Acordo Ortográfico

É um argumento

«O ministro da Cultura disse ontem que o Acordo Ortográfico é uma “necessidade para a expansão da língua Portuguesa”, sustentando no Parlamento que as reformas anteriores “não destruíram a criatividade e a liberdade de escrita”. José António Pinto Ribeiro respondia a perguntas dos deputados da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa alcançado em 1991 e ratificado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé» («‘É uma necessidade para a expansão da língua Portuguesa’», Global/JN, 20.3.2008, p. 6).

«Soundbite»

Língua mordida


      É quase uma praga. Toda a gente agora quer usar a palavra soundbite numa frase qualquer. «São famosas as metáforas de Lula da Silva. Frases jocosas, lapsos, gafes. Ou simplesmente metáforas. Desde a celebérrima “só nos falta encontrar o ‘ponto G’ da discussão” até ao “estuda, meu filho, se não ainda vai virar Presidente”, Lula demonstra ter tendência para o sound byte, conscientemente ou não» («Aforismos», Nuno Amaral, Sexta, 14.3.2008, p. 11). Mas — pergunto-me e pergunto aos leitores — isso não é, ao mesmo tempo, uma mordidela no inglês e no português? É que nos dicionários de língua inglesa só vejo registado, como substantivo, «sound bite» ou «soundbite». Luís Paixão Martins, no seu blogue Lugares Comuns, define-a: «Chamei “mordidelas silenciosas” à secção de citações deste blogue em jeito de trocadilho com a palavra “soundbite”. Como o blogue é por natureza silencioso, aqui os “bites” não produzem som. “Soundbite” é uma palavra relativamente antiga que tem a ver com a rádio. Quer dizer, literalmente, mordidela (ou dentada) sonora e designa uma frase curta e com impacto retirada do contexto. “Houston, we have a problem”, da missão Apolo XIII, é um “soundbite” ainda hoje frequentemente repetido. No mundo actual, quase tudo anda à volta dos bits e dos bytes, mas “soundbite” não…»
      No portal da American Bar Association (que vale a pena explorar, sobretudo nesta secção), encontro esta definição: «Soundbite: A short but complete and emphatic statement that is most likely to be incorporated into a news broadcast.»

Ortografia: «Lhasa» ou «Lassa»?

Costumes lassos

A capital do Tibete é Lhasa ou Lassa? E o que estabelece o novo Acordo Ortográfico sobre a matéria? Ambas as formas se podem encontrar na imprensa portuguesa. Dois exemplos: «Perante estas declarações, o primeiro-ministro chinês não só acusou o Nobel da Paz de potenciar os confrontos em Lhasa, como ainda referiu que o propósito seria “evitar a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim”» («Dalai Lama pode abdicar contra violência no Tibete», Margarida Caseiro, Meia Hora, 18.3.2008, p. 6). «Há quase duas décadas que Lassa, a capital do Tibete, não assistia a protestos com a dimensão dos verificados esta semana» («Protestos antichineses põem Lassa a ferro e fogo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 15.3.2008, p. 15).
Por uma vez, a redacção é inteligente: «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente» (artigo 6.º da Base I). Abre-se a porta não apenas à tradição (e nem toda a tradição, lembrem-se, é respeitável), mas à adaptação consensualmente aceite. Assim, a tradição pode começar todos os dias. Prefiro a grafia Lassa.

Actualização em 28.3.2008

No Jornal de Notícias grafa-se, respeitando a ortografia vigente, como está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, Lassa: «Os jornalistas estrangeiros escoltados pelo Governo chinês até Lassa descreveram a capital tibetana como uma cidade tensa, marcada pela violência e onde ainda cheira a fumo quase duas semanas depois dos primeiros protestos anti-China» («Duas semanas depois a capital do Tibete ainda cheira a fumo», Global/Jornal de Notícias, 28.3.2008, p. 11).

«Cava»?

