O som erre

Assim se fala

      Queria recuperar um texto, para o qual, a seu tempo, chamou a atenção o blogue Debuxos, do início de 2006, que julgo ser uma boa análise e não merecer ficar sepultado no pó do tempo.

      «Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã têm outra coisa em comum, além do facto de serem de esquerda. Algo de muito sonoro os distingue de Aníbal Cavaco Silva. Trata-se do som da letra “r” em início de palavra (“revolução”), com grafia dupla no interior de um vocábulo (“terra”) ou em sequências como “honra” e “guelra”. O ponto de articulação do “r” dos candidatos de esquerda é apical: a ponta da língua rola contra o palato duro, um pouco atrás daquilo a que Homero chamou “a barreira dos dentes”. No caso de Cavaco Silva, o “r” é articulado na garganta: é o som gutural de quem anuncia a intenção de escarrar. Entrou na nossa fonética por via do estrangeirismo: primeiro conquistou a classe alta por ser o “r” francês; a pouco e pouco, a classe média foi imitando; por fim, contaminou a classe proletária por ser o “r” das telenovelas brasileiras. Hoje, o “r” de Cavaco Silva é o mais ouvido no nosso país. Apesar do apreço que o Prof. Cavaco me merece, é pena. Pois não há a menor dúvida de que o “r” dos candidatos de esquerda é o verdadeiro “r” de Portugal. É o mesmo “r” do castelhano (e do italiano, já agora). Em Espanha, as pessoas que emitem o “r” gutural (por defeito de fala ou afectação) tornam-se ridículas. No som da letra “r”, que os nossos vizinhos hispânicos rolam extravagantemente, ouvimos todo o seu orgulho em serem espanhóis; ao passo que nós, tristes portugueses, fomos caindo na snobeira auto-amarfanhante de pensarmos que o “r” francês e brasileiro é mais urbano do que o atávico “r” ibérico, que soa rústico a ouvidos arrivistas. No filme de João César Monteiro sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, dá-se um fenómeno curioso. A voz de Sophia tinha compreensivelmente todos os tiques de prosódia e articulação fonética da classe social a que pertencia. No filme, quando ela fala em registo informal, articula o “r” francês, próprio de uma senhora bem que não quer empregar o mesmo “r” das criadas. No entanto, quando Sophia declama os seus poemas, o “r” gutural de Cavaco Silva é cuidadosamente substituído pelo “r” apical de Manuel Alegre. O que terá levado Sophia a mudar de “r” conforme assumia uma das suas duas personagens, a senhora fina e a poetisa? Só pode ter sido a consciência de que, apesar de menos chique, o “r” apical é intrinsecamente mais eufónico e mais português do que o “r” gutural. Realidade que todos os cantores de fado sabem. E muitos actores. Mas até no teatro o “r” português está em vias de extinção. Na famosa encenação de Ricardo Pais da Castro de António Ferreira, a interpretação de Maria de Medeiros dividiu opiniões. As críticas foram injustas, pois a Maria recriou uma Inês de Castro deslumbrante. Mas dei razão a Cremilde Rosado Fernandes, que, com os seus ouvidos infalíveis de cravista, me disse “que pena a Maria de Medeiros ter aqueles horríveis ‘r’s guturais”. O efeito normalizador da televisão vai levar, mais cedo ou mais tarde, a que o autêntico “r” português (o “r” de Gil Vicente, Camões e Camilo) desapareça para sempre. Duvido que haja menores de vinte anos que o pronunciem ainda. O “r” hediondo do arrivismo vai vencer. Agradeço, portanto, a portugueses tão diferentes como Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Silva Melo, Manuel Maria Carrilho, Luís Miguel Cintra e muito especialmente aos quatro candidatos presidenciais de esquerda o facto de manterem ainda viva a pronúncia castiça do “r”, que é, juntamente com o marulhar das ondas e o dedilhar da guitarra portuguesa, aquele som que dá verdade a Portugal» («O som de Portugal», Frederico Lourenço, Público, 7.1.2006, p. 14).

Uma palavra por dia: «abroncar»

Grande bronca!

«Mientras tanto, en París, una atmósfera de plomo reinaba en las filas de su mayoría parlamentaria: el jefe del Elíseo ha echado la bronca a diputados y senadores que empezaban a mostrarse levantiscos» («Sarkozy abronca a sus diputados para que aceleren las reformas», Andrés Pérez, Público, 5.10.2007, p. 14). Abroncar: repreender asperamente (de bronca, e este do latim vulgar *brŭncus, e este, por sua vez, cruzamento de broccus, objecto pontiagudo, e trŭncus, tronco). É o puxão de orelhas de que falava ontem o Libération: «A l’Elysée, hier, Sarkozy a sermonné députés et sénateurs, tout en abordant les sujets qui fâchent» («Les oreilles chauffent chez les élus UMP», Alain Auffray e Nathalie Raulin, Libération, 4.10.2007, p. 6). Ah, sim: levantisco, de levantar, no sentido de amotinar, é o que tem génio inquieto e turbulento.

