Determinação de topónimos: Maputo

Decidam-se

Uma revolução na Antena 1, entre o noticiário das 14 e o das 15 horas: no primeiro, a propósito dos acontecimentos em Moçambique, era «no Maputo», «do Maputo», «para o Maputo». De Maputo, o correspondente da Antena 1, Faustino Igrejas, ia dizendo: «em Maputo», «de Maputo», «para Maputo». No segundo noticiário, já era «em Maputo», «de Maputo», «para Maputo». Sempre a aprender. Sempre a desaprender. Sempre a aprender. Sempre a desaprender…


[Ver aqui também.]

Ortografia: «caixa-negra»

Registem

«Os dados registados pelas “caixas negras” existentes nos caças permitem complementar as audições de todos os envolvidos em situações como a registada terça-feira na zona de Penamacor» («‘Caixas negras’ provam existência de danos», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 18.1.2008, p. 3). Já sabemos que a caixa nem é negra nem é uma, mas justificará o facto que se usem as aspas? Trata-se de uma palavra composta, que o Dicionário Houaiss, por exemplo, regista: caixa-negra.

Léxico: «luvas cirúrgicas»


De pelica

«Nos carris onde circulam os comboios no sentido Sintra-Lisboa (onde se deu o acidente) várias manchas de sangue, uma sola de sapato aparentemente feminino e umas luvas de enfermagem relatam o triste fim de Nádia, filha de Pedro Mário da Silva, ex-comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém e recém-empossado vice-presidente da Associação Humanitária da corporação» («Conversa ao telemóvel causa atropelamento», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 38). Percebemos, sim senhor, mas não foram sempre designadas «luvas cirúrgicas»?

Tesoura de tosquiar: partes


Vamos tosquiar!

O Global foi entrevistar o último fabricante de tesouras de tosquiar (esquilar ou tosar, como também se diz) em Portugal. Isto interessa-me. Mateus Filipe Miragaia tem 66 anos e mora em Donfins do Jarmelo, no concelho da Guarda. Produz entre 200 e 300 tesouras por ano, que vende a 12 euros cada.
«O fabrico de cada tesoura leva cerca de uma hora. O ferreiro começa por “cortar tiras de 20 ou 21 centímetros de uma chapa de dois metros por um”, numa máquina. Na fase seguinte leva a tira à forja “para lhe dar dois calores que se dão na fase inicial. Um na parte da folha [parte da tesoura que vai cortar a lã] e outro na parte da anca ou [do eixo para trás], seguindo-se a soldadura de uma peça mais fina, em ferro, que é para fazer a asa”. Utiliza um pequeno martelo para moldar o metal incandescente a seu gosto. “O segredo está nas pancadas”, diz, sorridente. Depois, puxa por uma barra de ferro e, também a quente, corta uma ponta daquele que vai ser o futuro eixo da tesoura.
Seguidamente, indica que vai passar com as duas partes da tesoura pelos vários “esmeriz” [esmeril — pedra dura que serve para polir metais] que possui na oficina. “Começo pelo mais grosso e termino no polidor, para a ‘folha’ da tesoura ficar totalmente lisinha”, esclarece. A última fase da concepção do utensílio é a colocação do eixo “quando se liga uma parte da tesoura com a outra”. Antes de dar a tarefa por concluída “tira-lhe o fio para a tesoura não morder [eriçar a lã]”, leva-a junto do ouvido para escutar o “toque” e experimenta a cortando um pedaço de lã. “Esta ainda mastiga um bocado”, observa. Pega no martelo e, três “pancadas” depois, afiança: “Está pronta!” A produção é dada por concluída com a gravação da sua marca, um “carimbo” semelhante a um “pé de pita [galinha]” que exara num dos lados da tesoura» («O último fabricante de tesouras de tosquiar», António Sá Rodrigues, Global, 4.2.2008, p. 14).

