«Cava»?

Cella vinaria, com dolia enterrados: http://www.culturacampania.rai.it/

Antes cova

Tirando a de Viriato, a veia, a que se faz com uma enxada e pouco mais, para que precisamos nós da palavra «cava»? Para nada, parece-me. Fora disto, é como espanholismo que a usamos. «Portugal consumiu, em 2005, 800 mil garrafas de cava, o vinho espumante produzido, principalmente na região espanhola da Catalunha, o que representa um crescimento de 35 % face ao ano anterior» («Um espumante que quer ser conhecido», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 10.6.2006). Isto para dizer que underground cold-store se traduz por «cave» e não por «cava». O espanhol cava vem do latim cava, «cova», «fossa», e, para aquilo que aqui interessa, é, «en palacio, dependencia donde se cuidaba del agua y del vino que bebían las personas reales». Macacos me mordam se isso não é uma adega ou cave. Tanto mais que esse underground cold-store não serve para armazenar vinho, mas outras provisões. Já a 1.ª edição do Dicionário da Academia Francesa, de 1694, definia assim o vocábulo «cave»: «Lieu creux & soûterrain pour mettre du vin & autres provisions.» Para armazenar vinho, era a cella vinaria ou cauea vinaria dos Romanos.

Iliteracia

Acordo? Mas qual acordo?

Hospital Inglês, Campo de Ourique.
Uma recepcionista jovem atende uma chamada. Alguém a marcar uma consulta.
— Sim… Fale devagar…
Do outro lado da linha, soletram um nome.
— Esse, esse, hífen…
Perpassa-lhe uma sombra de dúvida pelo rosto. Pergunta à colega do lado:
— Hífen é ípsilon, não é?...
A colega não tem a certeza, vê-se, mas arrisca:
— É.
Quase em simultâneo, desinstalo-me do meu conforto e digo:
— Não é. É o tracinho, lembra-se?

Tradução: «ticket»

Sim, porquê?

«O candidato esperava ainda que a vitória pusesse definitivamente fim às especulações de que estaria disposto a aceitar a proposta da sua adversária, que nos últimos dias tem repetido a ideia de os dois concorrentes seriam imbatíveis se unissem os seus esforços num único ticket — com o nome de Hillary à frente» («Obama em busca do momentum perdido», Rita Siza, Público, 12.3.2008, p. 19). Por muito diferente que seja de uma lista eleitoral europeia, e especificamente portuguesa, não sei porque se tem de deixar por traduzir o termo ticket.

Léxico contrastivo: «Bagdá»

A terceira via

      «Enquanto o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, o senador John McCain, chegou a Bagdá em uma visita surpresa, contagens finais de Iowa e Califórnia mostram que o senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama, expandiu sua frágil vantagem sobre a rival e senadora pelo Estado de Nova York, Hillary Clinton, em número de delegados que determinarão quem irá receber a nomeação pelo lado democrata» («McCain faz visita surpresa a Bagdá», Jornal do Brasil, 17.3.2008, p. A21). A esmagadora maioria das vezes, preferimos, na escrita, a forma «Bagdad», mas como a pronunciamos? Na verdade, como se estivesse escrito «Bagdá», pois sabemos que uma consoante final pode ser muda, como é o caso — ou sabíamos, porque nos dias que correm a oralidade é completamente descurada no ensino da língua portuguesa. Contudo, talvez fosse de considerar esta terceira via*. Para as novas gerações, que começam agora a aprender a língua, seria a grafia mais lógica.

* Neste aspecto, nada mudará com o novo Acordo Ortográfico. De facto, lê-se no artigo 5.º da Base I: «As consoantes finais grafadas b, c, d, g, e t mantêm-se, quer sejam mudas quer proferidas nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac, David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valladolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. Nada impede, entretanto, que os antropó[ô]nimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.»

