Novos pecados capitais

Os 13 pecados

«O Vaticano publicou, no domingo, uma lista com seis novos pecados capitais. Assim, aos outros sete tradicionais — gula, luxúria, avareza, ira, inveja, soberba e vaidade — juntam-se a modificação genética, a poluição do ambiente, provocar injustiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico e por fim consumir drogas. Tudo para que a antiga lista se adapte à “realidade da globalização”, avança a BBC» («Vaticano apresenta uma lista com seis novos pecados capitais», Maria Nobre, Meia Hora, 11.3.2008, p. 4). Aliás, a jornalista não sabe se é uma lista se uma «listagem»: «Contudo, esta listagem da Santa Sé é vista com algumas reservas por parte de figuras da Igreja ouvidas pelo Meia Hora.» Dada a época que vivemos, é lembrada a definição de pecado (definição mais completa e clara do que a que se lê em alguns dicionários): «Transgressões de princípios religiosos, éticos ou morais, que podem acontecer por palavras, acções ou omissões.»

Casco velho

Zona histórica

      «A Câmara de Lisboa quer contrair um empréstimo para financiar a recuperação urbana do casco velho da cidade, “um buraco” financeiro e social, com bairros como Alfama e Castelo a definharem há anos sem população nem comércio» («Câmara faz empréstimo para reabilitar “casco velho”», Meia Hora, 10.3.2008, p. 7). É claro que vem do espanhol casco viejo — mas não é razão para escrever a expressão entre aspas. Para agravar, as aspas do título não chegaram ao corpo da notícia. De resto, esta é pecha de muitos jornais: escrever desnecessariamente palavras e expressões entre aspas. Quando são absolutamente necessárias, não as usam.

Definição: «carjacking»

Outros perigos

Ninguém mais do que eu apela à sensatez dos jornalistas quanto ao uso e explicação de estrangeirismos. Hoje, o Meia Hora usa o vocábulo carjacking e ensaia uma definição. «O Relatório Anual de Segurança Interna aponta como prioridade o combate ao roubo de carros na estrada com ameaça de armas de fogo (carjacking), revelou o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança em entrevista à TSF» («Roubo violento de carros vai ser a prioridade», Meia Hora, 10.3.2008, p. 6). E se não for usada uma arma de fogo, mas uma arma branca, já não será carjacking? E se for já dentro da garagem ou na rampa de acesso?

O termo «nação»

O dedo na ferida

A propósito do termo «nação», escrevia ontem Javier Ortiz na sua crónica habitual, «El dedo en la llaga», no Público: «O termo “nação” não apenas recebeu desde antigamente usos muito diversos, como cada dia que passa ganha sentidos mais imprecisos e subjectivos. O que desagrada muito aos que identificam “nação” com “Estado” ou não vêem na ideia de “nação” outra dimensão possível que não a jurídico-política. Para estes, falar da “nação árabe” — expressão muito comum entre os interessados — não tem sentido. Ultrapassa-os tanto o muito grande como o muito pequeno: tão-pouco compreendem que haja ameríndios que falem da “nação sioux”, por exemplo. Nos EUA, muitos afro-americanos definem-se como “nação”. E o mesmo acontece com não poucos latinos» («Las nuevas naciones», Público, 7.3.2008, p. 18, tradução minha).

RevPar e pax

Como?

«De acordo com um estudo da consultora imobiliária [Cushman & Wakefield], o preço médio por quarto disponível (RevPar) em Lisboa é de 58,74 euros, assente numa taxa de ocupação de 6,58 %» («Lisboa tem dos hotéis mais baratos do mundo», Global, 5.3.2008, p. 4). Desta vez, o jornal explicou o acrónimo que usou, o que ainda não é, como devia ser, prática corrente. Outras fontes indicam que o RevPAR é o rácio entre a receita dos quartos ocupados e os quartos disponíveis num determinado período. Como era de esperar, RevPAR vem do inglês: «revenue per available room». Estranho? Tanto ou tão pouco como pax para designar o passageiro aéreo ou o hóspede de hotel. São termos usados em todo o mundo.

Tradução: «canyon»

Quase acertavam

Como traduzir a palavra inglesa canyon? Isso mesmo: por «ravina», «vale profundo com rio», «desfiladeiro». Mas tratar-se-á exactamente do mesmo? É esse o problema da tradução. Neste caso, os Brasileiros têm uma forma aparentemente expedita de traduzir a palavra. O artigo do The New York Times, assinado por John Noble Wilford, dizia: «By dating mineral deposits inside caves up and down the canyon walls, the geologists said they determined the water levels over time as erosion carved out the mile-deep canyon as it is known today. They concluded that the canyon started from the west, then another formed from the east, and the two broke through and met as a single majestic rent in the earth some six million years ago» («Grand Canyon Still Grand but Older», 7.3.2008). O Jornal do Brasil traduziu assim: «Ao datar os depósitos minerais dentro das cavernas do cânion, os geólogos disseram que determinaram os níveis de água ao longo do tempo, à medida que a erosão esculpiu o cânion de 1.600 metros de profundidade como é conhecido hoje. Eles concluíram que um cânion começou no Oeste, outro, no Leste, os dois avançaram e se encontraram formando uma escultura majestosa e única na Terra, há 6 milhões de anos» («Grand Canyon é três vezes mais velho do que se pensa», 8.3.2008, p. A23). O Dicionário Houaiss, contudo, ao registar «cânion», afirma que é a forma não preferencial de «canhão». Logo, canhão é a melhor tradução de canyon.
O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista também a forma canhom: «Canhom, s. m. Formação orográfica, também chamada canhão.» Na língua espanhola há o termo cañón: «Paso estrecho o garganta profunda entre dos altas montañas, por donde suelen correr los ríos.»

Mapear e cartografar

Poupem-nos

Posso estar enganado, mas o «mapeamento» foi largamente divulgado (atenção, precipitados: eu escrevi «largamente divulgado») com o genoma. Agora, os tradutores não podem é querer à viva força que tudo seja «mapeado», não deixando nada para a cartografia. Então ele foi «to map that region» — mapear a região. Não pertencia, com certeza, aos Serviços Cartográficos do Exército. Mais um amador.

Léxico: «gestuário»

«O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.»
Samuel Johnson
Capitão Gancho

No gestuário da língua gestual espanhola, o nome «Zapatero» é transmitido fazendo quase um círculo com o indicador e o polegar sobre o olho direito. Agora, é notícia a iniciativa de mau gosto que foi o PP de Castela-La Mancha ter publicado na sua página da Internet uma imagem do terrorista Abu Hamza, por baixo da fotografia de Mariano Rajoy e ao lado da presidente do PP desta comunidade autónoma, Maria Dolores de Cospedal, com o gancho (garfio em espanhol, palavra que há menos de uma semana vi mal traduzida por «garfo». Quem não se lembra do Capitán Garfio?) a fazer o mesmo gesto. Conclui o Público: «Más flaco favor que a Zapatero hacen a su líder máximo y a su ‘lideresa’ regional colocando al terrorista bien pegado a ellos.»

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