Costumes espanhóis

Imagem: http://img207.imageshack.us/

Con aceite, como Dios manda


A correspondente do jornal espanhol Público nas Canárias, Concha de Ganzo, foi a Lanzarote entrevistar José Saramago. Pergunta a jornalista: «Rajoy propone que los inmigrantes firmen un contrato, en el que, entre otras obligaciones, tendrían que cumplir con las costumbres españolas. Como portugués que vive en Canarias, ¿qué le parece?» Responde Saramago: «Rajoy no es estúpido, pero se esfuerza mucho por parecerlo. Lo malo es que de vez en cuando lo consigue. Me satisface tranquilizar a don Mariano: en mis desayunos, siempre hay tostadas con aceite y azúcar, que es costumbre española, andaluza por más señas…» Costume que, a determinada altura da História, passou a fronteira. A conversa andou toda à volta da actualidade política espanhola, mas ainda houve tempo para perguntar: «¿Y qué pasará en la nueva obra de José Saramago?» «Se llamará El viaje del elefante y sobre ella no diré más. En otoño, se sabrá.» Talvez só tenha título, pois o escritor já confessou que começa as suas obras pelo título. Homem feliz.

Ortografia: «jihadista»

Então pensem

      Devemos grafar — e, pese o desleixo ignóbil de alguns jornais, há absoluto consenso na matéria — jihad como acabei de fazer, pois a palavra não é portuguesa. Não devemos, porém, fazer o mesmo com a derivada «jihadista». Por uma razão muito simples: esta é portuguesa. (Deixem lá o agá no meio! Também «chanfrado» o tem, e vocês importam-se, acaso? Revoltam-se?) Apesar de tudo, quem assim escreve devia parar um pouco e reflectir em casos de analogia. Stress *, por exemplo. É em itálico que a grafamos. Já a derivada «stressado» ninguém a grafa, e muito bem, em itálico. Com um exemplo tão claro, dispenso-me de aduzir outros. «Entretanto, confrontos entre jihadistas e o exército de Israel em Kissufim, na Faixa de Gaza, vitimaram um soldado israelita» («Faixa de Gaza encontra-se em “implosão humanitária”», Meia Hora, 7.3.2008, p. 8).


* Este sim, um estrangeirismo insubstituível, ao contrário do que afirma a equipa do Ciberdúvidas sobre os vocábulos background e kit. É desta maneira derrotista que defendem a língua portuguesa. De kit não digo nada, por achar desnecessário. Quanto a background, já vi alguns dos nossos melhores tradutores, nas mais diversas obras, vertê-lo para «pano de fundo» «enquadramento», «panorama», «antecedentes», «passado», «contexto», «origens», «ambiente», etc.

República Chechena da Ichequéria

Porque não?

Pergunta, e muito bem, o leitor J. J. L.: «Aquilo que em inglês se escreve Ichkeria, em francês, Itchkérie, em alemão, Itschkeria, em espanhol, Ichkeria, e em catalão, Itxkèria, como poderá (ou deverá) ser transcrito para português: Itchquéria, Ichquéria, Isquéria, Ichéria?» A minha resposta, e a esta hora já muitos leitores o saberão, porque ficou lá para trás, num comentário, foi: «Ainda não vi nenhuma tentativa de aportuguesamento deste topónimo, mas “Ichequéria” não me parece mal.» Parece-me a mais conforme à língua portuguesa. Mas, é claro, passados tantos anos, ainda se continua a escrever «Abkázia», quando seria mais natural (mesmo que se repute tolice não termos a letra capa no nosso alfabeto) a grafia «Abcázia», como eu já escrevi vezes sem conta na imprensa e na revisão de obras. «Conhecida a intenção da Ossétia do Sul, também a outra região separatista da Geórgia, a Abkázia, anunciou que pedirá ao resto do Mundo que reconheça a sua independência» («Estilo “Kosovo” estende-se à Ossétia do Sul e Abkazia», Meia Hora, 6.3.2008, p. 11).

