Topónimos

Colonos em Trás-os-Montes

      É interessante o que o Global hoje publica sobre a colonização interna na década de 1950. Ficamos a saber, entre outras coisas, que este movimento veio a dar nome a algumas localidades.
«Nos anos 50 do século passado, enquanto milhares de portugueses optavam pela emigração várias famílias aceitaram o desafio de colonizar as zonas mais desérticas do Portugal continental. Salazar mandou preparar, por intermédio da Junta de Colonização Interna, terrenos para 160 colonos que ocuparam 4355 hectares de terrenos baldios. O plano de acção da junta, que foi apresentado em 1937, tinha como objectivo o desenvolvimento da actividade agrícola nos distritos de Portugal com mais área de baldios.
      Segundo o professor catedrático Eugénio de Castro Caldas, em A Agricultura na História de Portugal, foram instalados 24 colonos no Alvão (Vila Pouca de Aguiar), 57 nos baldios de Boticas e Montalegre, 12 nos Milagres (Leiria), 36 na Colónia de Martin Rei (Sabugal), 10 na Boalhosa (Paredes de Coura) e 22 na Gafanha (Ílhavo). […] Na zona do Alvão foi incrementado o cultivo da batata entre os colonos, os quais viriam a dar nome às localidades onde foram instalados. Em Vila Pouca de Aguiar contam-se os Colonos de Soutelo, Colonos de Baixo ou Colonos do Campo de Viação» («Jovens agricultores foram colonos há meio século», Paula Lima, Global, 24.3.2008, p. 11).

Iliteracia

Ropa muy ponible



      Loja Gerard Darel, Rua Castilho. O programa Caras Notícias mostrou-nos a fina-flor, ou quem pretende alcandorar-se a tal, a escolher algumas peças de vestuário e adereços. Algumas têm a sorte de ser a marca a emprestar-lhes as peças. Como é o caso de Isabel Palmela, que, entrevistada, afirmou que a roupa da marca é muito «ponível e bonita». Está muito bem: faltava a palavra adequada, Isabel Palmela foi buscá-la ao espanhol e adaptou-a.
      Em contrapartida, durante o programa ficámos a saber que o nome da filha da actriz Halle Berry é Nahla Ariela Aubry, que na «língua muçulmana» significa «abelha que faz mel». Os responsáveis do programa deviam reflectir uns segundos antes de dizerem tais disparates. Está-se mesmo a ver: leram ou ouviram que «it’s a Muslim name that means»…

Acordo Ortográfico

O xibolete

O escritor e professor brasileiro Deonísio da Silva tem hoje no Jornal do Brasil uma crónica («O xibolete do português», 23.3.2008, p. A11) em que defende — em menos de meia dúzia de palavras — o Acordo Ortográfico. Pelo meio, lembra a história do xibolete. Conhecem? Vem no Livro dos Juízes. A tribo de Galaad estava em guerra com a de Efraim. A senha para identificar os efraimitas fugitivos era a palavra shibolet, «espiga». Os efraiditas, porém, pronunciavam uma variante dialectal da palavra, diferente no fonema inicial, sibolet, porque eram incapazes de pronunciar correctamente. Eram então presos e mais tarde degolados nos vaus do Jordão. E assim morreram, nesse dia, quarenta e dois mil homens de Efraim.
Deonísio da Silva afirma depois que o xibolete da língua portuguesa é o ditongo ão. Mas, neste caso, não de alguns falantes do português, mas de todos. Só funciona em relação aos estrangeiros, e por isso lembra mais uma história: «O poeta Mário Quintana, percebendo os atrapalhos de Sua Santidade para pronunciar o ditongo “ão”, escreveu ao Papa: “Sendo Vossa Santidade um poliglota notável, vejo que não consegue pronunciar o famoso ão da língua portuguesa. E tomo a liberdade de esclarecê-lo sobre esta pronúncia. Considere o ão como dois monossílabos, ã mais o, e tente pronunciá-los cada vez mais rapidamente. Assim obterá o nosso ão. Esperando sua bênção, respeitosamente. Mário Quintana.”»
Para concluir: «De todo modo, com a iminente vigência do acordo ortográfico, virão à tona xiboletes diversos, tantas são as sutis complexidades das diferenças com a língua portuguesa falada no Brasil, em Portugal, na África, e na Ásia. Camões já vaticinara: “Na quarta parte nova os campos ara/ E se mais mundo houvera, lá chegara.” Mas dos cerca de 300 milhões de falantes do português, dois terços deles vivem e falam no Brasil! Ocorre, porém, que os xiboletes são da fala. Na escrita, a unificação vem em boa hora.»