Pronúncia: «sofá»


Não digam

Mais uma coisa irritante, só uma? Repoltreado no sofá (espero que não se importem que não seja numa poltrona), ocorre-me uma. Que alguém pronuncie a palavra «sofá» com o aberto. Só à estalada. Claro que quem diz /sófá/ também diz /drógado/. E está tudo dito.

Léxico contrastivo: «pego»

Escusado será dizer

Como 50 % dos meus leitores são brasileiros, só me fica bem dedicar-me mais à língua portuguesa falada do outro lado do Atlântico. Escusado será dizer — mas Vasco Graça Moura, encarniçado opositor do Acordo Ortográfico, julga-se forçado a dizê-lo, como ainda ontem à noite, no programa Diga Lá, Excelência, na RTP2 — que o Acordo Ortográfico não vai uniformizar particulares formas de dizer, sintaxe, léxico e pronúncia diferentes. Nem podia. Ainda hoje, ao ler um artigo no Jornal do Brasil, topei, mais uma vez, com o estranhíssimo particípio «pego», repudiado pelos próprios académicos brasileiros. E, no entanto, nem os académicos ignoram que a língua segue o seu próprio caminho, alheia às vontades individuais de seres tão efémeros como nós. O texto era, concretamente, uma tradução deste outro publicado no The New York Times: «Mr. Zammer is caught up in a Congressional standoff over immigration overhaul that is punishing employers who play by the rules and that, advocates of change say, could cost small companies billions in lost business» («Businesses Face Cut in Immigrant Work Force», Katie Zezima, 14.3.2008). E a tradução, impensável para um português, saiu assim: «Zammer foi pego por um impasse no Congresso com relação à reforma das leis de imigração, o que está punindo empregadores que seguem as regras e poderá custar às pequenas empresas bilhões em negócios perdidos» («Falta força de trabalho imigrante», Jornal do Brasil, 16.3.2008, p. A27). É caso para dizer que se trata de um particípio duplamente irregular… Por exemplo, como se pronuncia aquele e? É aberto ou fechado? Em que autores respeitáveis abonam o seu uso? Qual é o problema do particípio regular do mesmo verbo, na verdade o único, pois que não se trata de um verbo abundante? Pois é.

Gentílicos

Mais simples

Por estes dias, os jornais brasileiros não deixam de realçar que foi uma capixaba que ajudou a derrubar o hipócrita governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer. Ah, pois, vejo os leitores portugueses a abanarem a cabeça e a perguntarem que raio é uma capixaba. É a pessoa nascida ou que vive no Estado brasileiro de Espírito Santo, no Brasil. O étimo é tupi. Também se pode dizer, naturalmente, espírito-santense.
E já que falamos de gentílicos, a propósito da ascensão de David A. Paterson, lia-se no The New York Times: «Many said they felt pride not only that a Harlemite had been thrust into the role of incoming governor, but that they had lived to see a black New Yorker as the state’s chief executive.» O Jornal do Brasil publicou este artigo — «In Harlem, Delight Over a Favorite Son’s Rise to Governor» —, da autoria de Jonathan P. Hicks, e tratou assim o gentílico: «Muitos disseram que sentem orgulho não só porque uma cria do Harlem assumiu o papel de governador, mas porque viveram para ver um nova-iorquino negro como chefe do governo de Nova York.» Em contrapartida, pelo menos num jornal espanhol vi o gentílico adaptado para «harlemita».

Léxico: «corta-vento» I

Onde está?

      «Pesa apenas 75 gramas o casaco corta-vento mais leve do mundo, lançado pela Montane, uma marca de equipamento de montanha e BTT, com produtos desenhados especificamente para quem procura as melhores performances» («Casaco mais leve do mundo», Metro, 14.3.2008, p. 12). Não vejo o vocábulo, ou pelo menos esta acepção, em nenhum dicionário de língua portuguesa. E, no entanto, é diariamente usado. Traduz na perfeição o termo inglês windcheater.

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