Supressão do «que» no conjuntivo

A l’usage des Français

Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.) Até franceses mortos há mais de 150 anos sabiam que estava correcta! Não estou a fazer espírito. Veja o que escreveu Francisco Solano Constâncio na Nouvelle Grammaire Portugaise, datada de 1832: «On supprime souvent en portugais le que conjonctif dans les temps du subjontif: Ex.: peço me seja concedida licença, je demande qu’il me soit accordé la permission» (p. 206).

Olivença e o «chaporreo»

Imagem: http://olivenca.blogspot.com/

Olivença é nossa


Com uma persistência notável, há já longos anos que o professor Carlos Luna, de Estremoz, vem alertando, nos meios de comunicação social, para a questão de Olivença, e em especial para a língua portuguesa, que ainda se fala neste pedaço de território de que fomos desapossados pelos Espanhóis. Embora eu não acredite que haja um português que desconheça a situação (mas também não acreditava que sequer um internauta ignorasse a existência de blogues, e eis que veio a saber-se que assim é com a maioria), deixo aqui um desses últimos alertas. «Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola (1801), o Português foi proibido em Olivença. Todavia, ele foi sobrevivendo, numa deliciosa toada alentejana, que logo as autoridades, vigilantes, classificaram como chaporreo. Mesmo com esses condicionalismos, depois de 200 anos de pressão, ela é entendida e falada por cerca de 35 % da população, segundo cálculos da União Europeia. É preciso dizer claramente que o Português é imprescindível para que as novas gerações compreendam o que as gerações anteriores quiseram transmitir» («Língua de Olivença», Carlos Cruz Luna, Global, 15.4.2008, p. 2)

Todos-os-Santos ou Todos os Santos?

Depende, não é?

«Com conclusão prevista para 2012, o novo Hospital de Todos-os-Santos (HTS) irá servir cerca de um milhão de pessoas, com uma área de influência de Lisboa e Vale do Tejo até ao Algarve» («Lançado concurso para Hospital de Todos-os-Santos», Bruno Nunes, Público, 15.4.2008, p. 12). «O primeiro-ministro disse ontem esperar que o novo Hospital de Todos os Santos dê um contributo decisivo para o desenvolvimento da investigação em ciências médicas» («Sócrates orgulhoso com Hospital Todos os Santos», Meia Hora, 15.4.2008, p. 6).
Afinal, pergunta o leitor, como se escreve: com hífenes ou sem hífenes? E, já agora, acrescenta o mesmo leitor, como será na vigência do Acordo Ortográfico de 1990?
Para começar, como é agora. Como topónimo, os elementos são ligados por hífenes. Excepcionalmente, cito um excerto do meu Manual de Edição e Revisão de Texto, inédito: «Levam hífen os topónimos compostos quando: 1.º Dois elementos se ligam com artigo definido: A Ver-o-Mar, Condeixa-a-Nova, Entre Ambos-os-Rios, Entre-as-Águas, Todos-os-Santos.» É o caso em apreço. Já o nome da festividade, dia de Todos os Santos, se grafa sem hífenes.
Como será na vigência do Acordo Ortográfico de 1990. Na Base XV, 2.º, pode ler-se: «Emprega-se o hífen nos topónimos/topônimos compostos, iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes.» Por seu lado, a Base XIX, 2.º e), determina que a inicial maiúscula é usada: «Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.»
Vasco Graça Moura clama que é uma incoerência. D’Silvas Filho começa por argumentar inteligentemente que são coisas diferentes, mas depois amocha. Que sim, admite, é uma incoerência, como as há na actual norma. D’Silvas Filho tem razão: são coisas diferentes, e, como tal, se não devem, podem obedecer a uma regra diferente. Eu podia citar incontáveis exemplos, mas não me apetece.

