Tradução: «evolutionary»

Darwin

      O leitor V. Mendonça pergunta-me como se deve traduzir o termo inglês evolutionary. Boa pergunta. Nas traduções, já o tenho visto traduzido indiferentemente por «evolucionista» e por «evolucionário». Mas mal. «Evolucionista» é o que diz respeito à teoria chamada evolucionismo. Assim, Stephen Jay Gould e Jared Mason Diamond serão biólogos evolucionistas e não biólogos evolucionários, por exemplo. O facto de os crocodilos, ao contrário dos restantes répteis, terem quatro cavidades no coração há-de ser uma característica evolucionária, ou seja, que está relacionada com a evolução da espécie. Enquanto não souberem ler, os crocodilos não podem ser evolucionistas. Os biólogos, mesmo os melhores, por não serem muito diferentes de todos nós, não podem ser evolucionários.
      É verdade que, para complicar, Phillip Ein-Dor e Ella Segev propuseram, há mais de uma década, uma distinção entre teoria evolucionista, que é a que diz respeito aos mecanismos que produzem a mudança, e teoria evolucionária, que concerne à direcção da mudança e ao seu destino final. Ainda assim, a nossa distinção semântica fica parcialmente de pé.

Léxico: «bico»

Bico da garrafa

      Que o vocábulo «bico» era estonteantemente polissémico, já eu sabia; desconhecia era a acepção de «gargalo de garrafa», como se vê neste artigo: «A produção de espumantes como conhecemos hoje surgiu em 1816 com a viúva Nicole Clicquot (Veuve Clicquot). Ela criou o sistema de decantação, mantendo as garrafas inclinadas com o bico para baixo, girando semanalmente até que todos os resíduos acumulassem e fossem retirados de uma só vez» («Da curiosidade de um monge à criatividade de uma viúva», Jornal do Brasil, 29.12.2007, p. R5).

Léxico contrastivo: «gabolice»

É feio

      «O caprichado pronunciamento do presidente Lula na despedida de 2007 e os votos de boas festas na saudação ao Ano-Novo, transmitido com as fanfarras da rede nacional de rádio e televisão, na noite de quinta-feira, merece elogios pelos progressos do orador e o cuidado da assessoria responsável pelo excelente visual e pelo desempenho do astro único do show. Louvar, ainda mais no clima de esperanças de véspera de um novo ano, o terceiro do segundo mandato do orador, é mais gratificante do que criticar. Ficamos no meio justo, de agrados e ressalvas. Para princípio do balanço, o reconhecimento da excelente atuação presidencial. Desde a aparência cuidada da barba aparada, o terno de corte impecável, a gravata de cor viva e laço irretocável» («Oito minutos de gabolice na TV», Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil, 29.12.2007, p. A2). A gabolice é a gabarolice portuguesa, como facilmente se depreende. Claro que ainda não escrevemos «Ano-Novo», embora me tenha dado conta de que nesta quadra surgiu na imprensa portuguesa um infame «fim-de-ano». Em vez de se dedicarem a escrever bem, inventam tontices. Bom 2008.

Regência do verbo gostar

Grande ajuda

      Entre os 8,5 milhões de cartas e encomendas que os CTT distribuíram só na véspera de Natal, estarão uns postais já com taxa paga que a magnanimidade desta empresa nos ofertou. «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta, nada melhor que escrever um desejo sentido de Boas Festas.» Assim escrevem eles. Terão pretendido escrever isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta de ser surpreendido»? Ou isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém de quem gosta»? Deve ser o princípio de Peter a actuar nos CTT.

Tradução: «catering»

Vão a casa

      Não me parece que estejamos condenados a ter de usar o vocábulo inglês catering, cara Luísa Pinto. Nem são bagatelas. Afinal, também os Franceses, por exemplo, o não usam. Usam traiteur à domicile. Usemos nós «fornecedor de refeições ao domicílio». É comprido? Pois é, mas são palavras portuguesas. E aposto que a comida será igualmente boa.

Tradução: «penny»

Um penny ou um péni?
O digno membro

      De facto, não me parece judicioso traduzir penny por «péni», em especial se no mesmo texto também ocorre o plural da palavra, pence. Se temos, e temos, de escrever «pence», não escrevamos ao lado «péni». E se, para agravar, no mesmo texto, se insinuar a designação para o membro viril — pénis —, os leitores não julgarão que estamos a ser ridiculamente puristas, mas só pela metade? Pence, péni e pénis? Poderá ser uma conjunção fatal.

Léxico contrastivo: «laranja»

Laranjas amargas

      «Uma nova lista com números de celulares e contas bancárias foi apreendida ontem em poder dos detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz, Região Metropolitana. Segundo o supervisor do sistema penal, coronel Taumaturgo Granjeiro, que acompanhou a vistoria, o material seria usado para a prática de golpes como “seqüestro-virtual” e “número premiado”. Segundo ainda o supervisor, a lista será entregue ao Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para rastreamento das contas bancárias e dos números telefônicos. A suspeita é que as contas estejam em nomes de “laranjas” e sejam usadas para os depósitos das vítimas dos golpes virtuais» («Lista para a prática de golpes é apreendida no IPPS», Nicolau Araújo, O Povo, 28.12.2007, p. 6). Na definição do Aulete Digital, «laranja» é a «pessoa que serve de intermediária em transacções financeiras fraudulentas, usando o próprio nome para ocultar a identidade de quem a contrata». É uma espécie de testa-de-ferro. Na primeira página, O Povo titula: «Polícia rastreia contas-laranja».
 

Selecção lexical

Erros e exageros

      «O 24horas apurou que foram encontradas no vestuário algumas impressões digitais que podem vir a ser importantes para esclarecer o mistério da identidade do grupo que bateu no jovem prelado de 38 anos, o deixou ao abandono no meio do monte e lhe destruiu o Mercedes» («‘Estava abatido, com o corpo todo dorido’», Pedro Emanuel Santos, 24 Horas, apud Global, 28.12.2007, p. 8). «Prelado»? Mas não é um mero pároco? O Livro de Estilo do Público bem previne: «[…] pode utilizar-se a palavra “prelado” para designar um bispo, nunca para referir um padre». Recorro à definição da Enciclopédia Católica Popular: «(Do lat. = superior). Nome da­do, na antiga sociedade romana, às auto­ri­dades civis. O seu uso entrou na gíria eclesiástica como título dado a quem na Igreja goza de maior autoridade no foro externo: Papa, cardeais, bispos e demais ordinários de lugar e mesmo superiores maiores de institutos, especialmente aba­des e abadessas (preladas). O anterior Código de Direito Canónico redu­ziu o uso deste título aos clérigos com jurisdição ordinária no foro externo e a quan­tos a Santa Sé o tenha concedido como título honorífico. O actual CDC reduz o título de prelado ao ordinário duma prelatura pessoal ou duma pre­la­tura territorial. Na linguagem corren­te, porém, continua a dar-se o nome de p. aos membros do chamado “alto cle­ro”, especialmente cardeais, patriarcas e bispos. Prelazia é a dignidade ou o ofício do p[relado].»
      Por outro lado, não será hiperbólico escrever que o automóvel foi destruído? É que ontem o mesmíssimo Global trazia um artigo do Jornal de Notícias em que se podia ler a legenda à imagem do automóvel do padre: «Uma janela do Mercedes do pároco António Aires foi partida pelos agressores».        
      Em que ficamos?
      E o curso de Português básico para jornalistas do Instituto Camões, já começou?

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