O preço da ortografia

Bons polícias

«Um erro de português levou a polícia a prender oito integrantes de uma quadrilha de assaltantes, suspeita de roubar R$ 15 milhões da sede da transportadora de valores Protege, na Água Branca (zona oeste), em setembro. O grupo se preparava para invadir um condomínio de luxo na Lapa ontem e foi descoberto porque, do lado de fora do Fiat Dobló que seria usado para entrar no local, os bandidos usaram adesivos com a inscrição “Impório Santa Maria”, em referência a um conhecido empório da cidade. Sob o nome da empresa havia ainda um endereço eletrônico falso: www.isantamaria.com.br. […] Do ponto de vista operacional, são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos —­ ironizou Fontes [delegado Ruy Ferraz Fontes, do Departamento de Investigação Sobre Crime Organizado]» («A má ortografia não compensa», Jornal do Brasil, 10.11.2007, p. A7). Cá é ao contrário: os carros-patrulha ostentam — em itálico, porque com a velocidade levamos a cabeça inclinada — o erro de falta de acentuação da palavra «polícia». Em contrapartida, o endereço electrónico é autêntico.

Léxico contrastivo: «asfalto»

Asfalto

«A polícia ainda não sabe qual seria a origem do ecstasy vendido pela quadrilha, embora a delegada Patrícia Aguiar cogite que os jovens tenham contato com laboratórios fabricantes da droga dentro de comunidades. Outra hipótese seria que o ecstasy fosse importado da Holanda. ­ Esse caso segue uma lógica oposta à que estamos acostumados: o asfalto era o fornecedor da favela, porque o ecstasy é uma droga elitizada ­ explica o inspetor Ricardo Di Donato, do Dcod [Delegacia de Combate às Drogas]» («Asfalto seria fornecedor da favela», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 9.11.2007, p. A8). Em sentido figurado e segundo o Aulete Digital, é, «nas metrópoles, as zonas urbanas socialmente mais favorecidas, em oposição às favelas ou à periferia».

Léxico contrastivo: «laudêmio»

No Brasil ainda existe

«Mas esta história teve início bem antes, quando Dom Pedro I era imperador do Brasil. Segundo a Secretaria Nacional de Patrimônio, 50% do território do Rio sofrem com as taxações. Os encargos beneficiam não só a União, mas a prefeitura e famílias que receberam o direito pelo sistema de sesmarias, quando a cidade foi dividida em lotes na época do Primeiro Reinado, em 1831. Quem mora na orla, ilhas e em terrenos próximos a lagoas e manguezais pode ser surpreendido por este imposto arcaico, recolhido pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) sobre alguns imóveis da região. A justificativa do decreto explica que a área deve pertencer ao país, caso ocorra uma invasão. Foro (ou enfiteuse) é a taxa anual a ser paga para a União sobre um determinado terreno por quem detém a propriedade do imóvel. A taxa é de 0,6% do valor da fração do terreno. Já o laudêmio é uma taxa que deve ser paga à União na hora em que o proprietário efetua a venda do imóvel, variando entre 2% a 5%. O Código Civil Brasileiro de 2002 proíbe a criação de novas enfiteuses, mas não trata das pré-existentes. De acordo com a SPU, há mais de 100 mil imóveis cadastrados no Estado como foreiros à União, pagando 0,6% do valor do terreno ao ano e laudêmio de 5%, a cada transação» («Luta contra laudêmio perto do fim», Pat Zinger, Jornal do Brasil/Barra, 9.11.2007, p. 3). Segundo o Aulete Digital, o «laudémio» é a «compensação que o enfiteuta alienante pagava ao senhorio direto por sua renúncia ao direito de opção na transferência do domínio útil da coisa aforada (laudêmio de quarentena; laudêmio de vintema)». Vem do italiano laudemio e já* o tivemos no nosso ordenamento jurídico. Na definição do De Mauro, «nel Medioevo, somma di denaro che l’enfiteuta doveva pagare al signore al momento del trasferimento del diritto di enfiteusi│estens., tassa che in occasione dell’alienazione di un feudo il vassallo doveva pagare al feudatario».



