelar. Millôr… e suas várias assinaturas», Jornal do Brasil, 18.5.2008, p. B8).

Assim que + conjuntivo

Agora e no futuro

«Depois de muita polêmica, o parlamento de Portugal aprovou ontem o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que unifica a forma como é escrito o idioma nos países lusófonos. Assim que obter a sanção do presidente Cavaco Silva, que já se mostrou favorável ao acordo, o país terá seis anos para se adaptar às novas normas» («Portugal aprova acordo ortográfico», Juliana Krapp, Jornal do Brasil, 17.5.2008, p. A5).
Nada vi, ao consultar gramáticas de autores brasileiros, que autorize o uso do infinitivo «obter» neste tipo de oração. Entre nós, é clarissimamente incorrecto. Com a locução conjuncional temporal assim que numa oração que se reporte ao futuro, o modo verbal exigido é o conjuntivo (subjuntivo, no Brasil). No caso, futuro do conjuntivo. A sanção do presidente Cavaco Silva não é uma eventualidade, uma possibilidade? E não é o modo conjuntivo que o expressa? Parece uma frase mal traduzida do inglês, língua em que o Simple Present é usado pelo nosso futuro do conjuntivo: When you come to my house, I’ll show you the books. Com verbos regulares, a ignorância de quem escreve nem se nota nestes casos…
Quanto ao Acordo Ortográfico, os Brasileiros terão, depois da assinatura, a 1 de Janeiro de 2009, da minuta preparada pela Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), três anos para se adaptarem. Contudo, a partir de hoje, todos os textos publicados pela Academia Brasileira de Letras já seguirão a nova norma. Até ao fim de 2008, sairá a 5.ª edição do Vocabulário da ABL, já com 8 % a 10 % das 400 mil palavras que o compõem adaptadas à nova grafia.

Senão e se não

Não há bela

      «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, senão parecidas, sempre emocionantes» («Ao computador todos temos cara de tansos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.4.2008, p. 11). Nesta frase, o se é, na verdade, conjunção subordinativa condicional que introduz uma oração na negativa, com o verbo subentendido. Logo, separada do advérbio não: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se não parecidas, sempre emocionantes.» Frase que podia ter esta redacção: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e as histórias, se não são parecidas, são sempre emocionantes.» Ou estoutra: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se é que não parecidas, sempre emocionantes.» O único elo entre se não e senão, tirando casos de fronteira, é a homofonia.

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