Tradução

Errar o alvo

Quando se traduz de línguas muito próximas da nossa, como o espanhol, tem-se muitas vezes a tentação fácil de seguir a literalidade do que se lê no original. Duas línguas diferentes? Mas parecem a mesma, uma só… E então, o grupo partiu, sedento de sangue, com «la identidad del culpable impresa en sus retinas como único blanco». Os dedos do tradutor vão atrás, afeitos já a tanta e tão mirífica facilidade: «a identidade do culpado impressa nas suas retinas como único branco». Calma, calma… Fácil, mas não tanto. Semelhantes, mas diferentes. O que é que em qualquer língua, sendo pormenor, minúcia, não tem a máxima importância?
O espanhol blanco significa em português — qualquer pessoa que lide minimamente com a língua espanhola não o pode ignorar — «alvo», o ponto de mira que se procura atingir com algo, como um tiro, uma flecha, etc. Blanco é «todo objeto sobre el cual se dispara un arma». O nosso «branco» e o blanco espanhol têm o mesmo étimo: o germânico blank. O nosso «alvo», em contrapartida, vem do latim albus, «branco», que, de adjectivo substantivado, passou a substantivo. Também em catalão «alvo» se diz blanc: «Punt o objecte al qual hom intenta d’adreçar un tir. Tirar al blanc.» O nosso polissémico «branco» já significou antigamente, é verdade, «alvo», mas integrado numa locução (talvez castelhanizante…): branco de pontaria. Mas isso foi há muito, muito tempo, ainda o tradutor era poeira cósmica.

Tradução

Imagem: http://www.glendaleagriculture.co.uk/


Parecido, não haja dúvida



      Se pensam que hoje não houve nada a assinalar no episódio dos Jardins por Medida, estão bem enganados. Além da parvoíce de se confundir «soalheiro» com «solarengo», regiões com pontos cardeais, a estocada letal foi mostrarem algo semelhante ao que se pode ver na imagem de cima e a tradutora afirmar que era uma… manjedoura! Não ouvi, por ter o volume baixo, a palavra em inglês, mas podia ter sido a expressão pig trough ou food trough ou, sei lá, até feed box. A proprietária do jardim, numa casa vitoriana em Liverpool, gostava de antiguidades e velharias, pelo que Matt James foi a uma casa da especialidade, onde encontrou o objecto, de chapa, que adaptou para fazer um «riacho» no jardim. Ora o objecto era claramente um comedouro não uma manjedoura.


«Matt James, attempts to liven up a lack lustre backyard in Liverpool. Owner Laura wants a garden with a rustic feel and a contemporary twist. Matt’s solution is an ambitious sunken garden.»

Léxico: «haček»

Diacríticos

O leitor A. M. L. pergunta-me que designação tem o acento, uma espécie de acento circunflexo invertido, sobre certas palavras, como no r do antropónimo Dvořák. Chama-se haček, termo da língua checa que significa «ganchinho». Este diacrítico serve para indicar, na escrita latina da língua checa, a qualidade da pronúncia.

Tradução: «spade»


Troca de ferramentas

      Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, concebeu para os londrinos Lisa e Paul, proprietários de um jardim selvagem, um espaço ameno, com uma pérgula e um banco como elementos centrais. Teve de arejar, como quase sempre, a terra que o jardim já tinha, para que as novas plantas enraizassem bem. Além de enxada e de outras ferramentas, serviu-se de uma spade. Vi, com estes que a terra há-de comer ou o fogo cremar (ainda não decidi, se é que posso, com certezas, fazê-lo), uma spade semelhante à da imagem nas mãos de um ajudante de Matt James, e ouvimos dizer spade — mas a tradutora quis que fosse uma «espátula». Ora, «espátula», em inglês, seria, dependendo do uso, spatula ou palette-knife, ferramentas completamente diferentes.


«Decluttering a Backyard
Host Matt James meets Londoners Lisa and Paul, who have recently bought a new house in Northwest London. After forcing hoarder Pete to get rid of the junk in their cluttered backyard, James makes the most of their small space, creating a large seating area for the couple to relax in.»