Uma palavra por dia: «facultativo»

Faculta-me aí um dicionário

«El cupo recomendado de tarjetas sanitarias por facultativo es de 1.200 y se está asumiendo una media de 2.000 pacientes» («España necesita 25.000 médicos de familia más», V. Pi/A. González, Público, 4.10.2007, p. 2). O facultativo é, entre outras acepções do vocábulo, a «persona titulada en medicina y que ejerce como tal». Também o catalão regista a mesma acepção. «Facultatiu («1803; formació culta analògica sobre la base del ll. facultatus, -a, -um, participi de facultare), m i f. esp Metge.» Especialmente médico. Também em português temos a acepção. Quando os jornalistas a descobrirem, já podem variar — como agora gostam de fazer com a dupla advogado/causídico — o léxico. Um leitor que se encontra aqui ao meu lado acaba de dizer: «Percebi tudo, menos aquele “cupo”!» Paciência, leia-me amanhã. Vá lá, uma vez sem exemplo: cupo vem do verbo caber e significa parte proporcional, quota-parte. No contexto, é o número de pacientes que deveria caber a cada médico.

Léxico: geosmina

Porque é que cheira a terra, papá?

      Agora, quando o leitor passear com o seu filho num jardim acabado de regar ou depois de ter chovido, já pode ensinar à criança que o cheiro característico a terra molhada se designa por geosmina, cujo étimo, grego, significa precisamente «aroma da terra». É, com mais rigor, uma substância bacteriana, volátil, produzida pela Streptomyces coelicolor e por algumas cianobactérias.

Uma palavra por dia: «párvulo»

De párvulo se torce…

«El hombre, un párvulo de cuatro años en un colegio de Salas de los Infantes (Burgos) en 1975, sufrió distintas enfermedades que derivaron en epilepsia y una minusvalía del 65%. La Junta ha sido condenada a indemnizarle con 313.900 euros más intereses porque el Supremo la considera heredera del organismo encargado de la vacunación antivariólica en aquel momento» («Condena por una vacuna mal puesta», Público, 3.10.2007, p. 30). Párvulo, adjectivo aqui usado como substantivo (do latim parvŭlus, diminutivo de parvus, pequeno), é uma criança de tenra idade. Também o português tem este vocábulo, que não usamos. Entre nós, abundam mais os parvos.

«Párvulo, adj. (do lat. parvulu-). Pequenino.│Ant. Parvo, idiota. │S. m. Criança» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

Gerúndio no Brasil

Estou vendo

«El gobernador de Brasilia, José Roberto Arruda, ha prohibido el uso del gerundio en comunicados oficiales. Así los funcionarios regionales deben evitar expresiones como “estamos planificando”, “estamos preparando” o “estamos estudiando”, que, según portavoces del gobernador, son usadas como excusas para esconder la ineficacia. “Quien usa el gerúndio quiere confundir”, dijo» («Prohíben el gerundio en comunicados», Público, 3.10.2007, p. 15).



[Actualização. Soube agora mesmo que Fernando Alves, nos seus «Sinais», falou hoje do decreto do governador Arruda. Ouça
aqui.]

Uma palavra por dia: «chafar»

Espanhol

«“Son taaan monos”, señalan al unísono un par de amigas ante el escaparate de una tienda con amigurumis. Sólo les falta chafar la nariz contra el vidrio. Ya es oficial: lo hecho a mano reverdece que es un contento. En el nombre de lo artesanal, se perpetran muchos horrores, pero el amigurumi es una de las cosas a salvar de la quema» («Tricotar en japonés», Marta Riezu, Público, 2.10.2007, p. 50). Chafar, pois. Na definição do Diccionario de la Real Academia: «Aplastar lo que está erguido o lo que es blando o frágil, como la hierba, el pelo de ciertos tejidos, las uvas, los huevos, etc. U. t. c. prnl.» No contexto, talvez a melhor tradução deste verbo onomatopaico seja «achatar, esmagar, comprimir»: «Só lhes falta achatar o nariz contra o vidro.»

TLEBS

A negregada

O texto de revisão da TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) está em consulta pública até 31 de Dezembro. Falem agora ou calem-se para sempre. O documento de revisão pode ser descarregado aqui.

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