* No ponto n.º 175 da relação de bens de Domingos António, avô paterno de Alfredo da Silva (13 de Julho de 1841), podemos ler: «Humas Casas Terrias com seus sobrados, para cinco moradores, com oito Janelas de peitos e huma de Sacada, sitas no lugar de Carnide, Freguezia de São Lourenço, Quinta Vara da Comarca Judicial de Lisboa, a primeira consta de huma loje, cozinha com seu sobrado, a segunda com duas lojas, e dois quartos em sima — quarta huma loja terria, Quinta consta de cinco sobrados, e por baixo tem a sua Adega com sua lagarica de Pedra, e o rustico conta de duas Courellas, de Vinha com seus Pes de Oliveiras, e Arvores de Fructo, morada pella parte do Sul, com seu Poço, o que tudo consta ser foreiro ao Illustrissimo Hermano Joze Bramcampe em mil reis e duas gallinhas, e a quantia de quatro centos reis por ellas com o laudemio Quarenteno digo com o competente laudemio de quarentena no cazo de haver digo cazo de venda, parte pelo Norte com Fazenda de Donna Marianna Deniz, Sul com chão do Inventariado, entrada Dabeja, Nascente Fazendas de Donna Antonia, e Donna Marianna Deniz da Costa, Poente com Corella de Vinha do Inventariado, o qual sendo bem visto examinado pelos respectivos louvados, tendo em atenção ao lucal, e estado do predio Urbano, e penção do Foro, lhe derão o valor em quanto ao rendimento annual a quantia de oitenta e seis mil reis (86$000), com que se saie e pelo seu valor, Real a quantia de setecentos e trinta e seis mil reis, com cuja quantia se saie. (736$000)» (ver mais aqui).

Léxico contrastivo: «cesta de compras»

Cestas e cabazes

«O trabalhador fortalezense gastou 79 centavos de real a menos em outubro para comprar a cesta básica, na comparação com setembro. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o conjunto dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Fortaleza registrou redução nos preços de 0,53% de setembro para o mês passado. Com isso, o preço ficou em R$ 146,96. Segundo Reginaldo Aguiar, assessor técnico do Dieese na Capital, a cesta de Fortaleza é a terceira mais barata do Brasil. “As seis cestas mais baratas estão no Nordeste porque elas não incluem a batata, conforme reza a Lei do salário mínimo. Para o resto do País a cesta possui 13 produtos”, afirma» («Cesta básica está R$ 0,79 mais barata em Fortaleza», O Povo, 6.11.2007, p. 24). É o nosso «cabaz de compras». E até temos cabazes de compras sectoriais: Lia-se no Diário de Notícias de 2 de Setembro deste ano: «Num hipermercado Feira Nova, a factura do cabaz de compras de material escolar pode facilmente chegar aos 34 euros» («(Bom) regresso às aulas com o DN», Roberto Dores).

Léxico contrastivo: «bilhetagem»

Mais português


      «Os usuários de ônibus do DF não precisarão mais usar dinheiro ou vale transporte para pagar as passagens: começou a funcionar ontem o sistema de bilhetagem eletrônica. Com isso, o passageiro precisa apenas aproximar o cartão eletrônico do aparelho validador, instalado em todos os 2.337 ônibus do DF, para que a catraca seja liberada» («Transporte público entra na era da bilhetagem eletrônica», Priscila Machado, Jornal do Brasil/Brasília, 2.11.2007, p. D5). Cá andamos às voltas com o rebarbativo «bilhética», e nem sabemos explicar bem do que se trata, como já aqui demonstrei.
 


