Como se fala na rádio

Capit_ _s de Abril

      No noticiário das 21 horas de ontem na Antena 1, o jornalista Daniel Belo disse, convictamente e na sua bela voz, que «Luisão é um dos capitões da equipa».
      Primeiro a gramática. É verdade que a maioria dos substantivos terminados em -ão pluraliza, por razões etimológicas, em -ões. (É neste grupo, não esqueçamos, que se incluem os infindáveis aumentativos.) Não é neste grupo, porém, que se encaixa «capitão». Há depois um grupo, reduzido, de substantivos em -ão cujo plural não está definitivamente fixado, como é o caso, por exemplo, de «aldeão», com dois plurais: aldeãos e aldeães; de «ancião», com três plurais: anciãos, anciões, anciães; de «ermitão», etc. Também não é a este grupo que pertence «capitão». «Capitão» faz parte de um grupo, igualmente reduzido, de substantivos que pluralizam em -ães:

alemão/alemães;
bastião/bastiões;
cão/cães;
capelão/capelães;
capitão/capitães;
catalão/catalães;
charlatão/charlatães;
escrivão/escrivães;
guardião/guardiões;
pão/pães;
sacristão/sacristães;
tabelião/tabeliães.

      Quanto às circunstâncias do erro. É também verdade que falar não é escrever. Quem escreve pode corrigir sem que os destinatários o saibam. Quem fala em directo numa rádio ou na televisão ou erra e não liga ou corrige. Na minha opinião deve corrigir sempre. Para João Paulo Meneses, autor do excelente Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), não é sempre assim, pelo menos no que respeita aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Já aqui apresentei as razões da minha discordância.

Expressão: «papa negro»

Superior dos Jesuítas

«Desde o último dia 6 de janeiro, representantes da Companhia de Jesus no mundo inteiro estão reunidos em Roma para repensar sua identidade e missão para os anos vindouros. E sua primeira providência será eleger um novo superior geral. Pela primeira vez na história, o assim chamado “papa negro” renuncia ao cargo ainda em vida e sua renúncia é aceita pelo papa. O novo geral, que será eleito pelos 225 delegados de todas as províncias da Ordem, terá diante de si uma árdua e bela missão: governar a Companhia pelos próximos anos. Diante de si terá dois grandes e reais desafios» («Uma companhia para o século 21», Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil, 7.1.2008, p. A10). A designação deve-se simultaneamente à cor das vestes dos Jesuítas e à importância da ordem no seio da Igreja Católica.

Como se fala na rádio

Todos os nomes

Queria expressar a minha solidariedade com o director-geral de Saúde, Dr. Francisco George. Não, como seria de esperar, por causa de toda a oposição à aplicação da chamada Lei do Tabaco (Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto), mas pelo facto de os jornalistas da rádio lhe deturparem quase sempre o nome. Na Antena 1, ora é «Jorge» ora «Géorge». Conheço o nome do director-geral de Saúde desde os tempos em que ele era delegado de saúde em Beja e escrevia para o Diário do Sul. Nunca me passou — e porque havia de passar? — pela cabeça aportuguesar-lhe o nome. Quanto a deturpações, já basta com o meu: Helder Guedes?

Judeu/judaico

Museu Judaico de Berlim


      Já foram várias as vezes que aqui escrevi sobre a diferença entre «judeu» e «judaico». O erro persiste. Pelo que pude averiguar, o erro já vem da agência Lusa. Os jornais limitam-se a — acefalamente — reproduzi-lo, como fez o Meia Hora: «O Museu Judeu de Berlim voltou a superar em 2007 o seu recorde anual de visitantes, com 733 mil pessoas, mais 18 mil do que no ano anterior» («Museu Judeu de Berlim supera número de visitas», Meia Hora, 7.1.2008, p. 13). Alguns jornais ainda têm a desculpa de que não têm revisão, mas este tem: a ficha técnica diz que a revisora é Sílvia Lobo.




O futebolês nas traduções

Mister

Ontem à noite, dei uma olhadela ao canal Hollywood. Passava o filme Os Três Desejos (Three Wishes no original). Estavam três personagens sentadas à mesa a tomar o pequeno-almoço. Quando entra uma quarta personagem, e foi aqui que eu comecei a ver, a personagem desempenhada por Patrick Swayze levanta-se e diz: «Coach…» A tradutora (e tive de esperar até ao fim para ver quem tinha traduzido), Susana Bénard, achou que ficaria bem traduzir «coach» por «mister», palavra bem portuguesa, como sabemos. Talvez alguma «massa associativa» ache bem, eu acho simplesmente ridículo.

Léxico contrastivo: «drogadição»

Adições e subtracções

      «A educação moral no lar é o recurso mais próprio para evitar-se a contaminação dessa pandemia — a drogadição —, ensejando segurança emocional e afetiva ao ser inquieto e inseguro no processo da sua reencarnação, trabalhando-lhe os tesouros morais que serão estimulados para a luta e para o equilíbrio» («Drogadição na família», Divaldo P. Franco, O Povo, 6.1.2008, p. 29). Entre nós, diz-se «toxicodependência» e, por vezes, «adição». Em relação a esta última, condeno, os meus leitores já o sabem, o seu uso nesta acepção. «Vício» não chegará? «Cientistas norte-americanos do Baylor College of Medicine, em Houston, estão a desenvolver uma vacina que dizem ser o primeiro fármaco utilizado para combater o vício da cocaína. “Para quem quer parar de consumir [cocaína], a vacina poderia ser muito útil”, explicou Tom Kosten, citado pelo diário Folha de São Paulo» («Vacina vai ajudar no combate ao vício da cocaína», Meia Hora, 7.1.2008, p. 12).

Ortografia: Árctico e Antárctico

Guarda-factos

      É muito raro encontrar correctamente grafados os topónimos Árctico e Antárctico. «O aumento das temperaturas no Ártico tem sido, nas últimas décadas, quase duas vezes mais rápido do que no resto do planeta mas os cientistas não sabem se esse aumento se deve à acção humana ou a ciclos naturais, segundo artigos ontem publicados na Nature» («Aumento da temperatura mais rápido», Global, 4.1.2008, p. 14).

Léxico contrastivo: «moisés»

Bebé a bordo

«Pode parecer exagero de americano, mas faz sentido. Há uma discussão em torno da segurança real das crianças pequenas, que viajam de avião com os pais. Pelas regras da Transportation Safety Administration (TSA), bebês com idades abaixo de 2 anos voam no colo, sem bilhetes ou assentos próprios, identificação na maior parte dos arquivos das companhias ou qualquer outro tipo de proteção. São os únicos passageiros dispensados nos EUA da checagem que a tripulação de cabine faz dos cintos de segurança na decolagem e no pouso. Tudo de que dispõem para a própria segurança é o braço de quem os está carregando. Há quem defenda por lá a obrigatoriedade de os pequenos viajarem em berços, moisés ou cadeirinhas atadas aos bancos, para reduzir riscos» («Os cuidados com bebês que viajam no colo», Marcelo Ambrósio, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. E7). Os moisés brasileiros são as nossas alcofas para bebés. Actualmente, em Portugal, o sistema mais usado não é este, mas sim o ovo.

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