Léxico: «dendrita»

Imagem: http://www.fromoldbooks.org/

Do alto da coluna


«Tal forma de comportamento, residir no cimo de um monte escarpado, a estela, por isso se chamavam estilitas, ou empoleirados numa árvore, ditos dentritas, fascinava os místicos orientais» («São Máron», A Guarda, n.º 5118, 7.2.2008, p. 23). Uma frase, vários problemas. Ao anacoreta que vivia sobre um pórtico ou sobre uma coluna, como o celebérrimo São Simeão, o Estilita (memória litúrgica em 5 de Janeiro), dava-se o nome de estilita. Sobre uma coluna, não no cimo de um monte escarpado. O autor do texto deve ter confundido com a bruxa de monte Córdova. Ao anacoreta que vivia no cimo de uma árvore, uma variante da forma de ascetismo representada pelos estilitas, dava-se o nome de dendrita e não «dentrita», pois o étimo é o grego dendron, «árvore». O santo, finalmente e para estarmos de acordo sobre alguma coisa, para a Enciclopédia Católica Popular e para Fr. Pantaleão de Aveiro é «Maron», mas para José Manuel de Castro Pinto e para mim é «Máron».

«Tomarão este nome de maronitas, de hum seu mestre antigo, que se chamou Maron, são sogeytos á igreja romana, ao menos da era do senhor Jesu de 1476 na qual sendo summo pontifice na igreja de Deos Xisto IV o patriarca do Monte Líbano, pastor, & superior dos christãos maronitas, mandou embayxadores ao dito papa, dando-lhe obediencia, & pedindo-lhe tivesse por bem mandar-lhe quem os ensinasse, doutrinasse & instruísse na doutrina catholica da santa madre igreja romana» (Frei Pantaleão de Aveiro, Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades; dirigido ao illustrissimo e reverendissimo senhor D. Miguel de Castro, dignissimo arcebispo de Lisboa metropolitana, 7.ª ed., organizada por António Baião, Coimbra, Tipografia da Universidade, 1927, p. 502).

Tradução: «trellis»


Língua no estaleiro

Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, disse aos proprietários do jardim que estava a conceber que ia arranjar «a special trellis». O que se viu, mais tarde, foi algo semelhante ao que a imagem de cima mostra: uma treliça plana, enferrujada, semelhante às que se usam como elemento estrutural nas lajes de betão. Cristina Diamantino, a tradutora, da PSB, achou por bem traduzir trellis por «latada». Ainda que trellis tenha, remotamente, vindo do latim trichĭla,ae, que significa «latada», e, nos dicionários de inglês-português, seja esta a primeira acepção, tal não significa que se deva ficar por aí. De facto, a estrutura usada por Matt James era uma treliça das que se utilizam na construção civil, a que depois se aplicou uma moldura de madeira por pintar. Mas é sempre, no princípio e no fim, uma treliça. De resto, e mais uma vez, experimente ir ao Aki perguntar por «latadas». Ou encolhem os ombros ou dizem-lhe que «temos ali treliças, se também servir»…

Léxico: «barcoleta»

Fez-se ao mar

«Do “Rei dos Mares” à barcoleta. Para todos os gostos e feitios, mas só para alguns bolsos. Entre veleiros e iates, de maior ou menor dimensão, mais luxuosos ou recatados, avançados em tecnologia ou sem quaisquer inovações, são muitas as ofertas disponíveis» («Torne-se imperador dos sete mares», Meia Hora/suplemento «Hora Extra», 11.2.2008, p. II). Não aparece registado em nenhum dicionário, tanto quanto sei, e, no entanto, ela aí está, a ser usada todos os dias. Parece ter um sentido afectivo, diminutivo, como «barcote».

Acento nas palavras latinas


Para quê?

Veritas era, na mitologia romana, a deusa da verdade, filha de Saturno e mãe da Virtude. Família distinta, esta. É também, e isto interessa mais ao caso, o lema da Universidade de Harvard. Ainda mais perto do que pretendo, é também um dos lemas da Ordo fratrum Praedicatorum — os Dominicanos. Ora, já aqui falei, a propósito da Caritas, do erro que é grafar palavras latinas com acentos. Anteontem, estive mesmo em frente do edifício da empresa proprietária do jornal A Guarda. E lá está: Véritas. Está mal.
Será que estamos perante a boa intenção de ajudar o leitor a pronunciar bem a palavra? Ainda assim, não deixa de ser um erro. E isto faz-me lembrar os tribunais gacaca, no Ruanda. São tribunais populares, que, em sessões semanais, julgam os responsáveis pelos massacres de 1994. Gacaca é uma palavra do kinyarwanda, a língua oficial do país, que se pronuncia «gachacha». Pois na imprensa de todo o mundo passou a grafar-se a palavra como «gachacha». Também está mal.

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