Léxico contrastivo: «logomarca»

Publicidade

«Carnaval é mesmo o momento chave para as empresas “desfilarem suas marcas” aos consumidores. Em um curto espaço de tempo, circulam pelo país quase 1 milhão de turistas, entre os quais 20 % de estrangeiros» («Festa regada a propaganda e desfile de logomarcas», Cláudia Dantas, Jornal do Brasil, 27.1.2008, p. E7). Segundo o dicionário Aulete Digital, «logomarca» é a designação que na publicidade se dá ao «conjunto do nome e de algum símbolo gráfico que constitui a representação visual de uma marca (de produto, empresa, etc.)».

Glossário escatológico


Língua viajante


      Em que outro país civilizado, ao fazer uma obra, se se verificava a meio, no fim ou passados seis meses que estava mal feita esta não era corrigida? A imagem mostra um desnecessário aviso sobre o que é cada coisa numa casa de banho numa área de serviço concessionada à Galp. Mas quem escreveu só tinha como referência o vocábulo «alcoolismo», daí — autocolismo. Vá lá, podia ter sido pior: o homem podia ter escrito «autocoolismo».


Aquela parte loc. Eufemismo de «merda».
Arriar a carga loc. Defecar.
Arriar o calhau loc. Defecar.
Arriar o pastel loc. Defecar.
Badalhocas f. pl. Prov. beir. e trasm. Bolas de excremento e terra, pendentes, como badalos, entre as pernas das ovelhas e carneiros.
Bestoiro m. Prov. trasm. Porção sólida de excremento humano.
Bloida f. Ant. Excremento.
Bolico m. Excremento de burro. O m. q. belisco, bolisco, bonico; bolico.Bolisco m. Prov. Excremento de burro.
Borrado adj. Sujo de fezes.
Boseira f. Bosta│Excremento mole das aves de capoeira.
Bosta f. O excremento de animais, como boi, cavalo, mais propriamente do boi.
Bosteira f. Bosta.│Acervo de bosta.
Bozerra f. Bras. Monte de excremento.
Burrisco m. Nome vulgar dado ao frago dos burros.
Buzeira f. Prov. trasm. Excremento mole de galinhas ou de outras aves grandes.
Buzeirada f. Prov. trasm. Grande porção de buzeira.
Buzeiro m. Pleb. Acervo de excrementos.
Caca f. Inf. Excrementos. Imundície.
Cagaçal m. Pleb. Sítio onde se deitam excrementos.
Cagalhão m. Pleb. Porção consistente de excremento.
Caga-merdeira f. Ant. Excremento.
Caganeira f. Evacuação descontrolada de fezes, geralmente muito pastosas ou líquidas; diarreia.
Caganita f. Pleb. Excremento de certos animais, em forma de pequeninas bolas.
Cascarria f. Excremento seco que se agarra à lã das ovelhas e ao pêlo de outros animais.
Castanha f. Chul. Excremento de burro.
Cerilhoto m. Prov. minh. Diminuta porção de excrementos sólidos humanos, recentemente expelidos.
Cíbalo m. Excremento duro e arredondado; escíbalo.
Cocó m. Inf. Excremento.
Coprófago adj. Diz-se dos animais que vivem de excrementos.
Coprólito m. Excremento fóssil.
Coprosclerose f. Endurecimento dos excrementos, nos intestinos.
Coprostasia f. Retenção dos excrementos; obstipação.
Corrença f. Ant. Diarreia.
Defecar v. int. Expelir naturalmente os excrementos.
Dejecção f. Evacuação de matérias fecais; as próprias matérias evacuadas.
Dejecto m. Matérias fecais evacuadas de uma vez.
Desarranjo m. Pop. Diarreia.
Diarreia f. Evacuação de fezes líquidas e abundantes, com aumento da frequência normal.
Escarnhida f. Gír. Excremento.
Escíbalo m. Excremento duro e arredondado.
Esfoura f. Trás-os-Montes. Diarreia, caganeira.
Estrabo m. Excremento de animais.
Fazer efeito loc. Defecar.
Fezes f. pl. Restos de produtos ingeridos que não foram aproveitados e resíduos que são eliminados pelo intestino.
Fluxo m. Soltura, corrença, diarreia.
Foeira f. Prov. beir. Diarreia, corrença.
Forrica f. Prov. minh. Dejecções quase líquidas.
Frago m. Estrabo, excremento de animais silvestres.
Giota f. Prov. dur. Excremento humano.
Grelos m. pl. Ter. de Algodres. O m. q. excrementos.
Larada f. Pop. Porção de excremento, um tanto líquido, soltura.
Merda f. Pleb. Matérias fecais; fezes que o intestino expele normalmente pelo ânus; excremento.
Merdança f. Pleb. Muitas matérias fecais; caganeira.
Merdimbuca f. Ofensa, ultraje, vulgar na Idade Média, que consistia em meter excrementos na boca de alguém.
Poia f. Pop. Acervo de dejectos.│Dejecção.
Pona-âmbar m. Excremento de certa ave marítima oriental.
Respo m. Gír. Excremento humano.
Rilhoto m. Prov. Pequena e dura porção de excremento.
Soltura f. Diarreia.
Sorete m. Bras. de gaúchos. Matéria fecal, quando dejectada em pedaços secos e duros.
Torcida f. Chul. Excremento em forma de torcida, duro e consistente.
Torcilhão m. Prov. Porção de excremento mais ou menos estriado ao sair do ânus.
Trampa f. Pleb. Excremento.
Zicheira f. Trás-os-Montes. Fezes líquidas; diarreia.

