Terracota estofada?

É preciso estofo

Um leitor visitou o Museu do Azulejo e, perante a indicação de que uma peça, um presépio, era de «terracota estofada», não ficou convencido e enviou uma mensagem de correio electrónico aos responsáveis do museu. A resposta dizia que «o termo “estofada” não refere qualquer técnica cerâmica, mas sim o facto de a peça evidenciar pintura a ouro e outras cores sobre os tons uniformes de base. Estofado remete, assim, para estofo». O leitor afirma ainda que só viu o termo usado em textos em espanhol. De facto, uma das acepções do verbo espanhol estofar é «pintar sobre el oro bruñido relieves al temple», o que parece coadunar-se com a descrição da técnica a que se alude na resposta do museu. (Veja-se este glossário de escultura do Museu Nacional da Colômbia.) O termo não aparece, de facto, em dicionários da língua portuguesa, embora se veja comummente em legendas de peças nos museus e em catálogos de leiloeiros. Na página de Internet do Museu Digital do Patriarcado, por exemplo, leio a seguinte descrição de uma peça: «Imagem barroca em terracota, estofada a ouro com policromia, representando Santa Cecília, a padroeira dos músicos. Peça do Séc. XVIII pertencente à Irmandade de Santa Cecília.» Contudo, é preciso ver que o nosso estofar também significa «avolumar, encher, rechear». Ora, não será isso que fazem aqueles «tons uniformes de base»?

«Ebooks» com cheiro

E o resto?

Lido hoje no Público: «Se é daquelas pessoas que não gosta de livros electrónicos porque “não cheiram a livro”, a nova proposta de um site de ebooks pode fazê-lo mudar de ideias. Para relançar as suas vendas, o vendedor de livros técnicos e académicos CaféScribe.com, noticia o Le Monde, acaba de inventar o “primeiro livro electrónico com cheiro do mundo”! Cada vez que um cliente encomendar lá um livro, receberá também “um autocolante que cheira a livro velho”. Bastará colá-lo ao computador. Sarcasmo, truque de marketing? Talvez sim, talvez não. Um potencial argumento de venda para os 43 por cento de estudantes que, segundo um inquérito da Zogby International, consideram que o cheiro de uma obra constitui uma qualidade essencial» («O cheiro a ebook», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 24.09.2007, p. 3).

O provedor e a língua

Ora leia melhor

Um leitor do Público enviou uma carta azeda ao provedor do jornal, acusando-o de parecer «uma rabugenta professora primária, apenas preocupada com erros de ortografia e problemas de concordância». «É muito pouco», afirma. Este leitor queria o provedor a imiscuir-se em questões que estão arredadas do seu estatuto. Da resposta do provedor, o jornalista Rui Araújo, destaco, com interesse para este blogue, o seguinte: «Os leitores escrevem ao provedor sobretudo por causa de “erros de ortografia e problemas de concordância”. É lícito ignorar tais preocupações? Os “erros de ortografia e os problemas de concordância” são assunto importante, porque o seu número me parece excessivo. Considero, por outro lado, que a imprensa tem uma responsabilidade acrescida na promoção do português. A TV (principal fonte de informação para muitos portugueses) abdicou da informação e da língua, ao optar pela reconhecida boçalidade que a caracteriza» («O provedor dos pormenores», 23.09.2007, p. 47).

Estonado e plangaio

Da Beira Baixa

Não é todos os dias que se lêem as palavras «estonado» e «plangaio». Pois o suplemento «Fugas» do Público de ontem publica um artigo de David Lopes Ramos em que se usam. «Outro prato emblemático da região, talvez o mais emblemático, é o cabrito estonado. Faz-se também cabrito assado no forno como noutras regiões portuguesas, mas o estonado é especial. Porquê? Porque os bichinhos, que não devem ter mais de mês e meio e ser gordos, não são esfolados. A exemplo do que se faz na Bairrada com o leitão, os pêlos dos cabritos são retirados com o auxílio de uma serapilheira ou de outro pano grosseiro, após o bicho ser escaldado em água a ferver. Depois, raspa-se bem com uma faca, mas sempre tendo o cuidado de não romper a pele. Depois de estonado, retiram-se as vísceras ao cabrito por uma pequena abertura na barriga. Reservam-se os bofes, o coração, as molejas, os rins, o fígado e lava-se bem o bichinho, que deverá ficar a escorrer de um dia para o outro em lugar fresco. […] Região de criação de gado caprino e ovino, não admira que as suas vísceras e carne entrem na confecção dos maranhos; o plangaio, sendo um enchido de porco, tem variantes: nuns casos, há arroz no recheio; noutros, massa de farinheira» («Por terras de maranhos, plangaios e cabrito estonado», p. 16). Tona (do baixo latim tunna, ae), que é termo polissémico, designa também a película que recobre alguns vegetais, em especial as cebolas e as batatas. Logo, estonar é tirar a pele. E neste caso, por extensão de sentido, chamuscar, queimar.

