Acordo Ortográfico

2014 é amanhã

Ainda a propósito da preocupação com a «economia das famílias», não percebo porque é que não há ninguém interessado em publicar, não novos dicionários, mas volumes de actualização. Em especial no que diz respeito aos dicionários maiores, e mais caros, a publicação de um volume de actualização vinha acabar com o que para alguns é uma inevitabilidade: atirar os actuais dicionários para o caixote do lixo. Reúnam-se todos os vocábulos cuja grafia vai mudar, incluindo todas as formas verbais, e já está. Não se me afigura necessário comprar um dicionário com mais de 5 quilos. Por outro lado, a Academia das Ciências de Lisboa devia disponibilizar na sua página na Internet uma lista com os vocábulos com nova grafia. São cerca de 2200 vocábulos (o que corresponderá a 1,6 %), segundo já ouvi dizer. Ou teremos de ser nós, cidadãos, a fazê-lo?

Acordo Ortográfico

Vão para casa estudar

Lembram-se de eu ter mandado um jornalista do Público ir estudar para casa? Desconfio agora que ele até estudou, mas pelos livros errados. Refiro-me, concretamente, apenas a um dos erros. Escrevia ele: «A generalidade dos topónimos mantêm a maiúscula, mas esta torna-se facultativa em nomes de ruas, praças, etc. Vai ser possível, portanto, escrever-se avenida dos aliados ou rua augusta.» Contrapunha eu: «Não é verdade. Pior: é ridículo. Consigna o texto do novo acordo na Base XIX, n.º 2, al. i): «Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de logradouros públicos: (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).»
Vi ontem que a fonte pode ter sido o «guia acessível e de consulta rápida sobre as principais mudanças no acordo» publicado pela Texto Editores. A propósito do uso da maiúscula e minúscula, lê-se na página 12: «d) Logradouros públicos, templos ou edifícios. Avenida da Liberdade ou avenida da liberdade. Torre dos Clérigos ou torre dos clérigos.» Sim, trata-se da obra atual — O novo acordo ortográfico, da autoria Pedro Dinis Correia e João Malaca Casteleiro.
A não ser que os autores tenham uma versão secreta e expurgada de erros e gralhas do texto do Acordo Ortográfico de 1990, têm tanta razão como o jornalista do Público. Se este leu a obra daqueles, terão de ser os autores a pedir desculpa ao jornalista e a todos os leitores. E nisso não sou visto nem achado.
Já que estamos nisto, ainda pergunto: porque é que o título da referida obra começa com minúscula? A Base XIX (Das minúsculas e maiúsculas), n. º 1, al. c), do Acordo Ortográfico de 1990 determina: «Nos bibliónimos/bibliônimos (após o primeiro elemento, que é com maiúscula, os demais vocábulos podem ser escritos com minúscula, salvo nos nomes próprios nele contidos, tudo em grifo): O Senhor do paço de Ninães, O Senhor do paço de Ninães, Menino de engenho, Árvore e Tambor ou Árvore e Tambor.»
Por outro lado, e para acabar, acho ridículo que o próprio título já esteja em conformidade com as regras do novo acordo — que ainda não está em vigor. Parece que, aqui, não se preocupam com a economia das famílias. Marketing.
«Custa 4,41 euros. É barato», diziam ao meu lado, na FNAC do Alegro, duas senhoras manifestamente pouco familiarizadas com livros. Acabaram por comprar apenas um dicionário da língua portuguesa de pequeno formato. Dentre as várias edições, optaram por uma em função do peso.

Análise linguística

Áreas de Broca e Wernicke

Na sequência do texto «O que é isso de imagens mentais?», publicado na edição de 14 de Março do Público, o filósofo Fernando Belo volta a publicar outro texto à volta do mesmo tema. Pela sua importância, transcrevo um parágrafo deste último: «Também outras disciplinas podem ser úteis ao neurologista. O melhor exemplo creio ser o do linguista Maurice Gross, Méthodes en Syntaxe (1975), que unificou sintaxe e semântica, no que creio ser a maior descoberta linguística da segunda metade do século XX. Ele analisa 3000 verbos franceses, através da maneira como, na frase, regem sujeito e complementos directo e circunstanciais (preposições, etc.). Ou seja, as regras que estruturam as frases variam consoante os verbos. Ora, o que é fabuloso é que qualquer de nós as use espontânea e muito rapidamente sem pensar nelas. A fazer fé numa alusão breve de Jean-Pierre Changeux, O Homem Neuronal (pp. 153-4, da ed. francesa), são essas regras que se perdem quando há uma lesão da área de Broca, o paciente falando dificilmente apenas com substantivos, adjectivos e verbos no infinitivo. Por outro lado, se for a área de Wernicke a atingida, as regras da frase fazem-se bem, só nomes e verbos é que não jogam uns com os outros, as frases não têm sentido. Hipótese minha: uma das áreas ser a da sintaxe e a outra a da semântica. Não saberei é dizer que colaboração entre neurologistas da fala e linguistas deve haver» («Também a “ideia mental” é uma ficção filosófica», Fernando Belo, Público, 18.4.2008, p. 51).

