Léxico: «lágrimas-batávicas»

Coisas de vidro

      Já há muito tempo que não lia ou ouvia a palavra «lágrima-batávica». Sabem do que se trata? É um pingo de vidro, derretido em forma de lágrima, que se esfria subitamente mergulhando-o em água fria, como se pode ver neste vídeo. Descoberta que teve consequências para a indústria vidreira. Ter-nos-á vindo do francês larme Batavique. Em inglês tem pelo menos três designações: Prince Rupert’s Drops, Rupert’s Balls e Czar’s Tears. Batávica porque foi inventada nos Países Baixos, pois em latim Batavi (Batavos, em português) era o nome da tribo que habitava a área que corresponde actualmente àquele país. Já agora, seria injusto omiti-lo, em neerlandês diz-se bataafse traan.

Léxico: «grimório»

Espíritos do mal   


      Conhecem a palavra «grimório»? Bonita, não é? Era o nome que se dava antigamente ao livro de magia com o qual se evocavam (ver aqui a confusão babélica em que esta palavra anda envolvida) os espíritos. O étimo é o francês grimoire, com o mesmo significado. Interessante é que, nesta língua, a palavra se tenha formado, provavelmente, a partir de grammaire, «gramática», com influência de grimace, «careta, esgar», que importámos desnecessariamente: grimaça. De maneira que é neste ponto que ainda hoje nos encontramos: para alguns, a gramática não passa de feitiçaria e quem a usa devia ser queimado.

Pronúncia: «grés»

Escolhas erradas

No programa de entrevistas 1001 Escolhas, na Antena 1, Madalena Balça entrevistou hoje Susana Félix. É verdade que Madalena Balça não pronunciou o nome da sua entrevistada como defendo que deve ser: /Félis/, como também digo /cális/(cálix), /cóccis/(cóccix) e /fénis/(Fénix), e quem me apanhar a pronunciar de forma diversa pode dar-me um tiro. Mas não é disso que quero hoje falar. No decurso do programa, a palavra «grés» (a rocha sedimentar que é resultado da desagregação de diversas rochas e minerais, composta essencialmente por quartzo e feldspato) foi pronunciada com e fechado. Errado: «grés» (do francês grès), acentuado graficamente como é, só pode pronunciar-se com e aberto. Deve haver aqui confusão com a palavra «manganés», que tem a variante «manganês».

Léxico: «ponto»

Centésima parte do quilate

Alugue um balde por 2,25 dólares e uma pá desdobrável do Exército por outro tanto e ponha-se a procurar diamantes, brancos, castanhos, amarelos. A proposta é do jornal Sexta, e pode fazê-lo no Crater of Diamonds National Park, no Arkansas, EUA. «Mas para cima de sete centenas tinham mais de um quilate (unidade de medida destas pedras preciosas e que corresponde a 200 mg). E, destes, alguns são realmente pedras de grande valor (ver caixa). De forma muito resumida, calcula-se que um diamante em bruto possa valer entre um e dez dólares por ponto (a centésima parte do quilate)» («Garimpeiros por um dia», Luís Francisco, Sexta, 1.2.2008, p. 11).
O quilate ou carate (cujo símbolo é ct) era uma unidade natural de peso, como tantas outras: era o peso de uma semente de alfarrobeira. No decurso da História, naturalmente, o sistema aperfeiçoou-se, tendo o peso sido padronizado em 0,2 gramas, um quinto do grama. O ponto é, assim, o submúltiplo do quilate, equivalendo a 0,01 ct. Sobre diamantes conheço mais alguns termos:

Baco m. Espécie de canoa ou caixa instalada na margem dos cursos de água para trabalho de mineração de diamantes.
Biguar v. intr. Procurar diamantes na areia dos rios, mergulhando.
Carimbés f. pl. Gamelas cascalho diamantífero.
Cuiaca f. Nome de um utensílio usado pelos mineradores de diamantes.
Culastra f. Resíduo da lapidação dos diamantes.
Grupiara f. Bras. Lavra de diamantes. O m. q. gopiara.
Janela f. Cada uma das primeiras facetas feitas nas pedras preciosas em bruto, tais como o diamante, para averiguar do seu grau de pureza e, assim, melhor escolher o ângulo de corte e marcação da mesa.
Listário m. Bras. Feitor encarregado de registar o número e o peso dos diamantes encontrados.
Manjelim m. Peso com que, na Índia, se avaliavam os diamantes.
Monchão m. Veio de terra firme onde se encontram depósitos de diamantes.
Pucheiro m. Gír. Roubo de brilhantes à porta do teatro.
Senal adj. Diz-se do diamante inlapidado e muito pequeno.
Tabla adj. Diz-se do diamante que fica chato, depois de lapidado.