Símbolos das unidades físicas

Amadores

A língua, um organismo vivo, evolui, sabemo-lo. Como somos conservadores, porém, não queríamos que fosse debaixo do nosso nariz. Num espaço de cinquenta anos, nada de muito significativo deve acontecer, e sabê-lo tranquiliza-nos. Ainda assim, pequenas, pequeníssimas, alterações, se devidas à ignorância dos falantes, devem ser combatidas. Na edição de ontem do Meia Hora, num artigo sobre a pesca do bacalhau, uma pagela dizia «8 ton.». Noutro artigo, o título era: «Cada luso usa 40 lt de água potável em autoclismos». Ora, os redactores e a revisora têm obrigação de saber que os símbolos das unidades físicas se escrevem sempre sem ponto. No caso, o símbolo de tonelada é t e o de litro é l ou L.

Revisores ambulantes


À americana

      Dois americanos, Jeff Deck e Benjamin Herson, estão a percorrer os Estados Unidos em busca de erros gramaticais, ortográficos e outros. Sim, os apóstrofos estão debaixo de olho. No Nissan Sentra em que viajam, levam um estojo (o seu “typo correction kit”): marcadores, giz, canetas, lápis e corrector Wite-Out. Jeff Deck, o mais mediático, descreve-se como um «grammar vigilante». Fazem ambos parte de uma estrutura maior, a TEAL (Typo Eradication Advancement League). Não sei como conseguem financiar o périplo, tirando a venda de T-shirts, mas estamos a falar da América, claro. A cobertura que os meios de comunicação têm feito do trabalho da TEAL tem sido amplíssima, como se pode ver aqui.

Acordo Ortográfico

Outros retoques


      Há muitos anos que leio a imprensa regional. Por vezes, leio o Diário do Minho. Na edição de quinta-feira passada, dia 9, a surpresa foi ler na crónica de Rita Cunha, intitulada «(Des)acordo ortográfico» (p. 2), a seguinte pergunta: «Por que teremos de ser nós, portugueses, a adaptar a nossa língua ao português do Brasil, quando nós é que usamos a verdadeira Língua Portuguesa?» Eu podia começar por perguntar se acha que a «verdadeira Língua Portuguesa» inicia assim as interrogativas, mas não o faço. Pergunto antes o que a leva a pensar e a escrever que somos os únicos donos da língua. Tanto quanto sei, a língua é de todos os falantes. A autora conclui admitindo que não é contra alguns «retoques» na língua portuguesa, mas não os do Acordo Ortográfico de 1990. Já vi por aí este argumento cosmético, sempre desacompanhado de programa, para podermos avaliar.

Acordo Ortográfico

Nada mudou

Rui Tavares vem hoje lembrar, com a sua habitual lucidez, na sua crónica no Público, outra tentativa de reforma ortográfica: «Na década de 1770, o Marquês de Pombal pediu aos censores do rei que tomassem uma decisão entre as várias propostas de ortografia que então surgiam — a de Luís António Verney, a de António José dos Reis Lobato e a de João Pinheiro Freire da Cunha, entre outras — para que a coroa a pudesse utilizar nos seus documentos oficiais. Depois de dois anos em discussão, os censores discordavam de quase tudo e baixaram os braços. Havia apenas uma decisão tomada: uma vez que a letra y não tem, em português, uma pronúncia diferente da letra i, poderia com vantagem ser abolida. Até que alguém se lembrou: não podemos! Não podemos, porque el-rey se escreve com ípsilon... e sua majestade “assim escreve na sua real firma”. […] A obsessão com o que não se pode fazer, em Portugal em geral e em particular, ganha sempre à ideia do que se pode fazer» («O y do rey», Público, 14.4.2008, p. 42). Vale a pena ler toda a crónica.

Silabadas

Não é grave…

… é esdrúxula. O radialista António Macedo, da Antena 1, tem uma voz poderosa, cheia, grave. Indesmentível. Contudo, talvez a facilidade contribua fortemente para as frequentes silabadas em que vai caindo. A palavra «África», por exemplo, nunca sai lá muito escorreita. E todos os dias a profere. Ontem, na Festa da Voz, ao conversar com Nicolau Breyner, avançou ostensivamente a tónica da palavra «estereótipos» para a sílaba ti. Há quem diga que este é um fenómeno linguístico que se vem impondo há algum tempo. Pois é. Então, pergunto eu, como é que essas pessoas escrevem o vocábulo? «Estereotipo», acaso?

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