Jogo da malha. Xito

Do Alentejo

«Cerca de 700 praticantes da malha, um jogo popular das zonas rurais, participam hoje numa festa em Estremoz (Évora) para demonstrar que esta prática lúdica, que remonta à Grécia Antiga, continua a mexer. Embora a iniciativa apresente um carácter competitivo, o mais importante, segundo a organização, é “a participação e o convívio popular” entre os praticantes. Os jogos desenrolam-se com a repetição do arremesso da malha (chapa de ferro) para derrubar o “xito” (objecto colocado direito no chão). A iniciativa começou em 1993, em Évora» («Festa da malha reúne 700 praticantes», Público, 23.09.2007, p. 14).

Judaica/judia

Muito interessante, mas…

«A Zara viu-se obrigada a retirar do mercado uma mala com o desenho de uma cruz suástica depois de um cliente britânico ter reparado e devolvido o artigo. Segundo o El Mundo, esta é a segunda vez em quatro meses que a loja provoca polémica: em Maio teve de pedir desculpas à comunidade judia por misturar na mesma peça de roupa algodão e linho, o que foi considerado pelos judeus uma falta grave. Ainda assim, os responsáveis garantem que a suástica não era o desenho originalmente aprovado, mas que se trata de simbologia hindu, e que a mala foi fabricada na Índia» («Zara retira das lojas mala com suástica», Público/P2, 22.09.2007, p. 15). «Comunidade judaica», senhores, já aqui o disse várias vezes.

Léxico: evergetismo

Pão e circo

«Uma reportagem de Bernardo Ferrão, de Março, foi repetida agora por ter recebido um prémio. Trata-se dum trabalho exemplar, raro na TV, de visita às promessas da política. E as outras faces do evergetismo actual» («Os grandes querem», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 22.09.2007, p. 14). Não é palavra que se use todos os dias, e por isso a divulgo aqui. Trata-se de um neologismo, cunhado por André Boulanger (1923) e Henri-Irinée Marrou (1948), a partir do grego εύεργετέω (euergetein)*, uma manifestação de uma virtude ética, a beneficência. O termo ganhou, contudo, projecção com a obra Le Pain et le cirque: sociologie historique d’un pluralisme politique (Paris: Seuil, 1976), do historiador francês Paul Veyne, que a usou para designar a estratégia de controlo que eram os espectáculos na arena e a construção de edifícios a expensas de cidadãos endinheirados, por exemplo.

* Usada, por exemplo, entre outros lugares da Bíblia, no original dos Actos dos Apóstolos, 10,38: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos.»

Pagode

Explique-se lá melhor

«Perto de mil monges desfilaram pela cidade de Yangon, a caminho do pagode de Shwedagon que, pela primeira vez em três dias, não tinha sido encerrado pelas autoridades» («Civis apoiam manifestações de monges birmaneses», Daniel Santos, Público, 21.09.2007, p. 19). Não foi há muito tempo que uma crítica literária, numa recensão da obra (vencedora do Prémio Aristides de Sousa Mendes) Xeque-mate a Goa, de Maria José Stocker, editada pela Temas e Debates, verberava contra o uso do termo «pagode», por exibir «a recusa católica da alteridade social e religiosa». Se virmos em qualquer dicionário, um pagode é o «templo religioso budista, geralmente com vários andares, cada um destes com seu telhado» (in Aulete Digital), cujo étimo é o sânscrito bhagavati, pelo dravídico pagôdi. A crítica de certeza que fez confusão com as outras acepções do vocábulo «pagode».

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