Chavões

Grilhetas semânticas


      Parece fazer parte da ordem natural das coisas: se alguém é detido, o aprendiz de jornalista já sabe que o indivíduo ou está nos «calabouços da PJ» ou numa «cela da PSP». Como temos várias polícias, o exercício pode ser empolgante. Proponho, assim, aos senhores jornalistas a seguinte tabela fixa: para a GNR, chilindró; para a ASAE, masmorras; para a Polícia Marítima, enxovia; para a Brigada Fiscal, cárcere; para a Polícia Militar, ergástulo; para o SEF, estarim; para a Polícia Municipal, cafua; para o SIS, tronco; para a PJM, séjana; para a Polícia Florestal, cubículo; para o SIED, cativeiro; para o SIEDM, enfiada. Se forem presos e não detidos — e muitas vezes os jornalistas metem os pés pelas mãos e trocam os conceitos —, espera-os, geridos pelos Serviços Prisionais, outros locais: cadeia, estabelecimento prisional ou prisão.

Tradução: «encombrants»

Coisas grandes…

A frase era «Le service des encombrants de la mairie». Ora, nem sequer os bons dicionários bilingues francês-português dão a definição que se ajuste ao contexto. Algures, porém, encontra-se a definição: «Encombrants : déchets des ménages trop volumineux pour être mis à la poubelle (matelas, meuble, réfrigérateur, cuisinière …).» São o que se deu em chamar, desde há não muito tempo, em Portugal «monstros»: todos os resíduos que, pelas suas dimensões ou características, não possam ser transportados pelos camiões de recolha das autarquias, como móveis, colchões, electrodomésticos grandes e resíduos verdes, como restos de limpeza de jardins. Também entre nós a acepção não está registada, e talvez nunca venha a estar, sendo que a palavra é largamente usada no dia-a-dia, em especial nas autarquias.

Léxico: «nateira»

Imagem: http://www.silvercollection.it/

Faz falta


Desconhecia, confesso, o vocábulo «nateira», a significar o recipiente em que se serve natas à mesa. Descobri-o neste artigo: «Em “O Código dos Wooster” (publicado originalmente em 1938) comparece a sua parelha mais memorável: o saudavelmente lúdico Bertie Wooster, que também narra, e o seu prestimosíssimo valete de quarto Jeeves. A perseguição de uma nateira de prata em forma de vaca, o roubo do capacete de um polícia, o desaparecimento de um caderno de apontamentos com observações perigosas sobre os ruídos que um velho magistrado produz a comer a sopa, eis algumas das terríveis “aventuras” aqui vividas pela dupla» («O pé ou o sapato?», Mário Santos, Público/Ípsilon, 11.1.2008, p. 40). O tradutor da obra recenseada, Ernesto Carvalho, optou por traduzir os termos ingleses cow-creamer e cream jug por «nateira». «They’ve got an eighteenth-century cow-creamer there that Tom’s going to buy this afternoon.” “The scales fell from my eyes.” “Oh, it’s a silver whatnot, is it?” “Yes. A sort of cream jug. Go there and ask them to show it to you, and when they do, register scorn.”» Não vejo a palavra registada em nenhum dicionário, o que não constitui, já sabemos, óbice ou erro. Está bem formada — à semelhança de açucareira, almoçadeira, azeitoneira, bolacheira, biscoiteira, bomboneira, cafeteira, chaleira, chocolateira, fruteira, leiteira, manteigueira, molheira, oveira, saladeira, sopeira, sorveteira, torteira… — e faz falta. Apenas no Novo Diccionario Francez-Portuguez, de José da Fonseca, uma obra publicada em Paris, em 1856, encontro a palavra «nateira», mas noutra acepção: «CREMIÈRE, s. f. (kremiére) cremeira, nateira (mulher, que vende nata).»

Os hidroaviões estacionam?

Olhe que não

Os aviões ficam estacionados na pista ou em hangares, isso é certo. E um hidroavião? Bem, se um hidroavião, pelas suas características, não aterra, antes amara, também não me parece que estacione. Não pensou assim o jornalista Eurico de Barros, que escreveu: «Em 1945, caiu um nevão enorme em Lisboa e arredores, tão intenso que as fontes e bicas da cidade gelaram e houve quem conseguisse fazer ski em certas zonas. Os aeroportos de Cabo Ruivo e da Portela ficaram praticamente paralisados. Há fotos desse tempo que mostram os hidroaviões estacionados no Tejo, cobertos de branco, sob um céu de chumbo, e a pista da Portela, completamente nevada, com muitos aviões parados e uma cortina de nevoeiro que não deixa ver nada a alguns metros de distância» («Outros tempos com outros aeroportos», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 23). Os hidroaviões, como os navios, atracam. Ficam atracados.

Arquivo do blogue