Pronúncia: «Reading»

He is a man of wide reading

Acabei de ouvir o noticiário das 8.30 na Antena 1. Nas notícias do desporto, ao falar dos resultados da Primeira Liga inglesa, o jornalista referiu-se ao jogo Reading-Tottenham, pronunciando o primeiro destes nomes como se se tratasse de uma forma do verbo inglês to read. Nada mais errado: Reading, o topónimo (e o mesmo se aplica ao antropónimo), lê-se /Réding/. Claro, são coisas básicas, mas no momento da verdade o escorreganço é confrangedor. E fica mal a um jornalista. Em tempos de televisão por cabo, com a Internet, esqueçam Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: — todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» Se as temos de falar, façamo-lo com o mínimo de proficiência.

Léxico contrastivo: «quilombola»

Outros guetos

Já aqui falei, a propósito do bairro lisboeta da Madragoa e do Convento das Trinas, erigido numa zona chamada Mocambo, dos quilombos. Hoje é a vez dos quilombolas, que são os escravos refugiados num quilombo. «Concebidos como forma de luta e resistência, os quilombos devem ser considerados uma criação original do negro escravizado no Brasil e contrapõem-se à versão de que o cativeiro foi aceito com resignação. A Lei da Terra, de 1850, proibia que descendentes de quilombolas assumissem a posse das áreas onde viviam. Só em 1988 a Constituição revogou a proibição, tornando responsabilidade da União a garantia da posse aos remanescentes» («A questão quilombola», Ivaldo Ananias da Paixão, O Povo, 20.11.2007, p. 5).

Léxico contrastivo: «engavetamento»

Bem encaixados

      «O engavetamento de três ônibus e quatro veículos de passeio próximo ao vão central da Ponte Rio-Niterói, no sentido Rio, obstruiu o trânsito niteroiense em todas as vias de entrada da cidade e atingiu ainda o município vizinho, São Gonçalo, na manhã de ontem. Segundo o chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Ponte Rio-Niterói, inspetor João Santos Gama, o acidente ocorreu por volta das 7h40min e deixou 22 pessoas feridas» («Engavetamento pára a Ponte Rio-Niterói», Jornal do Brasil, 15.1.2008, p. A12). Na definição do dicionário Aulete Digital, engavetamento é a «colisão que, pela violência do choque, deixa veículos encaixados uns nos outros».

Léxico contrastivo: «escanteio»

Mau futebol

«Os idosos, que antes entravam de graça no PV [Estádio Presidente Vargas], passaram a ter o direito questionado. A confusão na interpretação da lei tem deixado vários deles fora dos estádios em 2008» («Idosos para escanteio», Ciro Câmara, O Povo, 13.1.2008, p. 14). Bom jogo de palavras: «escanteio» é termo futebolístico equivalente ao nosso pontapé de canto e, ao mesmo tempo, na linguagem popular, o acto de abandonar alguém.

Léxico contrastivo: «jegue»

Um burro com outro nome

«Na sua campanha para a reeleição para a Presidência em 1998 na região, FH [Fernando Henrique] colocou um chapéu de couro e montou num jegue. Deu certo. Corre a história de que Serra viu uma galinha viva pela primeira vez durante a malsucedida campanha de 2002. Um jegue é bem maior, sabe o tucano. E Bob terá de arrumar um» («Procura-se um jegue para Serra», Leandro Mazzini, Jornal do Brasil, 12.1.2008, p. A4). O jegue (termo registado no meu glossário dos equinos e asininos, aqui) é o nosso jumento.