Ortografia: «rodoferroviário»

Pontes


      O semanário gratuito Sexta falava ontem das pontes sobre o Tejo. Uma curiosidade do texto: a ponte que liga Constância a Praia do Ribatejo «chegou a tomar o nome de Ponte de Punhete (de Pugna Tage, de “combate no Tejo”), o nome da vila de Constância até 1836». («Mais de metade das pontes sobre o Tejo são centenárias», Maria Lopes, Sexta, 1.2.2008, p. 3). Este combate, esta luta, refere-se ao encontro das águas do Zêzere e do Tejo, e não, como poderia imaginar-se, a memorável recontro de Lusitanos contra Romanos. Nesta mesma página, pode ler-se que a «ponte rodo-ferroviária de Alvega» é de finais do século XIX. Erro, ortográfico que não de cronologia, da jornalista: escreve-se «rodoferroviário».

Tradução


Estamos tantalizados


      Ontem, Matt James, dos Jardins por Medida (The City Gardener, no original), na Sic Mulher, concebeu e construiu um jardim em Glasgow. Lindo. Para delimitar as bordas dos caminhos (de Highland pebbles e Scottish cobbles) que se vêem na imagem acima, usou… Bem, usou o que se vê, e que na legenda se podia ler: «barrotes tantalizados»! A tradução é de Cristina Diamantino, da PSB. Primeiro: o que se vê ali não são barrotes*, mas postes. Um barrote é uma peça de madeira de secção reduzida, para soalhos, tectos, etc. «Tantalizados»? Experimentem ir ao Aki perguntar por «barrotes tantalizados». Na Postes Carmo, decerto a maior empresa de produção e comercialização de produtos similares, este material tem o nome de postes torneados. Como os postes para vinhas. Claro, «tantalizado» existe: vem de Tântalo, o da mitologia grega. Tantalizar é atormentar, fazer sofrer com o desejo de coisas impossíveis — como a tradução e a legendagem das séries e filmes serem decentes.


* Uma vez que os barrotes também se usam na construção de um telhado tradicional, recordo-me de, ainda recentemente, ter visto traduzida a expressão inglesa roof struts como «escoras da cobertura». Ora, nem todos os tradutores podem perceber de carpintaria como eu percebo, mas ainda há dicionários. Roof struts são as asnas do telhado.

Ortografia: «higiossanitário»

Ginjinha do Rossio

      Do Diário da República ao Diário Digital, passando pelo Público, pelo Jornal de Notícias e muitos outros jornais, lemos que a ASAE fiscaliza e fecha estabelecimentos por falta de condições «higio-sanitárias». O Diário de Notícias, pelo contrário, fala em «condições higiossanitárias». O Ministério da Agricultura fez mesmo publicar, certa vez, uma declaração de rectificação (a n.º 16-I/2000) só para dizer que em determinada portaria, onde se lia «higiossanitárias», devia ler-se «hígio-sanitárias». Não uma mas duas alterações. Para pior. Da autoria, parece, de algum adepto da grafia sónica, de má memória. Outro grupo de publicações segue uma quarta mas aproximada via: grafa «higio-sanitárias». Pois bem, desta vez o Diário de Notícias tem razão. Não vamos regatear-lha. Ah, sim: é assim, higiossanitário, porque higio é um antepositivo.

Tradução: «Aldis lamp»

Imagem: http://www.faradic.net/

Pestaneja


Caro A. M. L.: a «Aldis lamp» não é a lâmpada de Aladino. É um aparelho de sinalização visual, usado a bordo de navios e em aeroportos, para enviar mensagens em código Morse. É, basicamente, uma lâmpada portátil, como a imagem mostra, que certamente já viu em filmes. Tradução? Pois lâmpada Aldis. Ou lâmpada de sinalização diurna. O nome provém do inventor, o inglês A. C. W. Aldis (1878-1953). Em inglês tem também o nome de blinker, «que pestaneja», e o seu operador, signalman. E blinker porque o aparelho tem shutters, «persianas» (que na imagem se vêem abertas), assemelhando-se o todo a um olho gigante que pisca, pestaneja.

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