Iliteracia

D. Pedro, o Capacidónio

É muito engraçado — e muito revelador do que era a monarquia portuguesa — o que escreve João Ferreira sobre D. Pedro III (1717-1786). «A aristocracia era encabeçada pelo marido (e tio) da rainha, D. Pedro III, irmão de D. José. À falta de atractivos físicos aliava o rei consorte a pouca inteligência. Na corte puseram-lhe a alcunha de “capacidónio”: era uma das suas palavras preferidas e com ela se referia às pessoas a quem tencionava atribuir um cargo, depois de ter apanhado de ouvido que alguém era “capaz e idóneo” para determinado emprego…» («A rainha louca», João Ferreira, Notícias Sábado, 15.3.2008, p. 92).

Semântica: «matraca»

Matraca da Semana Santa: http://sarrabal.blogs.sapo.pt/

Santo matraquear


Um leitor brasileiro, Mário, pergunta-me a origem da palavra «matraca». E, para não haver equívocos, acrescenta: «Aquele instrumento barulhento que, na Semana Santa, se usa nas procissões?» Na verdade, seja qual for a acepção, o étimo é o mesmo: o árabe hispânico maṭráqa, e este do árabe clássico miṭraqah, «martelo». Na definição do Dicionário Houaiss: «peça de madeira com uma plaqueta ou argola que se agita barulhentamente em torno de um eixo, usada especialmente como instrumento litúrgico em substituição da sineta durante a quinta-feira e sexta-feira da Semana Santa». A definição do DRAE é menos politicamente correcta: «Instrumento de madera compuesto de un tablero y una o más aldabas o mazos, que, al sacudirlo, produce ruido desapacible.» Tão desagradável — simboliza os trovões que ensurdeceram o povo de Jerusalém após a morte de Jesus Cristo* —, na verdade, que «matraca» passou também a significar a pessoa tagarela que nos mói o juízo. Também chamada matraca-da-quaresma. Matraquear, matracolejar e afins, todos reforçam a justeza da definição espanhola.


* No Evangelho segundo São Lucas (23,44-45), lê-se: «Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde.
O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio.»

Glossário: golfe

Buracos



      Recentemente, saiu na revista Notícias Sábado um artigo («O puto maravilha», Tiago Salazar, NS, 15.03.2008, pp. 78-82) sobre o golfe com um pequeno glossário final. Embora tenha poucos termos, e nem sequer os mais conhecidos, tem a vantagem de estar mais bem escrito do que a generalidade dos glossários semelhantes que se encontram na Internet.

«Birdie — Quando o jogador termina um buraco com menos uma pancada do que o par respectivo (exemplo: jogador faz 3 pancadas num par 4).
Bunker — Obstáculo também conhecido por poço de areia.
Caddie — O carregador dos tacos e muitas vezes conselheiro do jogador em momentos cruciais.
Fairway — Zona de relva cortada entre o tee e o green e que é considerada zona jogável.
Green — Onde está o buraco e a bandeirola que o distingue à distância. A relva do green é mais aparada do que a restante e é nele(s) que se decidem as partidas de golfe.
Par — Número predeterminado de pancadas em que o jogador deve alcançar um buraco.
Pró — Profissional de golfe.
Putt — O taco que se utiliza no green e que tem zero graus de inclinação. Segundo as regras, cada jogador pode levar até 14 tacos no saco. Cada taco tem um loft ou grau de inclinação que varia, em média, entre os 0 graus do putt e os 60 graus do sand wedge (o taco usado particularmente no bunker ou nas pancadas de aproximação).
Swing — Movimento.
Tee — Pode ser o adereço onde se coloca a bola para a primeira pancada em cada um dos 18 buracos ou o torrão de relva onde começa cada buraco.»

Léxico contrastivo: «dezembro»

Assim o provo

«O Distrito Federal entrou na disputa para sediar a II Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Além de Brasília, Uberlândia também está na disputa. A cidade mineira foi visitada no começo do mês por membros da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que estudaram a acessibilidade e a capacidade da cidade de receber os participantes da conferência, que acontece em dezembro» («Brasília quer sediar encontro nacional», Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. R3). Havia muito para dizer sobre este parágrafo, mas o pretexto é para falar da inicial minúscula no nome dos meses. Antecipando-se ao Acordo Ortográfico, que enquanto não entrar em vigor é somente eventual, alguma imprensa portuguesa, descuidada, laxista, já escreve o nome dos meses com minúscula inicial. E não se envergonham. Nem os revisores que lá estão a fingir que revêem. Pois, só com o novo Acordo Ortográfico é que isso vai ser legítimo. Estabelece a Base XIX, n.º 1, al. b): «[A letra minúscula inicial é usada] Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera».
Quanto a sediar. Prefiro, para significar «ter sede em», a forma «sediado», que importámos do Brasil. A letra i, não há que estranhá-la: é uma vogal de ligação. Independentemente de gostos e teorias, a imprensa vai preferindo também usar esta grafia. No CETEMPúblico, por exemplo, encontramos 2182 ocorrências de «sediado» (e a forma feminina, «sediada») e somente 68 de «sedeado» (e a forma feminina, «sedeada»).