Glossário: festas da Antiguidade

Festas da Antiguidade


Alétidas f. pl. Festas atenienses em honra de Erígona, filha de Ícaro.
Ambarvais f. pl. Festas celebradas em Roma e noutras cidades latinas, destinadas a chamar a protecção dos deuses, principalmente de Ceres, sobre a terra, de modo que se afastassem os furores de Marte e as colheitas fossem boas e os campos férteis.
Ateneias f. pl. Festas que se celebravam na antiga Grécia, em honra de Atena, a Minerva grega.
Canefórias f. pl. Festa pagã que na Grécia antiga se celebrava em honra de Diana, Ceres e Baco, em que mulheres levavam à cabeça açafates com objectos para os sacrifícios e oferenda aos deuses.
Caprotinas f. pl. Festas que, em Julho e entre os antigos Romanos, se celebravam em honra de Juno.
Compitais m. Festas romanas, em honra dos deuses Lares das encruzilhadas das ruas ou caminhos.
Deipnofórias f. pl. Festas das corridas instituídas por Teseu no seu regresso a Creta, onde matara o Minotauro.
Délias f. pl. Festas que na Grécia antiga se celebravam de cinco em cinco anos, em Delfos, e em honra de Apolo, que aí nascera.
Florálias f. pl. Antigas festas em honra de Flora, que se celebravam em Roma, na Primavera.
Fontanálias f. pl. Festas celebradas em Roma a 13 de Outubro de cada ano, em honra das ninfas das águas; celebravam-se no monte Celius.
Fontinais f. pl. Festas que se celebravam em honra das ninfas das fontes.
Junónias f. pl. Antigas festas em honra de Juno.
Juturnais f. pl. Festas romanas em honra de Juturna.
Lacedemónias f. pl. Festas de Esparta, feitas pelas mulheres, com exclusão dos homens.
Lamptérias f. pl. Antigas festas, com iluminações, em honra de Baco, depois das vindimas.
Latinas f. pl. Festas em honra de Júpiter, que os Romanos celebravam no Lácio.
Lupercais f. pl. Festas da Roma antiga, em honra de Pã, deus dos rebanhos e dos pastores.
Pacalias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra da paz.
Paganálias f. pl. Antigas festas em honra de Ceres, também chamadas paganais.
Palília f. Festa dos pastores em honra de Palés e que se celebrava em Roma a 21 de Abril, aniversário da fundação da cidade.
Parentais f. pl. Festas fúnebres anuais em memória dos parentes mortos.
Parílias f. pl. Festa que as damas grávidas da antiga Roma celebravam para terem partos felizes.
Portunais f. pl. Antigas festas romanas em honra de Portuno, deus dos portos.
Prometeias s. f. Festas anuais que se celebravam em Atenas em honra de Prometeu.
Quinquátrias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, durante cinco dias, de quatro em quatro anos, em honra de Palas.
Ramálias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra de Ariadne e de Baco, e nas quais se levavam cepas de videiras carregadas de cachos de uvas.
Regifúgio m. Festa anual celebrada na antiga Roma, a 24 de Fevereiro, em comemoração da expulsão dos Tarquínios.
Robigálias f. pl. Festas em honra de Robigo, que se celebravam na antiga Roma a 25 de Abril, época em que os trigos estão em flor e começam já a formar-se as espigas.
Sabázias f. pl. Antigas festas de Gregos e Romanos em honra de Baco e de Júpiter.
Sáceas f. pl. Festas que se celebravam na Pérsia antiga e durante as quais os escravos mandavam nos amos.
Sarónias f. pl. Festas celebradas em Trezena, todos os anos, em honra de Diana.
Septimátrias f. pl. Antigas festas romanas que se celebravam em honra de Minerva, no sétimo dia depois dos idos.
Sotérias f. pl. Festas que os Antigos celebravam em acção de graças aos deuses por se verem livres de algum perigo ou, especialmente, de alguma epidemia.
Targélias f. pl. Antigas festas áticas que eram celebradas em honra de Diana.
Vacunais f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra de Vacuna, principalmente entre as populações de origem sabina.
Venerais f. pl. Festas romanas que eram em honra da deusa Vénus.
Vestálias f. pl. Antigas festas pagãs em honra de Vesta.
Vicenálias f. pl. Festas que na antiga Roma se celebravam de vinte em vinte anos, em geral de carácter religioso, que, por decisão do Senado, tinham por fim implorar aos deuses a conservação da saúde do imperador.
Vinálias f. pl. Nome dado, na antiga Roma, às festas que se celebravam em Setembro, no começo da vindima, e em Maio, quando se procedia à prova do vinho novo.
Vulcanais f. pl. Festas anuais que se celebravam em Roma, a 23 de Agosto, em honra de Vulcano.


