Francisco Rebelo Gonçalves

E o Vocabulário?

      No centenário do filólogo e lexicólogo Francisco Rebelo Gonçalves, vale a pena ouvir a emissão em pós-difusão do programa Páginas de Português do passado domingo, dia 11.

Léxico contrastivo: «esquete»

Cenas

      «Nossa idéia inicial era escolher nossas melhores esquetes e textos e, a partir daí, convidar atores que a gente gosta para interpretar estes personagens. Assim, acreditávamos não haver erro —­ conta o diretor Leandro Goulart» («Humor, crítica e sarcasmo: os ingredientes de ‘Pout-PourRir’», Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil/Barra, 2.11.2007, p. 4). Irreconhecível, mas sim: o sketch inglês: encenação curta de peça teatral, de programa de rádio ou de televisão, geralmente de carácter cómico.
      Quando chegaremos a esta simplicidade no aportuguesamento de palavras estrangeiras? Ainda ontem tive de rever um texto em que aparecia a seguinte frase: «É também comum ouvirem-se músicas e canções de Natal por todos os lados, com a ajuda dos rádios e karaoques.» O autor não teve coragem de ir mais além: expungir os dois kk (capas ou cás)* — uma letra que, estupidamente, se proscreveu, pela reforma ortográfica de Gonçalves Viana, do nosso abecedário, continuando, contudo e contraditoriamente, a usar-se, que remédio, nos vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros, em símbolos e em unidades de medida — afigurou-se-lhe demasiado arrojado, um desafio aos deuses. Como revisor, impunha-se intervir no sentido de uniformizar, e fi-lo puxando para o português a palavra, emendando para «caraoque». De resto, registado pelo Dicionário Houaiss e usado (no Brasil escreve-se «caraoquê»).

* Cás, sim, senhores. Claro que o Word, esta inteligência artificial primária, acha que me enganei, alterando para «cãs». A propósito de outra letra proscrita, o w, escreveu Vasco Botelho de Amaral na obra Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português: «W. Poderia apostar em como 90 % dos Portugueses não sabem que o nome “português” da letra w é… éu. (Cf. Viana, Ortografia Nacional, 28,197).
Embora seja esta a forma “portuguesa”, não hesito em pô-la de parte, pois… não pega. Sou contrário à filologia que não tem em conta as realidades da repulsão colectiva.
Mas, se éu nos faz talvez sorrir, o dâbliu e o “double” VÊ não menos se tornam provocadores de sorriso» (p. 578).

Léxico contrastivo: «carro-forte»

Imagem: http://www.portalaftermarket.com.br/
Casa, cofre e carro-forte

      «Uma mulher foi atropelada ontem pela manhã, por volta das 11h45min, no Centro de Fortaleza, por um carro-forte da empresa de segurança Corpvs» («Carro-forte sobe em calçada e mata mulher», O Povo, 7.11.2007, p. 7). Nós só temos «casas-fortes» e «cofres-fortes». Para nós, é uma carrinha blindada.

Léxico contrastivo: «esprivitado»

Quase espevitada

      «Enquanto seus colegas se contentam em decalcar Bukowski e Rubem Fonseca, enquanto as clarissinhas cultuam sua musa esprivitada, como se não houvesse nada além no horizonte literário, Cuenca, por sua vez, brinca com a herança que nos assombra e limita. Ele pode não escapar aos clichês, mas ao menos se debate entre eles. E se diverte. E questiona, não como um moralista ­ no sentido de apontar a decadência moral de determinada sociedade ­ mas como uma testemunha jocosa. Estamos todos no mesmo barco, cobertos pela mesma bruma, sofremos da mesma miopia, e não há, de fato, como tirar respostas definitivas» («Enfim, o romance da não-geração», Bolívar Torres Corrêa, Jornal do Brasil/Idéias&Livros, p. 7). Não, não, «esprivitado» não está registado no Aulete nem no Houaiss. Mas está aqui neste dicionário pernambuquês e significa «agitado, atrevido».

Léxico contrastivo: «racha»

Ou vai ou...