Pontos cardeais

Oriente-se

O leitor J. J. L. chama-me a atenção para uma suposta gralha na crónica de hoje de Baptista-Bastos no Diário de Notícias. Eis o trecho em questão: «A melodia dos desinteressados toca os corações desprevenidos. Quando se soube que o Governo pendia para a Ota, indiscutível e inexoravelmente, a especulação imobiliária foi desencadeada. Mário Lino*, dramático e seguro, levemente irado, abertamente decisivo, transformou o jamais francês no estandarte de todas as vitórias. Quando foi apresentada a proposta de Alcochete, argumentativamente muito mais económica, os protestos e os apupos chegaram de alguns pontos cardiais» («A santidade dos patriotas», Diário de Notícias, 7.11.2007). «Pontos cardiais»? J. J. L. supõe — ou receia — poder haver ali algum jogo linguístico subtil — ou subtilíssimo, pois o não entende. Especula: «Será isto uma gralha, ou pretendeu o jornalista-escritor sugerir que “os protestos e os apupos chegaram de alguns corações”? Que é o mesmo que voltar a uma não-discussão — em que fui esquecido — sobre se as virtudes seriam «cardeais» (as principais, ou fundamentais) ou «cardiais» (vindas do coração?).» Os pontos são e só podem ser cardeais, isto é, principais. Ambos adjectivos de dois géneros, «cardeal» vem do latim cardinalis,e; «cardial», por sua vez, é relativo à cárdia, que é o orifício que faz a comunicação entre o esófago e o estômago. E o que tem isto que ver com o coração?, perguntarão. «Cárdia» vem indirectamente do grego ĸαρδια, que significou, inicialmente, «coração». Posteriormente, por analogia de forma, passou também a ter o significado de «orifício superior do estômago», e, depois, «estômago».


* Não é inocentemente (como podia ser?) que incluo na citação a referência a Mário Lino. Ao meu texto «Eu sabia que era árabe», um leitor deixou-me um comentário (que decidi, por estar escrito com grande desleixo, recusar) em que afirma que erro grosseiro era o meu, pois o «rapaz» (não seria ele o «rapaz»?) queria mesmo escrever «alforge», já que — atentem na lógica, por favor — «alforge», além de ser o que já sabemos, «era até nome do blog do actual ministro Mário Lino e nem sei como é que me lembrei disto agora....». Eu também não, caro anónimo, mas a ingestão pós-prandial, ainda que moderada, de espíritos explica muita coisa. Se é anónimo, caro, não é ofensa.

Terminologia médica espanhola

Bisturi virtual

Magnífica, plena de recursos, esta Biblioteca Virtual de TradMed, da autoria de um grupo de investigação em tradução médica. Em espanhol, é certo, mas será sempre uma ajuda na tradução.

Léxico: salazar


Homenagem ao salazar

Em que dicionário de língua portuguesa é que se encontra o termo «salazar» para designar o raspador ou espátula usada na cozinha, e sobretudo na confecção de bolos, como o da imagem? Em nenhum, que eu saiba. Por ser um termo familiar? Decerto que não, pois os dicionários acolhem muitos termos familiares. Por estar politicamente conotado? Claro que não, pois todos os dicionários abrigam termos com conotações de diversa natureza e devem ser neutros quanto a conotações morais, políticas ou outras. Então, porquê? Como a tendência é os dicionaristas copiarem-se uns aos outros — e copiam-se mal, como se poderá comprovar consultando dicionários de épocas diferentes —, a explicação para todos recusarem acolher o vocábulo é simples. Insondável parece ser a razão de nenhum, dos mais recentes, o fazer. A etimologia — e a explicação, que é coisa diversa e muitas vezes obscura — estão estabelecidas, o uso é quotidiano e alargado. O que esperam os dicionaristas? Curiosamente, foi um estrangeiro que me perguntou o que era «um salazar». Ele escreveu assim mesmo, «um salazar», e não, como se vê escrito por portugueses neste grande repositório de coisas magníficas e de lixo execrável que é a Internet, «um Salazar». Nos hipermercados, se não encontrarem nenhum, perguntem por «raspadores de massa». Com sorte, não os mandam para o Aki, pois «aqui não vendemos produtos para vidraceiros».

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