«A iniciativa será extensível a Guimarães, o outro pólo da Universidade do Minho, sediada em Braga» («Universidade distribui bicicletas», Global, 18.1.2008, p. 3).

«Mas há ainda quem o conheça como “o Melim dos Automóveis Clássicos”, clube sediado na região» («O maior coleccionador de postais da Madeira», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 8).

«Os serviços de mediação dependentes do Ministério da Justiça funcionam nos Julgados de Paz e em instalações cedidas pelos municípios. O IMAP está sediado em Lisboa, na Rua sidónio Pais, 20 r/c Esq.» («Como se pode recorrer aos serviços?», Isabel Stilwell, Destak, 20.2.2008, p. 4).

«A actividade dupla de Manuel (nome fictício), 41 anos, foi finalmente interrompida no passado sábado pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária (PJ), no decurso de uma investigação após a ocorrência de um assalto a uma agência bancária, sediada em Picoto, Santa Maria da Feira» («Vendia artesanato e assaltava bancos», André Barbosa, Metro, 19.2.2008, p. 4).

«A Hovione, empresa química sediada em Loures, adquiriu 75% de uma fábrica chinesa do sector químico e farmacêutico com 181 trabalhadores» («Hovione compra indústria química na China», Global, 28.2.2008, p. 8).

«Católicos de rito oriental, os caldeus — cerca de 550 mil — constituem a principal comunidade cristã do país [Iraque] que, no total, tem 700 mil cristãos. É também uma das mais antigas igrejas cristãs. O seu principal líder espiritual é o Patriarca Emmanuel III, que está sediado em Bagdad» («Papa e EUA condenam morte do arcebispo caldeu de Mossul», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 33).

«10 ME. Valor que a companhia sediada em Braga espera atingir com os negócios durante este ano» («Aeronorte compra dois aviões por 30 ME», Meia Hora, 18.3.2008, p. 9).


«Os resultados da BMW-Sauber — cujo outro piloto, Nick Heidfeld, partilha o segundo lugar do Mundial com Kimi Raikkonen, a três pontos de Hamilton — reabre a discussão sobre a possibilidade de a equipa sediada na Suíça se intrometer na luta entre Ferrari e McLaren» («O novo e magro Kubica sai da pole position, uma estreia do piloto polaco e da BMW», Hugo Daniel Sousa, Público, 6.4.2008, p. 32).

«Como explica Jim Weill, presidente do Food Research and Action Center, uma organização de combate à fome sediada em Washington, esta “avalanche” de pedidos de apoio alimentar explica-se pelo aumento do desemprego e crescente precariedade laboral, e ainda pela inflação dos preços dos combustíveis e do cabaz alimentar mais básico» («Americanos dependentes da ajuda alimentar à beira de recorde histórico», Rita Siza, Público, 6.4.2008, p. 42).

«E já vão três, em apenas uma semana. Depois da Ata Airlines e da Aloha Airlines (esta sediada no Havai), ontem foi a vez de a low-cost americana Skybus Airlines ter anunciado que iria terminar as suas operações. A culpa, dizem todas, é do aumento dos combustíveis» («Aumento dos combustíveis obriga a fecho de low-cost», Público, 6.4.2008, p. 43).


Léxico contrastivo: «pidão»

Pides e pidões


      «Ágeis, travessos e com cara de pidões, os micos viraram febre na cidade. Basta estar próximo a um aglomerado de árvores que rapidamente é possível escutar os assobios dos primatas. Mas, apesar do jeitinho doce, que rouba sorrisos e afeto de crianças e adultos, os animais estão deixando especialistas da área preocupados. O Rio testemunha uma proliferação desses macaquinhos e o desequilíbrio ambiental já é uma realidade na cidade» («Micos, a diversão que está virando problema», Janaína Linhares, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. A15). Quanto a micos, deixei que os leitores percebessem o que é — mas pidões? Mais: «com cara de pidões»? Na rua dos meus pais morava um pide, um agente da PIDE. Por muito que me custe admiti-lo, não tinha uma cara patibular, antes uma cara aparvalhada. Dizia-se que, além do que se lhe pedia, uns tabefes, umas torturas, também tinha violado uma rapariga quando estava de serviço num posto fronteiriço. Teve de fugir no 25 de Abril, mas uns tempos depois já tinha um emprego. Um prémio pelo zelo. Mas sim, não me esqueço: pidão. É aquele que pede muito.

Arquivo do blogue