      «As testemunhas de acusação do processo contra o professor de Educação Física Paulo César Timponi, 49 anos, e o músico Marcelo Costa, 23, prestaram depoimento hoje no Tribunal de Justiça do DF. Os dois são acusados de provocar o acidente que matou três mulheres na Ponte JK, no início deste mês. Ao todo, sete pessoas foram ouvidas pelo juiz João Egmont Lopes. Todas afirmaram que os veículos dirigidos por eles estavam em alta velocidade, realizando ultrapassagens na pista» («Testemunhas confirmam que motoristas disputavam racha», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 10.11.2007, p. D4). Racha é termo popular e significa corrida ilegal de carros. Um jornalista português escreveria... deixem-me adivinhar... street racing.
      Curiosamente, na mesma página a palavra é ainda usada noutra acepção: discordância num grupo de pessoas com ideias comuns, que causa a formação de dois novos grupos a partir do primeiro; ou seja, cisão, cisma. «A população mais pobre do Distrito Federal é lulista, mas não é petista. Isso se deve à falta de compreensão política de dirigentes petistas, que demonstra a desconexão entre o partido e o que quer a sociedade. Essa posição não é de nenhum cientista político hostil ao PT, mas de um dos principais candidatos a presidente regional do partido, Lenildo Machado. Tem o apoio do deputado federal Geraldo Magela, cuja corrente política integra. É até chefe de gabinete de Magela na Câmara dos Deputados. Pretende destronar o atual presidente, Chico Vigilante, candidato à reeleição. O tom duro das críticas de Lenildo dá uma dimensão do racha existente hoje na seção regional do partido» («Guerra para valer»).

Tradução: «drawbar»

Órgãos de tubos

      O leitor V. Mendonça pergunta-me como se pode traduzir, referido a um órgão de tubos, o termo inglês drawbar. Traduz-se por «puxador» ou «manúbrio». É o dispositivo que permite ligar, puxando, e desligar, empurrando, determinado registo. Como «puxador» é muito mais polissémico, eu optaria por «manúbrio», do latim manubrĭum,ii, «manípulo», «cabo de qualquer instrumento». Curiosamente, em espanhol o órgano de manubrio não é o nosso órgão de tubos, mas sim o realejo, que em inglês tem a designação de hurdy-gurdy street organ. No glossário da Meloteca, sítio de músicas e artes, encontrará a definição da palavra.

O preço da ortografia

Bons polícias

      «Um erro de português levou a polícia a prender oito integrantes de uma quadrilha de assaltantes, suspeita de roubar R$ 15 milhões da sede da transportadora de valores Protege, na Água Branca (zona oeste), em setembro. O grupo se preparava para invadir um condomínio de luxo na Lapa ontem e foi descoberto porque, do lado de fora do Fiat Dobló que seria usado para entrar no local, os bandidos usaram adesivos com a inscrição “Impório Santa Maria”, em referência a um conhecido empório da cidade. Sob o nome da empresa havia ainda um endereço eletrônico falso: www.isantamaria.com.br. […] Do ponto de vista operacional, são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos —­ ironizou Fontes [delegado Ruy Ferraz Fontes, do Departamento de Investigação Sobre Crime Organizado]» («A má ortografia não compensa», Jornal do Brasil, 10.11.2007, p. A7). 
      Cá é ao contrário: os carros-patrulha ostentam — em itálico, porque com a velocidade levamos a cabeça inclinada — o erro de falta de acentuação da palavra «polícia». Em contrapartida, o endereço electrónico é autêntico.

Léxico contrastivo: «asfalto»

Asfalto

      «A polícia ainda não sabe qual seria a origem do ecstasy vendido pela quadrilha, embora a delegada Patrícia Aguiar cogite que os jovens tenham contato com laboratórios fabricantes da droga dentro de comunidades. Outra hipótese seria que o ecstasy fosse importado da Holanda. ­ Esse caso segue uma lógica oposta à que estamos acostumados: o asfalto era o fornecedor da favela, porque o ecstasy é uma droga elitizada ­ explica o inspetor Ricardo Di Donato, do Dcod [Delegacia de Combate às Drogas]» («Asfalto seria fornecedor da favela», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 9.11.2007, p. A8). 
      Em sentido figurado e segundo o Aulete Digital, é, «nas metrópoles, as zonas urbanas socialmente mais favorecidas, em oposição às favelas ou à periferia».

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