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Explicação de um topónimo: Maias

A razão de um nome

O historiador Joaquim Boiça (autor do projecto museográfico do farol-museu de Santa Marta) lembra, no Oeiras Actual, boletim municipal de Oeiras, a hipótese explicativa do nome do forte de S. João das Maias. «S. João das Maias, esporão rochoso e fortificação, há muito que são uma referência na paisagem ribeirinha de Oeiras. Do nome que exibem não se sabe, ao certo, a origem. O de “Maias”, enten­da-se. O do santo, esse, não suscita grandes interrogações: é o padroeiro da segunda fortificação que se ergueu neste sítio, após a Restauração de 1640, em honra do qual se levantou, em ano incerto, altar e capela própria. Sacra invocação, qual escudo es­piritual, que não defendia as muralhas e os artilheiros das balas inimigas, mas que nenhuma fortaleza ou exército dispensava de possuir. Porquê S. João, em particular, está por saber com rigor. Quanto ao nome “Maias”, houve quem alvitrasse que derivaria da existência e captura no local dos característicos crustáceos que cientificamente trazem esta designação (maias) e que a voz po­pular chama de santolas. Não sendo improvável, fica muita coisa por explicar, desde logo a presença, necessariamente significati­va, de colónias destes crustáceos, pouco dados a aparecer junto a penedias costeiras, a não ser quando, por razões que a razão des­conhece, como foi recentemente testemunhado em local próximo, têm derivas colectivas e resolvem, simplesmente, dar à costa...» («As Maias — Fortes e Crustáceos», Joaquim Boiça, Oeiras Actual, n.º 180, Dezembro de 2007, p. 26). De facto, a maia é um género de crustáceos decápodes da família dos Majidae (José Pedro Machado escreveu «Maiídeos», que não vejo usado em mais lado nenhum), que conhecemos vulgarmente como santola ou centola.

Léxico contrastivo: «pitboy»

Como cães

«A decisão do juiz Joaquim Domingos de Almeida, do 9.º Juizado Especial Criminal do Rio de Janeiro, que proibiu seis redes de TV e quatro jornais de divulgar os nomes de dois adolescentes que agrediram um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca, em novembro de 2007, foi criticada ontem pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). Além de omitir os nomes, os meios de comunicação, não podem veicular imagens dos agressores, que foram condenados a trabalhar na limpeza urbana» («ANJ critica proteção a pitboys da Barra», Jornal do Brasil, 11.1.2008, p. A12). Em vão tentamos saber, pela notícia, o que são os «pitboys» do título. Serão, suspeitamos, aqueles adolescentes, e por aqui ficamos. O dicionário Aulete Digital, que tão útil é na definição de neologismos, não nos ajuda nesta ocasião.
Encontramos, contudo, um texto do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos, intitulado «Recepção lingüística: o caso dos neologismos lexicais», da autoria de Shirley Lima da Silva Braz, em que se pode ler: «Ilustra-se essa produtividade lingüística com o uso recente do prefixo “pit”. Originário da palavra pitbull, que designa uma raça de cachorros em geral violenta, foi aproveitada a parte inicial “pit” para a formação de “pitboy”, vocábulo que designa rapazes agressivos de classe média, que fazem valer sua vontade pela força física. Esse prefixo é, sem dúvida, um caso interessante. Daí, já surgiram “pitmamãe”, “pitpapai”, “pitfamília” (O Globo, 04 de abril de 2004) e já se encontra um novo vocábulo — derivado semanticamente de pitboy: Cristoboys (Extra, 13 de junho de 2004), ou seja, manteve-se a parte final (boy), juntando-se o prefixo Cristo, para designar jovens musculosos, parecidos fisicamente com os pitboys, mas que são evangélicos.»

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