Léxico: «carjacker»

Fatal

Tinha de ser. Depois de carjacking, os jornais tinham de começar a usar o substantivo carjacker. «Um dos autores do roubo por “carjacking” no Estoril, e de um outro assalto em Lisboa, foi ouvido ontem no Tribunal de Cascais e levado para o Estabelecimento Prisional de Caxias» («“Carjacker” do Estoril foi preso», Metro, 14.3.2008, p. 2).

Léxico: «lofoscopia»

CSI


      Como não é todos os dias que a palavra surge, será bom dar conta do seu uso na imprensa. «Sem perder tempo, a PJ manda logo um perito para o local, encarregue de fazer o exame de lofoscopia do automóvel (recolha de impressões digitais)» («PJ e PSP fazem tudo para apanhar assassino», Rute Coelho, Global/24 Horas, 12.3.2008, p. 11). Na verdade, no local os técnicos de lofoscopia só fazem isso, mas há depois a parte laboratorial. Assim, a lofoscopia é a recolha e a análise de impressões digitais.
      Na edição n.º 554, de Agosto-Setembro de 2006, do Jornal do Exército, lê-se: «Tal como no antecedente, a PJM [Polícia Judiciária Militar] tem, nas suas instalações, as áreas técnicas de Lofoscopia (conjunto de técnicas que visam identificar indivíduos através das impressões das pontas dos dedos, palmas da mão, plantas dos pés, vestígios corporais, vestuário) e de Informática Forense» (p. 7).
      Lofoscopia é o termo mais geral. Se a análise for da ponta dos dedos, designa-se dactiloscopia; se for das palmas das mãos, é a quiroscopia; se for das plantas dos pés, é a palmatoscopia.

Tradução: «separator»

Imagem: http://bmfunchal.blogs.sapo.pt/
Anúncio do Diário da Madeira de 8 de Março de 1925

Separador?

Caro A. M. L.: pelo contexto, parece tratar-se de uma desnatadeira, que é uma máquina para separar (daí o nome em inglês) a matéria gorda do leite, isto é, a manteiga. O creme que fica é depois batido, separando-se a parte sólida, a manteiga (mas também para o fabrico de outros produtos lácteos, como iogurte), da líquida, o soro ou leitelho (buttermilk, em inglês). Assim, traduzir simplesmente por «separador» deixa o leitor na dúvida. É esse o objectivo?

«Podiatra», «podólogo» ou «podologista»?


Sem pés nem cabeça

Cara Luísa Pinto: optaria por escrever «podólogo». Nem todos os dicionários registam a forma «podologista». «Podiatra» (em inglês podiatry) nem pensar. É correcto, sim, não se pode negá-lo. E até está registado em alguns dicionários, como o Houaiss. Contudo, a semelhança com «pediatra» levar-me-ia a afastá-lo, por prudência. Não é uma boa razão? Afinal, escrevemos para que nos entendam, não para que nos decifrem.

Léxico: «meixão»

Mei… quê?

      «A Brigada Fiscal da Figueira da Foz apreendeu cinco indivíduos e quase 30 quilos de meixão (enguia bebé), numa operação realizada na madrugada de ontem, no Mondego» («Apreensão», Metro, 7.3.2008, p. 4). Numa notícia datada de 2003, o Correio da Manhã escrevia: «O meixão é uma enguia-bebé quase transparente, com cinco centímetros de comprimento, muito procurado para petiscos em Espanha, sendo vendido pelos pescadores a 200 euros/kg, o que faz dele o ‘caviar português’.» O vocábulo não está registado nos dicionários.

Novos pecados capitais

Os 13 pecados

«O Vaticano publicou, no domingo, uma lista com seis novos pecados capitais. Assim, aos outros sete tradicionais — gula, luxúria, avareza, ira, inveja, soberba e vaidade — juntam-se a modificação genética, a poluição do ambiente, provocar injustiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico e por fim consumir drogas. Tudo para que a antiga lista se adapte à “realidade da globalização”, avança a BBC» («Vaticano apresenta uma lista com seis novos pecados capitais», Maria Nobre, Meia Hora, 11.3.2008, p. 4). Aliás, a jornalista não sabe se é uma lista se uma «listagem»: «Contudo, esta listagem da Santa Sé é vista com algumas reservas por parte de figuras da Igreja ouvidas pelo Meia Hora.» Dada a época que vivemos, é lembrada a definição de pecado (definição mais completa e clara do que a que se lê em alguns dicionários): «Transgressões de princípios religiosos, éticos ou morais, que podem acontecer por palavras, acções ou omissões.»

Casco velho

Zona histórica

      «A Câmara de Lisboa quer contrair um empréstimo para financiar a recuperação urbana do casco velho da cidade, “um buraco” financeiro e social, com bairros como Alfama e Castelo a definharem há anos sem população nem comércio» («Câmara faz empréstimo para reabilitar “casco velho”», Meia Hora, 10.3.2008, p. 7). É claro que vem do espanhol casco viejo — mas não é razão para escrever a expressão entre aspas. Para agravar, as aspas do título não chegaram ao corpo da notícia. De resto, esta é pecha de muitos jornais: escrever desnecessariamente palavras e expressões entre aspas. Quando são absolutamente necessárias, não as usam.

Definição: «carjacking»

Outros perigos

Ninguém mais do que eu apela à sensatez dos jornalistas quanto ao uso e explicação de estrangeirismos. Hoje, o Meia Hora usa o vocábulo carjacking e ensaia uma definição. «O Relatório Anual de Segurança Interna aponta como prioridade o combate ao roubo de carros na estrada com ameaça de armas de fogo (carjacking), revelou o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança em entrevista à TSF» («Roubo violento de carros vai ser a prioridade», Meia Hora, 10.3.2008, p. 6). E se não for usada uma arma de fogo, mas uma arma branca, já não será carjacking? E se for já dentro da garagem ou na rampa de acesso?

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