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Léxico contrastivo: «câmbio automatizado»

Ao rubro

Se for ao Brasil e lhe falarem de «câmbio automatizado», não pense logo que lhe estão a falar de máquinas ATM de câmbio. É de outra coisa que se trata. «É preciso estar muito atento às mudanças feitas pela Fiat no Stilo. Até porque o face lift é dos mais discretos. A plástica atingiu a grade frontal, as lanternas traseiras, um pouco mais de dobras na porta de trás e frisos cromados nas laterais. A grande modificação veio mesmo com a introdução do câmbio automatizado Dualogic, desenvolvido pela Magnetti Marelli» («Stilo ganha câmbio automatizado», Antonio Puga, Jornal do Brasil, 26.1.2008, p. V3). É mesmo a nossa caixa de mudanças automática. O jornalista explica: «Ou seja, um dispositivo eletrônico capaz de acionar a embreagem e mudar as marchas sem interferência do motorista.» Claro que do francês embrayage fizemos embraiagem e entre os que conduzem distinguimos, pelo menos, condutores e motoristas. E já tivemos chaufeurs, os finos, e choferes, os outros. Modas. Em França, originariamente, o chaufer era aquele que puxava o cambão (branloire, em francês) dos foles das forjas, para insuflar mais ar e assim pôr o metal ao rubro.

O apelido «Marinho»


Isto é com ele

Alguns nomes têm má sina. Quem ouve rádio e vê televisão, pouco que seja, já se deve ter dado conta de que o primeiro apelido do actual bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. António Marinho e Pinto, se pronuncia /Màrinho/, como se se tratasse do diminutivo do nome próprio Mário. Ora, acabei de ouvir nas notícias das 9, na Antena 1, dois jornalistas, José Guerreiro e Nuno Rodrigues, pronunciarem /Marinho/, como quem fala do fundo marinho. E mais: disseram «Marinho Pinto». Contudo, o «e» liga indissoluvelmente os dois apelidos. Nos anos 80, deu-se o invés: durante meses a fio, o primeiro-ministro era «Cavaco e Silva». Sempre ao contrário.