Crítica literária

Criticar o crítico

«Mais restrita, em suma, do que “Palácio de Cristal”, esta última obra [O Estranhamento do Mundo, de Peter Sloterdijk, tradução de Ana Nolasco, publicada pela Relógio d’Água] é também menos formidável. Esta condição é agravada pelo facto de a servir uma tradução demasiado fascinada com a natureza perifrástica dos vocábulos alemães, incapaz de síntese e carente de revisão sintáctica» («Um estranho lugar esférico», Francisco Luís Parreira, Público/Ípsilon, 18.4.2008, p. 43). «Natureza perifrástica dos vocábulos alemães»? Não quererá o crítico referir-se ao carácter tendencialmente aglutinante da língua alemã?

«Nim»

Grubblerier

Portugueses ou Brasileiros, estamos sempre a tecer loas às outras línguas. Por vezes, injustificadas. «O rapazinho fez uma cara meio infeliz quando perguntei se o creme que havia escolhido era bom pra soleksem [eczema solar]. “Nja”, disse-me ele na resposta híbrida típica nativa (“Nej”,”não” + “ja”,”sim” = “Nja”, sem tradução em qualquer língua), “o melhor mesmo é aplicar pomada de cortisona”» («Farmácia, teatro, livro e cinema», Maria Fabriani, 14.5.2006, Montanha-Russa). Sem tradução em qualquer língua, hein? Na altura, disse à autora que não era verdade. Por intrincados matizes que a palavra tenha em sueco, temos a mesma amálgama em português: nim. «“Abílio Curto, por agora, diz nim”, mas é um “nim com N grande”» («Curto prepara candidatura à Câmara da Guarda», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 1.3.2008, p. 17).

Uso das aspas

Doutoreco

«“Supomos que os textos chegaram a Inglaterra do Sul de Itália, talvez antes do fim” do ano 1000, afirmou à BBC Isabella Schiller, da Universidade de Viena, que, com Dorothea Weber e Clemens Weidmann, descobriu os textos do bispo e “doutor” da Igreja» («Inéditos de Santo Agostinho descobertos na Alemanha», António Marujo, Público, 17.4.2008, p. 20). E as aspas servem para quê? Para insinuar que, afinal, não era doutor, mas bacharel? Valha-me Deus! Está nos dicionários: aos representantes da escolástica dá-se a designação de doutores. Assim como aos que ensinam publicamente matérias de doutrina. São os doutores da Igreja. Sem aspas! As aspas são escusadas e empecivas na leitura. Sem aspas!

Ortografia: rês/reses

Não rezes, não

No Público, já nem os editoriais escapam aos erros e gralhas. Em Sirvozelo, escreve José Manuel Fernandes, «as poucas rezes que sobram podem servir, como há 23 anos, para realizar algum capital num momento de aflição» («De Sirvozelo ao Terreiro do Paço, viagem na História», p. 42). Coisas simples, claro, mas não há lá ninguém para as corrigir. Mas é só isso, pergunta o leitor benévolo? Então leia esta frase do mesmo editorial: «Verificaria que a sua sombria previsão sobre os efeitos nulos, ou mesmo negativos, das políticas relativas ao mundo rural dos burocratas de Bruxelas não resolveriam nunca os problemas destes lugares e destas gentes perdidas.» O que acha?

Híper/híperes

Finalmente!

      «Sonae cria sacos amigos do ambiente para híperes» (Meia Hora, 14.4.2008, p. 12). Já aqui abordei, uma vez, esta questão. Há, parece, alguma evolução. O itálico ou as aspas já não são sempre usados e, alteração maior, passaram a acentuá-la graficamente, assumindo-a, e bem, como palavra plena: híper/híperes. De maneira geral, é nos jornais gratuitos que se escreve assim. Como palavra paroxítona que é, terminada em er, é acentuada para não se ler como oxítona.

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