Apelidos asiáticos

Sr. Lua


      Segundo a edição de hoje do Público («É Ban, senhor Ban, explica a ONU», D. F., 28.4.2008, p. 20), Vijay Nambiar, chefe de gabinete de Ban Ki-moon, anda «angustiado com todas as incertezas que ainda persistem sobre o nome do secretário-geral das Nações Unidas». Não é caso para menos. Depois de mais de um ano de mandato, «muitos líderes mundiais, alguns que conhecem bem o secretário-geral, ainda usam erradamente o nome próprio dele como se fosse o apelido, tratando-o por Sr. Ki-moon ou Sr. Moon». E esta é, escreve Vijay Nambiar, uma questão «algo delicada». De facto, quem é que, nesta altura, não sabe que na Coreia do Sul, Coreia do Norte, China e outros países da região o primeiro nome é o apelido? Pelos vistos, muita gente. «De maneira a garantir um melhor e mais rigoroso reconhecimento do nome do secretário-geral, sugiro que no futuro […] usem a expressão “secretário-geral BAN”». E mais: que os funcionários da ONU «ilustrem [aos interlocutores] que BAN se pronuncia Baahn». Ah, e mais uma coisinha: que passem também a escrever o apelido todo em letras maiúsculas. BAN. Bah!

Símbolos % e ºC, outra vez

Outrora


      Aí por volta do início da década de 1950, quem estudasse pelo Compêndio de Geografia, para o 2.º Ciclo dos Liceus, da autoria de Alves de Moura, Evaristo Vieira e Américo Palma (Livraria Didáctica, Lisboa, 6.ª ed., s/d), podia ler coisas como estas: «A humidade relativa é muito elevada (80 %) e quase constante durante o ano.» (p. 467) «Dos círculos menores há a considerar os paralelos, assim chamados por serem paralelos ao equador (Fig. 43). Os mais notáveis são os quatro seguintes: trópico de Câncer e trópico de Capricórnio, que distam do equador 23º 27’, para N e para S, respectivamente: círculo polar árctico e círculo polar antárctico, que distam dos respectivos pólos 23º 27’.» «Quando a temperatura desce além de , produz-se a solidificação do orvalho, cobrindo-se os corpos de uma camada branca de água solidificada a que se dá o nome de geada.» (p. 71). «No interior, o clima é frígido, e nas planícies do Sueste é temperado continental, com grandes amplitudes térmicas (–4º e +17º).» (p. 107).
      Meu caro Freire de Andrade: se tinha 14 anos em 1954, poderá ter estudado por este manual. Nesta altura, em que os livros eram impressos em tipografias — no caso deste manual, na Tipografia Silvas, no número 120 da Rua D. Pedro V, aqui em Lisboa —, as coisas não eram feitas por acaso, como agora mais frequentemente acontece. Era o tempo do chumbo, o dedo não escorregava no componedor, como agora escorrega nas teclas do computador.

Plágio

Nem os sermões escapam

Agora também os homiliastas saem prejudicados com a Internet: «Os 28.000 sacerdotes católicos que há na Polónia foram informados pela respectiva hierarquia de que poderão ser multados, se plagiarem os seus sermões a partir da Internet, podendo inclusive sujeitar-se a três anos de cadeia, noticiava ontem o jornal britânico The Guardian, numa correspondência de Berlim. A Igreja publicou um livro sobre como se devem escrever sermões, de modo a combater o hábito crescente de os padres se apropriarem das palavras alheias» («Quem plagiar sermões pode ir para a cadeia», Público, 27.4.2008, p. 21). O padre Wieslaw Przyczyna, co-autor da obra ŚCIĄGAĆ CZY NIE ŚCIĄGAĆ? (Plagiar ou não Plagiar), que tem 150 páginas e custa 29,90 zlotys, à volta de 9 euros, é especialista em sermões da Pontifícia Academia de Teologia de Cracóvia.

Léxico: «pickanini»

Pequenino

«A corrida prometia, com três excêntricas personagens. Os dois candidatos que dizem o que pensam sem papas na língua: Livingstone (uma vez chamou nazi a um jornalista judeu) e Johnson (usou um termo negativo, pickanini, para falar de africanos numa coluna de jornal). E ainda o liberal democrata Brian Paddick (o mais alto funcionário da polícia britânica a ter assumido a sua homossexualidade). Mas a campanha tornou-se num duelo entre Johnson e Livingstone» («Duelo de duas personalidades originais para a câmara de Londres», Maria João Guimarães, Público, 27.4.2008, p. 18). Aquele pickanini espicaça a curiosidade de qualquer pessoa. Não há praticamente nada sobre o vocábulo. Ainda assim, na Internet descobri isto: «Sabir actually survived until the nineteenth century and some of its words occur very regularly in almost all pidgins and creoles: sabi or savi ‘to know’ (from Spanish/Portuguese saber), pikin/pikinini/pickanini ‘small’/’child’ (from Portugueses pequenino), oporto ‘white man’ (from the Portuguese city of the same name), etc.» (Los estudios ingleses. Situación actual y perspectivas de futuro, «How and why do pidgin languages evolve?», Ana Fernández Guerra, Universidade de Valência, 1999, p. 122).

Actualização em 1.5.2008

«Johnson tem passado o tempo a defender-se de um comentário que escreveu sobre uma visita do então primeiro-ministro Tony Blair a África na Spectator (a revista conservadora que editou de 1999 a 2005), criticando-o por fugir de Londres para ser saudado pelos pickaninnies, um termo pejorativo. “Picaninny é um termo fora de moda para descrever uma criança negra e sim, usei-o, e é ofensivo, mas já pedi desculpa várias vezes”, disse num debate televisivo, adiantando à laia de desculpa que o usou num “contexto satírico”» («O conservador colorido acusado de fazer pouca campanha para evitar gaffes», Maria João Guimarães, Público, 1.5.2008, p. 17).

