Tradução: «rebranding»

Outra imagem

Está duplamente motivado, este texto. Por um lado, devo regozijar-me por ver que alguns jornais começaram a fazer acompanhar, ainda que não, como preconizei, sistematicamente, alguns estrangeirismos que querem ou têm de usar do respectivo significado. Eis um exemplo do Diário de Notícias: «Porém, a Optimus reivindica para si o maior rebranding (alteração de imagem) alguma vez feito em Portugal» («“Nova” Optimus veste jornais de laranja por 32,4 milhões», P. B., 10.1.2008, p. 61». Por outro lado, a mesmíssima palavra — rebranding — apareceu numa tradução. «Was independence nothing more, he asked, than a rebranding of essentially the same product?» O tradutor quis que fosse: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera contrafacção do mesmo produto.» O conceito no âmbito do marketing é este: «Também chamado de reposicionamento, o rebranding é o processo pelo qual um bem ou serviço de uma empresa, com uma determinada marca, é apresentado ao mercado com uma nova identidade» («O que é o rebranding?», António Melo, ver aqui). Assim, dado que não se depreende da definição qualquer carga valorativa, isto é, embora a mudança seja, naturalmente, para melhor, esse é um aspecto que não está na definição, o significado dado pelo jornalista do Diário de Notícias poderá servir de tradução. Ora experimentemos: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera alteração de imagem do mesmo produto.» Perfeito.

Onomatopeias

Whoosh!

A par das interjeições, assunto já aqui tratado, a tradução das onomatopeias oferece igualmente algumas dificuldades. Desta vez, tratava-se da tradução — se se deve traduzir — de whoosh, que é a onomatopeia para ar a ser rasgado por objecto em velocidade. Dizia mais, o original: whoosh of flame. O tradutor optou, decerto depois de muito pensar, por «foguete de chama», que não me parece mal. Contudo, mesmo aqueles, como eu, que leram pouca banda desenhada, já alguma vez usaram um som semelhante para descrever um fluxo de fogo, uma seta a cortar o ar... Se tivéssemos de escrevê-lo, como o faríamos? «Uuuche!»? Parece mais para afugentar galinhas.
Algumas destas vozes imitativas já estão dicionarizadas, como ferrum-fum-fum, para os harpejos da viola, catrapus, para a queda de objectos ou pessoas, chape, ruído do que cai na água, pafe para o ruído de algo a cair, pumba, para uma pancada, rantamplã, para o som de um tambor, rufe-rufe, para o som produzido pelas polpas dos dedos ao raspar por uma superfície (pele de bombo, vidraça, etc.), ruge-ruge, para o rumor de saias que roçam pelo chão, rupe!, para o ruído do varrer, ramerrão, para um ruído sucessivo e monótono, tau, para um ruído seco como um tiro ou pancada, zás, para o ruído de uma queda ou pancada, etc. Deixo algumas — ou simples conjuntos de fonemas ou, como as que citei, palavras — usadas em obras de autores portugueses.

Catrapus.
«Um turista suíço enrola-se num tapete persa e fica deitado ao comprido a fazer-se de morto, as meninas do colégio vinham correndo de narizitos no ar, catrapuz!, encalham no suíço atapetado de persa, estatela-se a primeira fila, depois a segunda, a terceira, assim sucessivamente», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Dlom.
«Desdobrou o lenço branco, limpou o suor, reparou que tinha a viola em posição de afinar, continuou: dlom, dlom…», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Pssst.
«Pssst…», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Rrrooommm.
«E o rio, o ladrão, parece que se ouvia subir — rrrooommm! rrrooommm! — e a ameaçar as pessoas mesmo quase à porta das casas», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Splakshhh.
«Deu um berro e um salto espavorido, com tanto azar que, na aterragem, os seus noventa quilos, concentrados no calcanhar que primeiro pousou no chão, desfizeram, com um splakshhh tétrico de cartilagens esmigalhadas, a cabeça do ofídio, que se esgueirara pacatamente da sua cesta redonda que tinha ficado mal fechada e da varanda, para se vir alapardar daquele lado da cama», Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira.

Terrim.
«O terrim da campainha, imperativo, ia-os acanhando», Tomaz de Figueiredo, Dicionário Falado.

Tlintlim. «Ouviu este tlintlim? É a bateria do meu telemóvel a dar o peido mestre», Mário Zambujal, Primeiro as Senhoras.


