Intervindo

Simples, simples…


      Quando chamo a atenção para questões aparentemente tão comezinhas como esta, por algum motivo o faço. Ainda hoje revi um texto em que se podia ler: «Em Abril, a Santa Sé já tinha intervido na 30.ª Conferência Regional da FAO para a América Latina, em Brasília (Brasil).» Ora, já devia estar na cabeça de toda a gente que o verbo intervir se conjuga (exceptuando algumas particularidades que não interessam ao caso) como o verbo vir. Logo, o particípio passado é intervindo. Como vindo. Mas são coisas simples...


Pronúncia: «fretado»

Menos aberto

No noticiário da Antena 1, ao meio-dia, o jornalista, a propósito da recente polémica de membros do Governo terem fumado durante um voo para a Venezuela, disse que era um avião /frétado/. Mas não. Em «frete», já o escrevi aqui um dia, o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pontuação

Ah, a pontuação…

«O futebolista português Luís Figo desmentiu que tenha morto um gato preto como noticiou um diário italiano, exigindo um pedido de “desculpas”, caso contrário levará a publicação a tribunal» («Figo acusado de ter morto gato», Global, 12.5.2008, p. 3). «Como noticiou um diário italiano»: oração subordinada adverbial conformativa. Como está intercalada, a vírgula é obrigatória. Sem vírgula, seria uma oração adjectiva (em que o como seria parafraseável por «(d)o modo que») e o sentido bem diferente. Sim, uma vírgula pode ter consequências sintáctico-semânticas desta importância.

«Trabalhador social» ou «ongueiro»?

É fácil

Ninguém como os Brasileiros para afeiçoar a língua ao nosso particular modo de dizer. Até nós, Portugueses, o reconhecemos. «Vestidos de T-shirt encarnada e boné preto, estes “ongueiros” (trabalhadores de ONG, como lhe[s] chamam os brasileiros), [sic] começaram a retirar os habitantes de Chirembwe, no dia 14 de Janeiro» («Expulsos pelo Zambeze», Carla Alves Ribeiro, Visão, 7.2.2008, pp. 70-71).

«O Dicionário dos Dicionários»

Onde está?

Algum leitor encontrou, nas suas deambulações, O Dicionário dos Dicionários, de autoria de Dieter Messner, professor na Universidade de Salzburgo, na Áustria? O objectivo do autor é o de compilar, nos volumes que for necessário, e estão previstos 50, todos os verbetes da língua portuguesa, da maneira como cada um foi explicado nos principais dicionários da língua.

Norma-padrão e erro

Nem pensar

Há, mesmo entre professores, a crença de que a evolução da língua tudo desculpa e tudo justifica. É um erro. Enquanto houver uma norma-padrão — ainda que actualmente promanada pelo meio de difusão que é a televisão, por natureza menos cuidado —, haverá desvios e erros. Perguntaram-me recentemente se a construção «a gente vamos» não está correcta. Claro que não. «A gente vamos» está por «a gente vai». Contém um erro de concordância. Na análise de Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, este erro é «causado pela falsa impressão de que a gente é plural e pelo paralelismo com a construção nós vamos» (in Norma e Variação, colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa», Caminho, 2007, p. 41).

Relativas cortadoras (I)

Não cortes

Jornal Nacional da TVI, ontem, debate entre Bagão Félix e Carvalho da Silva. À pergunta de Manuela Moura Guedes sobre se concordava com as recentes alterações ao Código de Trabalho, de que foi o mentor, Bagão Félix respondeu: «Não tenho uma visão maniqueísta: há coisas que concordo e coisas que discordo.» A eliminação, nesta última oração — oração relativa, mais especificamente denominada relativa cortadora, aquela em que ocorre um “corte” do sintagma nominal relativizado e da preposição que precede o pronome relativo —, das preposições pode atender a um princípio de natureza pragmático-discursiva e está abundantemente estudado, sobretudo no Brasil, onde o fenómeno começou ainda no século XIX. Na oralidade, vai atingindo (?) o estatuto de regular. Na escrita, incide mais sobre outros verbos, como o verbo gostar (* Este é o livro que eu mais gosto).
Voltemos à frase de Bagão Félix. Na oralidade, a propensão para a agramaticalidade neste tipo de oração é ainda propiciado pelo facto de estarmos perante dois verbos com regência diversa: concordar rege a preposição com; discordar rege a preposição de. Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, na obra que tenho vindo a citar nos últimos dias, Norma e Variação (Caminho, 2007), escrevem: «Ora em 265 orações relativas analisadas em discursos de rádio, televisão e imprensa, 74 (portanto 28 % do total) têm supressão da preposição pedida pelo verbo. […] Esta alteração sintáctica aproxima as duas variedades do Português (Europeu e Brasileiro) numa questão que tem sido apresentada, nas gramáticas tradicionais, como uma das diferenças mais notórias entre ambas» (pp. 70-71).

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