Clientes e fregueses

Crenças


      A palavra inglesa customer, que se traduz por «freguês», fez-me lembrar a questão de esta palavra, na opinião de alguns, ser muito mais vernácula do que «cliente», que vem directamente do inglês client. Certo, mas a etimologia de «freguês» leva-nos igualmente a pensar nos caminhos ínvios da vida das palavras, na semântica. «Freguês», vem, sabia o leitor?, de fili Ecclesiae, ou seja, filho da Igreja. De modo que um freguês era, originariamente, isso mesmo: um filho da Igreja, um paroquiano. Por vezes, brinco com um vizinho homeopata que tem um consultório. Se vejo aproximar-se um cliente, digo-lhe: «Aí tem mais um crente, amigo.» «Cliente» tem boa estirpe: vem do latim, através do inglês, cliens,clientem, que era o indivíduo que estava sob a protecção de cidadãos poderosos ou patronos.
      Já depois de publicado este post, o leitor Manuel Resende lembrou-me que em inglês patron (que vem do latim, pois claro, patronus, étimo do nosso «patrão») significa «cliente habitual». Mais circular não podia ser.

Léxico: «praticidade»

Faz falta

Enquanto cá nos interrogamos se existe algum nome derivado do adjectivo «prático», no Brasil usam-no sem remorsos: «Gatos: opção que ganha fôlego por sua praticidade», Felipe Sil, Jornal do Brasil, 10.1.2008, p. R6).

Léxico: «premiação»

Galardão

«Desiludidos com a lista de pré-selecção à nomeação ao Óscar de Melhor Documentário anunciada pela Academia de Hollywood em Novembro, o documentarista AJ Schnack, a distribuidora independente online IndiePix e um grupo de programadores de festivais de cinema dos EUA e do Canadá decidiram lançar uma nova premiação destinada aos documentários, e alternativa às estatuetas» («Premiação documental alternativa à dos Óscares criado nos EUA», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 9.1.2008, p. 50). É muito bom renovar o léxico, mas tenho sérias dúvidas de que o vocábulo «premiação» seja usado com propriedade na frase. É que «premiação» é o acto ou efeito de premiar e a própria entrega — não um sinónimo de «prémio», como «galardão», por exemplo. Mas fico a reflectir nisso.

Os erros do canal Panda

Natal sem gramática

No episódio de ontem do Ruca II, no canal Panda, comemorava-se, atrasado, o Natal. No infantário, ficámos a saber algumas particularidades da forma como cada miúdo — a turma é multiconfessional, como muitas escolas em Portugal o são actualmente — celebrava a quadra. Vejam quão educativo pode ser um episódio: «Em casa dos gémeos Jaime e Jorge decoram a árvore de Natal com pipocas. Às vezes não haviam pipocas suficientes.» Já aqui iniciei campanhas contra atentados semelhantes à língua portuguesa, e alguns, como os de jogos à venda nos hipermercados Feira Nova, com êxito. Peço aos meus leitores que enviem uma mensagem de protesto para o canal Panda, como eu próprio vou fazer: panda@canal-panda.com.

Léxico contrastivo: «tensionar»

Provocar tensão

«Cartaxo disse ao O POVO, momentos antes da plenária, que o grupo deverá tensionar a nova diretoria, especialmente no que diz respeito a uma das grandes divergências dos então candidatos para o comando do PT no Ceará no final de 2007: a manutenção da aliança PMDB, PSB e PT no bloco de aliança no Estado» («Cartaxo promete tensionar debate», Marcela Belchior, O Povo, 7.1.2008, p. 15). Lê-se, por vezes, em especial em textos técnicos, o verbo tensionar («tensionar uma mola», v. g.), que, à primeira vista, só tem contra si o facto de se poder confundir com tencionar. O francês tem o verbo tensionner. No exemplo do jornal brasileiro, todavia, não se vê que «tensionar» seja mais explícito que «pressionar», por exemplo. É um neologismo quase sempre dispensável.

Como se escreve na imprensa

Sinos e prestações

Vejam este título da edição de hoje do Meia Hora: «Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano». Inequívoco e gramaticalmente correcto: alguém, um país, vai mandar um sino para o espaço. Nada de mais. Aliás, uma cadela não é mais do que um sino. Claro que não deixamos de nos perguntar para quê, mas por vezes a ciência é insondável. Logo o primeiro parágrafo da notícia, porém, nos despersuade de que uma cadela não é mais do que um sino: «Pequim anunciou os seus planos espaciais para 2008, em que deverá lançar 15 foguetões, pôr em órbita 17 satélites e promover a sua terceira missão tripulada, que vai incluir o primeiro passeio espacial por parte de um astronauta chinês, informou ontem a agência de notícias oficial» («Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano», Meia Hora, 9.1.2008, p. 12). Sino é um antepositivo, um elemento de composição, não pode andar por aí à solta como uma gaivota.
E se tivéssemos mais cuidado com o que escrevemos, não seria melhor? Logo um dos títulos da primeira página é de arrepiar: «Pensões de reforma: aumento atrasado, curto e pago às prestações deixa oposição à beira de um ataque de nervos». «Às prestações»?

Léxico contrastivo: «síndico»

Uma espécie de advogado

«Moradora e ex-síndica, Otilde Bandeira só lamenta que o raro indicador de andares em forma de relógio, que fica em cima da porta, tenha quebrado no ano passado. “Foi uma loucura conseguir o conserto”» («Sobe e desce», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. A16). Vem do grego σύνδικος (syndikos), «advogado, representante», a que pertence também o vocábulo «sindicato». No Brasil, é a pessoa que administra um condomínio, geralmente, como em Portugal, um condómino. Os Portugueses conhecem a palavra das telenovelas. Corresponde ao nosso administrador.

Tradução

Fitas e adesivos

Na Sic Mulher, na série inglesa Animal Hospital, tão reveladora da singularidade dos Ingleses, dois adolescentes levaram uma periquita, a Snowy, ao veterinário. Tinha, viu-se depois bem na radiografia, uma pata fracturada. Rolf Harris (australiano a viver desde 1952 no Reino Unido), o apresentador do programa, perguntou à veterinária se ia usar talas, ao que ela respondeu que usaria tape, que tanto significa «fita-cola» como «adesivo». No contexto, contudo, só poderia traduzir-se por adesivo, e foi isso que vimos, e não é preciso ser-se veterinário ou alveitar para perceber porquê. Na legenda, lemos, com espanto e incredulidade, que usaria fita-cola. Coitado do pássaro. E do tradutor, que trabalha para a Pluridioma.

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