Truz.
«Disse “vou já, é só um minuto, estou-me a vestir”, mas quem esperava do outro lado insistia, truz truz truz, por que diabo é que as mulheres se lembram sempre desta desculpa, deve ter pensado, pelo menos se se tratava de um homem», Jacinto Lucas Pires, Para Averiguar do seu Grau de Pureza.


Tuca-tuca-tuca
e zás. «Os pais sentem sempre culpa nestas coisas, culpa que geralmente mascaram com zanga, do tipo, não te disse para não fazeres isso?, não te disse para não pores ali a mão?, não te disse para não ires sem mim? […] Tuca-tuca-tuca, areal fora no meu calçanito de favos (havia uns lindos nos anos sessenta), rum ao azul da maré baixa, dois ou três passos nas ondas tépidas e zás, uma dor lancinante» («O banho do pintainho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias/Notícias Magazine, 13.4.2008, p. 12).


Zzzzzz.
«Silvino envolve a mão num lenço de quadrados azuis, agarra a alavanca, dá uma mirada em redor, ninguém deste lado, ninguém daquele, puxa de leve, piram-se cinco abelhas a experimentar o voo, zzzzzzz, zzzzzzz, somem-se na direcção do Egipto, não tarda nada ouvem-se os primeiros gritos, gritos dilacerantes, de cortar o coração, e rebenta o cagaçal de pés em correria», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.

Tradução: «disclaimer»

Avisos

O leitor Miguel Gomes, a quem agradeço as palavras iniciais da sua mensagem, quer saber o que penso sobre a tradução do termo inglês, usado abundantemente na Internet, disclaimer. Depois de transcrever a inepta definição do Michaelis Moderno Dicionário Inglês, cita a que se lhe afigura melhor tradução, que encontrou num site que não identifica: «cláusula de desresponsabilização». Esta é, de facto, a expressão proposta e largamente usada para traduzir aquele vocábulo inglês. Contudo, não concordo. Há aí claramente exagero: nunca podia haver desresponsabilização, mas somente limitação de responsabilidade, que não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo. Assim, entre não usar qualquer aviso nesse sentido (a lei geral cobre convenientemente a situação) e ter de usar algum, usaria, sem qualquer dúvida, «termo de responsabilidade», ou «aviso», ou «aviso legal». Mas que se use, usem. Afinal, também no futebol para cegos, sabia?, se usam vendas nos olhos dos jogadores.

Léxico contrastivo: «estilingue»

Imagem: http://caixadelata.blogspot.com/

Os pardais não gostam


«A greve dos roteiristas americanos tem deixado Akiva Goldsman, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro por Uma mente brilhante (2001), em situação embaraçosa: é como se estivesse de braços cruzados contra ele mesmo, por ser produtor e autor do roteiro de Eu sou a lenda (milionário exercício de ficção científica dirigido por Francis Lawrence e estrelado por Will Smith, que chega hoje aos cinemas brasileiros)» («O drama de ser estilingue e vidraça ao mesmo tempo», Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil, 18.1.2008, p. B3). É a nossa funda ou fisga, a que os Brasileiros também chamam atiradeira, badoque, bodoque e baladeira.

Como se escreve na televisão

Quinta coluna da iliteracia

      Como articulista que é, o escritor e historiador Rui Tavares tem de falar de quase tudo. É multímodo, prolífico, mirífico. Ontem, na Edição da Noite, na Sic Notícias, lá estava ele com José Adelino Maltez e Rui Oliveira e Costa, o director da Eurosondagem, a discutir — porque é mesmo muito discutível — o projecto de lei do PS e do PSD que altera a lei eleitoral autárquica. Por duas vezes, em rodapé, apareceu «Rui Tavares — colonista». Ora, colonista é o que se dedica a questões coloniais, e tal é ofensivo para Rui Tavares, colunista de tudo. Mas os operadores de insersor de caracteres não têm de saber ler?