Penitenciaria e penitenciária

Mais confusões

A notícia apareceu em toda a imprensa: o bispo Gianfranco Girotti aconselhou a intervenção de um exorcista em caso de fenómeno diabólico como possessão ou obsessão. E a que instituição da Igreja Católica pertence ou preside D. Girotti? A maioria da imprensa portuguesa não tem dúvidas: ao Tribunal da Penitenciária Apostólica, um dos três tribunais da Cúria Romana. Mas não: pertence, isso sim, ao Tribunal da Penitenciaria Apostólica. Semelhante, sim senhor, mas diferente. Como os jornalistas só conhecem a Cadeia Penitenciária de Lisboa, que é, na verdade, a antiga designação do que actualmente é o Estabelecimento Prisional de Lisboa, não concebem uma instituição designada (a partir do latim Pœnitentiaria Apostolica) Tribunal da Penitenciaria Apostólica.
«O bispo Gianfranco Girotti, regente do Tribunal da Penitenciária Apostólica do Vaticano, defende que em caso de possessão diabólica a pessoa afectada deve dirigir-se a um exorcista e não a um confessor» («Bispo aconselha um exorcista em caso de possessão diabólica», Meia Hora, 6.3.2008, p. 11).


Léxico contrastivo: «contêiner»

Imagem: http://www.pianoclub.gr.jp/

Porque contém

Sabiam que no Brasil o nosso contentor se chama contêiner e que antigamente era designado cofre-de-carga? E que está escrita a história deste recipiente? Não? Pois não sabem muito. Leiam. «Um datacenter (local que abriga servidores de rede) com capacidade para processar milhões de pedidos de compra ao mesmo tempo, em um site de comércio eletrônico, já pode funcionar, inteirinho, dentro de um contêiner e ser levado, em tese, para qualquer lugar. Basta que a região tenha água, energia elétrica e conexão de rede» («Datacenter móvel da Sun cabe em um contêiner», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 3.3.2008, p. A24). Contêiner é, como se vê, o aportuguesamento da palavra inglesa container.

O que se diz na rádio

Promessas

Nos jornais gratuitos já tinha visto isto. Hoje, ao ouvir um noticiário na Antena 1, tomei plena consciência da dimensão da nova tendência. Na informação meteorológica, jornais e rádio já não falam de previsões, mas de «promessas». «No final da tarde, conforme prometido, registar-se-ão ventos fortes no litoral norte.» Prometido por quem, valha-me Deus? Quem pode prometer seja o que for nesta matéria? São Pedro? São previsões, senhores jornalistas, e previsões não são promessas. Mas a RDP e a RTP não tinham estabelecido com o Ciberdúvidas um protocolo para um serviço de consultoria linguística permanente? E então?

Tradução: compostos de «hood»

Enfia lá este

Traduzir o vocábulo inglês «hood» é fácil: será, em função do contexto, «bioco», «capa», «capelo», «capota», «capuz», «touca»… O pior é quando «hood» é sufixo. Este é mais um glossário em construção.

adulthood: adultícia; idade adulta
bachelorhood: celibato
boyhood: meninice, infância
brotherhood: irmandade; confraria
buddhahood: budidade
childhood: infância
falsehood: falsidade, mentira
hardihood: coragem, audácia, intrepidez, ânimo; descaramento, atrevimento
knighthood: cavalaria
Jewhood: condição judaica
likelihood: verosimilhança, possibilidade, probabilidade; cenário
livelihood: modo de vida; ganha-pão
manhood: masculinidade, virilidade; condição masculina; os homens
motherhood: maternidade; vocação maternal
nationhood: condição de nação; o facto de ser nação
neighbourhood: bairro, zona, vizinhança
priesthood: sacerdócio, clero
sisterhood: confraria, irmandade, congregação de religiosas; situação de irmã
statehood: posição do Estado; Estado independente
victimhood: vitimização
widowhood: viuvez
wifehood: situação (condição) de mulher casada


[Glossário em construção] [22 entradas]

Como se fala na rádio

Vórtices culturais

      Cultura. Que digo? Culturalíssima. Antena 2, programa Boulevard, com André Pinto e Reinaldo Francisco. Um deles, não sei qual, anunciou uma composição de Antonio Vivaldi como «Águas Revoltas» — mas este «revoltas» como quem diz «revoltas mineiras» ou «revoltas do século XVII», com o o aberto. Ostensivamente aberto. Abertíssimo. Escancarado. Rádio cultural...


Arquivo do blogue