Numerais


Manda a tradição



      No programa Sociedade das Nações de ontem, na Sic Notícias, Nuno Rogeiro, a propósito de um disco, falou nas Cantigas de Santa Maria, uma colecção, uma compilação de 419 cantigas, escritas em galego-português, dedicadas à Virgem, da autoria de Afonso X. E este numeral leu-o Nuno Rogeiro como cardinal: Afonso Dez. Ora, a verdade é que na designação de papas, soberanos, séculos e partes de uma obra se usam os ordinais até décimo quando o substantivo antecede o numeral. Logo, deveria ter dito Afonso Décimo. Se há alguma coisa facultativa é o uso dos cardinais quando o número é superior a dez, isso sim. É para prevenir estas confusões e trapalhadas que algumas revistas e jornais brasileiros usam, nestas circunstâncias, algarismos arábicos, como podem ver na imagem acima: João Paulo 2.º e Bento 16. Muito inventivos e práticos, os Brasileiros. Cada vez gosto mais deles. E é um amor recíproco, sei-o, porque 50 % dos meus leitores são brasileiros.


Formas de tratamento

Calinadas


      No Público, Nicolau Ferreira escreve sobre os funerais do futuro — «Os cemitérios do futuro vão estar vivos», é o título. O sumário previne, amigável e erroneamente: «No dia do vosso funeral não fiquem surpreendidos se houver pessoas a assistir a um concerto na esplanada do cemitério. A Europa espera por uma morte mais verde, tecnológica e personalizada. Vamos adiar a morte para ver o funeral de amanhã». Mortos e surpreendidos… Alguma figura de estilo, cogitará o revisor temeroso. Vamos, porém, por outro lado: «vosso» e «não fiquem».
      Já o Prof. Vasco Botelho de Amaral escrevia, a propósito das formas de tratamento, em 1947: «Considero que a língua portuguesa é rica demais quanto a formas, fórmulas, jeitos e processos de tratamento. Rica demais, porque a abundância de obstáculos não apenas se opõe aos estrangeiros dispostos a aprender a falar ou a escrever o nosso idioma, mas, inclusivamente, dificulta o acesso dos próprios Portugueses ao conhecimento seguro ou correcto da técnica do tratamento» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 540-557). Muito bem dito — até o duplo «demais». Ah, sim, não digam disparates. O texto vai por ali fora e lá está o que nos interessa: «Outro solecismo, frequente, por exemplo, nas locuções radiofónicas inclusivamente da nossa primeira estação, é a mistura do tratamento vocativo na 3.ª pessoa com pronomes na 2.ª:
      “Prezados ouvintes. Esperamos que o programa que lhes temos estado a transmitir seja do vosso agrado.”
      Quando se diz lhes, o tratamento realiza-se na 3.ª pessoa. Pois, esta mesma construção tem de manter-se, e, portanto, não se apresenta canonicamente o vosso, em lugar de seu. O programa que lhes temos estado a transmitir seja do seu agrado — será a única dicção correcta.»
      Na página 551, faz uma advertência: «2.as com 3.as = calinada». Não é bonito? Sessenta anos depois, o erro persiste. Tenho à minha frente duas obras: uma tradução e uma obra original portuguesa. Veja-se um exemplo da primeira: «— Mas agora entendem por que a casa é demasiado perigosa para vós? Têm de fazer com que a vossa mãe o entenda também. Têm de fazer com que ela queira ir-se embora dali. Se eles souberem que lá estão, pensarão que têm o livro e jamais vos deixarão em paz» (O Mapa Secreto. Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008, pp. 41-42). E um exemplo da segunda: «Lydia carregou na tecla que dizia “ler” e a mensagem apareceu escrita no ecrã: “Bem-vindos ao Planeta Branco. Convidamo-los a desembarcar, sem medo. As vossas vidas não correm perigo e a atmosfera é respirável» (O Planeta Branco, Miguel Sousa Tavares, revisão de Silvina Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 1.ª ed., 2005, pp. 61-62). Para quê continuar? Já perceberam.

Uso do hífen com anti-

Oh, que desilusão!

Ana Gerschenfeld escreve hoje no caderno P2 do Público: «Um dia, os automobilistas poderão ter de usar um capacete ao volante. Só que não será para proteger a cabeça em caso de choque, mas para evitar que eventuais lapsos de atenção provoquem um acidente» («No futuro. Capacete anti-erro», 26.4.2008, p. 3). Lamentavelmente, o capacete ainda não existe nem, existindo já, se aplicaria aos erros ortográficos: o prefixo anti- só leva hífen antes de h, i, r e s. Logo, antierro.

Dicionários raros

Boa notícia

Esta sim, é uma óptima notícia: o sítio do Instituto de Estudos Brasileiros/Universidade de São Paulo acaba de pôr à disposição do público, em versão fac-similada, dois dicionários raros: o Diccionario de Medicina Popular, da autoria de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, publicado pela primeira vez em 1842, e que chegou à 18.ª edição em 1918, e o Vocabulario Portuguez & Latino, de Rafael Bluteau, cujos dez volumes foram publicados entre 1712 e 1728. O projecto é coordenado pela historiadora Márcia Moises Ribeiro. Ver aqui. Seguir-se-á, proximamente, segundo é ali anunciado, a publicação de outros dicionários.
Muito obrigado ao leitor Jeová Barros, que me chamou a atenção para este acontecimento.

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