Tradução: «best-seller»

Eis a resposta

   Há já muito tempo, alguém escrevia noutro blogue a propósito da tradução ou aportuguesamento de termos como bestseller, copydesk, e layout: «Mas perguntemos ao blogueiro Helder Guégués (Assim Mesmo — http://letratura.blogspot.com/) o [que] ele acha disso.» Passados dezanove meses, e sem pressas, pois que a pergunta não me foi feita directamente, eis a resposta em relação a bestselller: ainda recentemente, revi uma obra em que se podia ler no original: «In a 1,400-page best-selling textbook for medical students, lip service is paid in the first chapter to the doctor-patient relationship, before the book gets down to the real business of the human organism.» Insinua-se por aqui a palavra bestseller? A tradutora, Maria Carvalho, não achou necessidade de recorrer à palavra inglesa: «Num manual de grande venda, com cerca de 1400 páginas, destinado a estudantes de Medicina, fala-se no primeiro capítulo da relação médico-doente, mas apenas em termos formais, antes de se entrar na verdadeira questão, o organismo humano.» (Porque Adoecemos?, Darian Leader e David Corfield, Editorial Bizâncio, Janeiro de 2008.) Quem perguntava fazia-o, afirmava, «pela necessidade do termo». Qual necessidade?

«Evocar» e «invocar»

Todos os santinhos

      Como já é a segunda vez numa semana, decido-me: os verbos evocar e invocar não são inteiramente sinónimos. Ontem, no frente-a-frente do Jornal das 9 da Sic Notícias, Helena Roseta disse «evocar argumentos». Há poucos dias, foi um tradutor, que pretendeu que uma personagem «dificilmente podia evocar desconhecimento da decisão» («could hardly protest to be innocent of the decision», no original). Vamos lá ver: posso, se me apetecer, evocar alguém que invocou algo. Invocar tem como étimo o latim invocare e significa implorar a protecção ou o auxílio, fazer súplicas, chamar em seu socorro, pedir, rogar, suplicar. Como também significa alegar em seu favor, recorrer a. Assim, invocamos a protecção de Santa Bárbara, especialmente se estiver a trovejar, e depois esquecemo-la ingratamente, e invocamos desconhecimento da lei — e não ganhamos nada com isso, pois que a lei, sábia, já prevê que «a ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas». Evocar também vem do latim e significa chamar de algum lugar, fazer aparecer, chamando por meio de esconjuros, invocações ou exorcismos; trazer à lembrança. Assim, podemos evocar o Diabo, e, embora no respeito da gramática, arrepender-nos-emos. E podemos evocar a nossa bucólica infância à beira do Sado (e se julgam que estou a falar de mim, enganam-se).
      O Livro de Estilo do Público alerta sucintamente: «Evocar/invocar — São quase sinónimos, mas em certas expressões fixou-se um deles: evocar o passado (recordar, reproduzir na mente); cerimónia evocativa; evocar os espíritos (chamar para que apareçam); invocar a Virgem (chamar em auxílio); invocar o perdão (suplicar); invocar um testemunho (recorrer a ele).»

Regência do verbo «responder»

Respondo

O leitor Jeová Barros, brasileiro, pediu-me que explicasse a regência do verbo responder. Como não especifica a dúvida que tem, parto do princípio de que se trata da questão da regência deste verbo como transitivo directo e indirecto e como transitivo indirecto. Assim, pode-se responder alguma coisa a alguém, e será o primeiro tipo de regência que usamos, e pode-se responder a alguém ou a alguma coisa, e estaremos a usar o segundo tipo de regência. Contudo, não quero deixar de transcrever uma nota final do verbete relativo a este verbo no Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes (Editora Globo, São Paulo, 36.ª edição, 1989, p. 522): «Carlos Góis (Sint. reg., 86) diz que se pode construir indiferentemente responder a carta ou à carta. Mas a leitura dos bons exemplos da língua demonstra que a melhor sintaxe é aquela em que responder “rege acusativo daquilo que se responde, e dativo daquilo ou daquele a que se responde”. (E. C. Per., Gram. hist., 326.) Vem a pêlo, ainda, transcrever aqui a lição de Cândido Lago sobre a regência deste verbo: “Convém dizer corretamente — ‘Respondendo ao vosso ofício…’ ‘respondendo à sua carta de’, etc., etc. Aquilo que a pessoa responde é que é o objeto directo; mas o ofício ou a carta a que a pessoa responde é objeto indireto; por exemplo: — ‘Que respondeste tu ao ofício do diretor?’ — ‘Ao ofício do diretor respondi que o pretendente não estava…’ Vê-se claramente que o objeto direto de ‘respondi’ é a cláusula substantiva seguinte: ‘que o pretendente não estava…’” (C. Lago, O que é correto, 53).»

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