Cella vinaria, com dolia enterrados: http://www.culturacampania.rai.it/

Antes cova

Tirando a de Viriato, a veia, a que se faz com uma enxada e pouco mais, para que precisamos nós da palavra «cava»? Para nada, parece-me. Fora disto, é como espanholismo que a usamos. «Portugal consumiu, em 2005, 800 mil garrafas de cava, o vinho espumante produzido, principalmente na região espanhola da Catalunha, o que representa um crescimento de 35 % face ao ano anterior» («Um espumante que quer ser conhecido», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 10.6.2006). Isto para dizer que underground cold-store se traduz por «cave» e não por «cava». O espanhol cava vem do latim cava, «cova», «fossa», e, para aquilo que aqui interessa, é, «en palacio, dependencia donde se cuidaba del agua y del vino que bebían las personas reales». Macacos me mordam se isso não é uma adega ou cave. Tanto mais que esse underground cold-store não serve para armazenar vinho, mas outras provisões. Já a 1.ª edição do Dicionário da Academia Francesa, de 1694, definia assim o vocábulo «cave»: «Lieu creux & soûterrain pour mettre du vin & autres provisions.» Para armazenar vinho, era a cella vinaria ou cauea vinaria dos Romanos.

Iliteracia

Acordo? Mas qual acordo?

Hospital Inglês, Campo de Ourique.
Uma recepcionista jovem atende uma chamada. Alguém a marcar uma consulta.
— Sim… Fale devagar…
Do outro lado da linha, soletram um nome.
— Esse, esse, hífen…
Perpassa-lhe uma sombra de dúvida pelo rosto. Pergunta à colega do lado:
— Hífen é ípsilon, não é?...
A colega não tem a certeza, vê-se, mas arrisca:
— É.
Quase em simultâneo, desinstalo-me do meu conforto e digo:
— Não é. É o tracinho, lembra-se?

Tradução: «ticket»

Sim, porquê?

«O candidato esperava ainda que a vitória pusesse definitivamente fim às especulações de que estaria disposto a aceitar a proposta da sua adversária, que nos últimos dias tem repetido a ideia de os dois concorrentes seriam imbatíveis se unissem os seus esforços num único ticket — com o nome de Hillary à frente» («Obama em busca do momentum perdido», Rita Siza, Público, 12.3.2008, p. 19). Por muito diferente que seja de uma lista eleitoral europeia, e especificamente portuguesa, não sei porque se tem de deixar por traduzir o termo ticket.

Léxico contrastivo: «Bagdá»

A terceira via

      «Enquanto o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, o senador John McCain, chegou a Bagdá em uma visita surpresa, contagens finais de Iowa e Califórnia mostram que o senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama, expandiu sua frágil vantagem sobre a rival e senadora pelo Estado de Nova York, Hillary Clinton, em número de delegados que determinarão quem irá receber a nomeação pelo lado democrata» («McCain faz visita surpresa a Bagdá», Jornal do Brasil, 17.3.2008, p. A21). A esmagadora maioria das vezes, preferimos, na escrita, a forma «Bagdad», mas como a pronunciamos? Na verdade, como se estivesse escrito «Bagdá», pois sabemos que uma consoante final pode ser muda, como é o caso — ou sabíamos, porque nos dias que correm a oralidade é completamente descurada no ensino da língua portuguesa. Contudo, talvez fosse de considerar esta terceira via*. Para as novas gerações, que começam agora a aprender a língua, seria a grafia mais lógica.

* Neste aspecto, nada mudará com o novo Acordo Ortográfico. De facto, lê-se no artigo 5.º da Base I: «As consoantes finais grafadas b, c, d, g, e t mantêm-se, quer sejam mudas quer proferidas nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac, David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valladolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. Nada impede, entretanto, que os antropó[ô]nimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.»

Pronúncia: «sofá»


Não digam

Mais uma coisa irritante, só uma? Repoltreado no sofá (espero que não se importem que não seja numa poltrona), ocorre-me uma. Que alguém pronuncie a palavra «sofá» com o aberto. Só à estalada. Claro que quem diz /sófá/ também diz /drógado/. E está tudo dito.

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