Regressar à Terra

Os coveiros da língua

As parangonas do Meia Hora levantaram o ânimo a toda a Oposição: «INE obriga Governo a regressar à terra». Mas será mesmo assim? Se andava na estratosfera, o Governo terá sido obrigado a regressar à… Terra. Regressar à terra não anda longe de descer à cova ou baixar à terra, que é ser enterrado. E esta foi mais uma pazada.

Milhões e biliões, outra vez

Prince Charles said

Uma notícia publicada hoje no gratuito Meia Hora deixou-me muito preocupado. Mais concretamente foi um destaque do artigo «Príncipe Carlos quer travar abate de árvores tropicais» (Margarida Caseiro, Meia Hora, 16.5.2008, p. 8) o que me deixou de rastos. Pode ler-se aí: «Tropical 1.4 [sic] biliões. Pessoas dependentes da floresta tropical, que terão de ser ajudadas se o corte de madeira for proibido.» Isso não é muita gente? Fui espreitar, aterrado, o relógio da população mundial: 6 667 997 711. Até ordem em contrário, ninguém pode morrer nos próximos tempos, até perfazer o número lançado para cima do leitor.

«The trouble is the rainforests are home to something like 1.4 billion of the poorest people in the world» (in BBC).

Intervindo

Simples, simples…


      Quando chamo a atenção para questões aparentemente tão comezinhas como esta, por algum motivo o faço. Ainda hoje revi um texto em que se podia ler: «Em Abril, a Santa Sé já tinha intervido na 30.ª Conferência Regional da FAO para a América Latina, em Brasília (Brasil).» Ora, já devia estar na cabeça de toda a gente que o verbo intervir se conjuga (exceptuando algumas particularidades que não interessam ao caso) como o verbo vir. Logo, o particípio passado é intervindo. Como vindo. Mas são coisas simples...


Pronúncia: «fretado»

Menos aberto

No noticiário da Antena 1, ao meio-dia, o jornalista, a propósito da recente polémica de membros do Governo terem fumado durante um voo para a Venezuela, disse que era um avião /frétado/. Mas não. Em «frete», já o escrevi aqui um dia, o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pontuação

Ah, a pontuação…

«O futebolista português Luís Figo desmentiu que tenha morto um gato preto como noticiou um diário italiano, exigindo um pedido de “desculpas”, caso contrário levará a publicação a tribunal» («Figo acusado de ter morto gato», Global, 12.5.2008, p. 3). «Como noticiou um diário italiano»: oração subordinada adverbial conformativa. Como está intercalada, a vírgula é obrigatória. Sem vírgula, seria uma oração adjectiva (em que o como seria parafraseável por «(d)o modo que») e o sentido bem diferente. Sim, uma vírgula pode ter consequências sintáctico-semânticas desta importância.

«Trabalhador social» ou «ongueiro»?

É fácil

Ninguém como os Brasileiros para afeiçoar a língua ao nosso particular modo de dizer. Até nós, Portugueses, o reconhecemos. «Vestidos de T-shirt encarnada e boné preto, estes “ongueiros” (trabalhadores de ONG, como lhe[s] chamam os brasileiros), [sic] começaram a retirar os habitantes de Chirembwe, no dia 14 de Janeiro» («Expulsos pelo Zambeze», Carla Alves Ribeiro, Visão, 7.2.2008, pp. 70-71).

«O Dicionário dos Dicionários»

Onde está?

Algum leitor encontrou, nas suas deambulações, O Dicionário dos Dicionários, de autoria de Dieter Messner, professor na Universidade de Salzburgo, na Áustria? O objectivo do autor é o de compilar, nos volumes que for necessário, e estão previstos 50, todos os verbetes da língua portuguesa, da maneira como cada um foi explicado nos principais dicionários da língua.

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