Acordo Ortográfico: nomes próprios

Isto é comigo

      Numa escola muito bem cotada, dessas que estão no «ranking», disseram-me ontem, uma professora já avisou os alunos de que estamos a entrar numa fase transitória, como aconteceu com a adopção do euro, quis precisar, em que as pessoas cujo nome começa com h devem abolir este. Uma aluna mais atenta até reteve uma informação suplementar: o verbo haver também vai perder o h. Aver. Que lá se avenham. Só acharia que era uma anedota se não confiasse na pessoa que me contou e se — principalmente, confesso — não tivesse lido já este ano uma consulta ao Ciberdúvidas em que um médico, Hugo Pacheco, perguntava se o seu nome continuaria a escrever-se da mesma forma. Uma professora, um médico (e também professor, se se trata da mesma pessoa que é assistente convidado no Departamento de Ciências Médicas da Universidade da Beira Interior)… Se se tratasse, sei lá, de uma cabeleireira aqui de Benfica, eu ainda perdoava. Assim, só me apetece emigrar. No meu caso, a mudança teria efeitos retroactivos e, digamos, genésicos: eu, que sou o filho mais novo, passava a ser o mais velho: Elder. Pior seria para o poeta Erberto Elder, coitado. Seria quase um heterónimo. O País está maluco, doente. E não se vai curar com estes médicos.

Erro em título de filme


Espera lá…

A leitora Patrícia Fernandes acabou de me comunicar que é hoje a estreia do filme Daqui p’rá Frente, de Catarina Ruivo. Não quero ser desmancha-prazeres, ou, tendo em conta que talvez vá haver beberete, aguafiestas, como dizem os Espanhóis — mas o título tem um erro. Devia ser «prà» ou, se quiserem insistir na excrescência, «p’rà». Fica a publicidade, o aviso e um desejo: o de que o guião não tenha muitos erros de português.

Legendas e variações diatópicas


Então?

Na semana passada, vi, no Jornal das 12, na RTPN, parte de uma reportagem sobre a agricultura em Moçambique. Entrevistaram pelo menos dois moçambicanos e um holandês, e todos falavam português. E bem, devo dizer. O som era perfeitamente audível, não havia ruído ambiente. Nem sequer o barrido de um elefante no horizonte auditivo. Nada. Pois ainda assim, e não é a primeira vez que assisto a tal, na RTPN acharam que as falas dos entrevistados precisavam do amparo salvífico das legendas, porque o telespectador, essa criatura ignorante e surda, não compreenderia. Não sei porquê. Nunca vi legendas quando quem fala é açoriano e tem um sotaque (as variações diatópicas de que falam Celso Cunha e Lindley Cintra, e, no caso, o dialecto micaelense) tão umbrosamente cerrado que eu — nada de melindres nem ressentimentos, meus irmãos — não percebo, com toda a boa vontade e ouvidos atentíssimos. Ia acabar com «se calhar, sou eu que não percebo nada», mas não o faço, não vá alguém concordar. Não é?

Léxico contrastivo: «córrego»

Poesia


      Contrastivo no uso, é claro, pois a palavra é bem portuguesa. Aqui, deverá ter sido inspiração de jornalista mais proclive a arroubos poéticos. Deixá-lo, as palavras fazem-nos falta. «Cerca de 300 famílias da região da Fercal, próximo a Sobradinho II, deverão ser retiradas das áreas de risco. As áreas foram identificadas pela Defesa Civil do Distrito Federal como de risco para a segurança da população que vive no local e estão localizadas próximas a encostas e ao leito do rio» («Chuva ameaça a segurança de famílias à beira de córrego», Lais Lis, Jornal do Brasil, 24.1.2008, p. R6). O único córrego que os Portugueses conhecem actualmente — e maiusculizado — é Manuel Córrego, autor de obras com títulos tão mansos como Nem Putas nem Ladrões. No contexto, córrego é o curso de água.

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