Verbo resignar

Eu é que não me resigno com o erro

«A notificação do acórdão do Supremo Tribunal Administrativo determinando a perda de mandato chegou há 15 dias, mas o vereador do PSD na Câmara de Salvaterra de Magos Carlos Marques decidiu não esperar pela sentença do tribunal e ontem mesmo resignou ao mandato» («Autarca perde mandato por não declarar rendimentos», Margarida Gomes, Público, 20.09.2007, p. 8). O verbo, na acepção em causa, é transitivo não pronominal, sem dúvida — mas não precisa de vir preposicionado. O que pode indiciar cruzamento com a forma pronominal resignar a. Correctamente seria, pois, «resignar o cargo». E, talvez até melhor, «demitir-se do cargo».
«Acórdão determinando» é sintaxe estrangeirada do gerúndio, ainda hoje aqui o escrevi.

Infinitivo flexionado

Equívocos benignos


No dia 6 de Fevereiro deste ano, publiquei aqui um texto sobre o se apassivante. Já este mês, um leitor deixou-me lá um comentário, não sobre a matéria em si, mas avisando-me, «sem referências gramaticais e com simpatia», de que uma frase minha estava incorrecta. Escrevera eu: «São poucos os estudiosos em Portugal a afirmarem que é indiferente.» Que não, admoestou o leitor. «A forma verbal deveria ser ou “afirmando” ou “a afirmar” ou “que afirmam”.» Agradeci a simpatia e supus que o negrito assinalava as preferências do leitor. Consultei a Academia Brasileira de Letras sobre a questão. A resposta, que encaminhei para o leitor e publiquei, foi a seguinte: «O emprego do infinitivo, flexionado ou não, depende da situação estilística. Havendo interesse em realçar o sujeito, flexiona-se. No caso, parece conveniente destacar o sujeito “os estudiosos”.» Aliás, eu sabia que, tirando certas particularidades do infinitivo flexionado, que julgo conhecer bem, o seu uso é, como se diz em Direito, insindicável.
Agora o gerúndio «afirmando». Não havendo, claramente, na frase uma expressão de actividade («Um homem lutando com uma fera, era o espectáculo dos Césares no anfiteatro de Roma», frase dos Sermões do padre António Vieira que o Prof. Botelho de Amaral cita, por exemplo), a construção proposta pelo leitor é francesa e logo ilegítima. Como escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre esta mesma matéria («Sintaxe estrangeirada do gerúndio», in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 500-506), «aliás, a gente tem cabeça em Portugal para pensar com cabeça portuguesa».

Plural dos apelidos

Inimigo Público

Afinal, quando se trata de dinastias, o Público já dá o bracinho obstinado a torcer: «Para além do Panteão Nacional, a Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, tem também o estatuto de panteão. Lá está sepultado D. Afonso Henriques. Na Igreja de São Vicente de Fora fica o Panteão dos Braganças, onde estão sepultados os reis da última dinastia» (página 3). A não ser que seja — considerem eles — gralha. Esperemos por novos desenvolvimentos.

Discurso oral e escrita

Do ponto de ironia ao smiley

«Há muito que foi notado o quanto se perde ao transpor para a escrita a multidimensionalidade do discurso oral. Entoações, pausas ou flutuações de volume, elementos inevitavelmente ligados à voz, mas também expressões faciais, gestos ou posturas desvanecem-se quando fixados nesse outro meio.
Apesar do legado de Derrida, o filósofo que mais fez pela restituição da centralidade da escrita — ou melhor, pela descoberta de quanto o oral se rege pela escrita devido à iterabilidade dos actos de fala —, a atitude da cultura ocidental perante este seu traço fundador é a de tomá-lo como uma espécie de “pecado original” carente de redenção.» («“Don’t worry, be happy!”», Jorge Martins Rosa, Público/P2, 19.09.2007, p. 4). Quer ler a continuação do texto? Vale a pena. Pode encontrá-lo no Público e na página pessoal do autor, que é docente de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL.

Cadafalso e catafalco

Confusões

«Depois de depositada a urna no catafalco, a Banda da GNR interpretará o hino nacional» («Aquilino vai partilhar a sala com Humberto Delgado», Sandra Silva Costa, Público, 19.09.2007, p. 2). Por outro lado, pergunto a mim mesmo se o termo «catafalco» não merecia os mesmos cuidados que teve o vocábulo «cenotáfio». Com a polémica à volta do caso, ainda alguns leitores de boa-fé (e ignorantes, que, espantem-se!, também os há) vão dizer: «Ah, mas está muito bem que o ponham no patíbulo, afinal era um regicida!» Troca de verbetes: catafalco, do italiano catafalco, é o apoio sobre o qual se coloca um caixão, o mesmo que essa. Cadafalso, por sua vez, vem do catalão cadafal e é o palanque sobre o qual se executam condenados à morte. Embora, é bom que se veja, o catalão cadafal (s. XIII; d’origen incert, potser d’un ll. vg. *catafalicum, encreuament de fala ‘torre de fusta’ i catasta ‘estrada per a la venda d’esclaus’, amb el sufix -icum, segundo o Gran Diccionari de la llengua catalana) designe não apenas a «plataforma dreçada per a l’execució d’un condemnat», mas também «túmul».

Ortografia: «brócolos»

Deploro

      Preferia, é claro — não podendo ter as duas coisas —, que o Público, em vez de explicar o que é um cenotáfio, escrevesse correctamente a palavra «brócolos». «Uma vida feliz por um molho de bróculos» (Público/P2, 19.09.2007, p. 1). Logo na primeira página, em parangonas! Fica-lhe mal.


«Brócolos s. m. pl. (bot.) planta hortense, da família das crucíferas (Brassica botrytis cymosa), variedade de couve-flor, de que se comem os ramos em botão. [Há brócolos brancos, roxos e amarelos.] F. ital. Broccoli.» (in Aulete Digital).

Boas práticas

Aplaudo

«Para além das dez figuras que a partir de hoje estarão sepultadas na Igreja de Santa Engrácia, há ainda no Panteão seis cenotáfios*» («Quem está no Panteão», Público, 19.09.2007, p. 4). Viu bem, leitor: junto da palavra «cenotáfio» está um asterisco. Desta vez, o Público julgou curial que o leitor do jornal percebesse do que se fala, e por isso a nota de rodapé: «Um cenotáfio é um monumento fúnebre de homenagem a uma personalidade em que o corpo está ausente.» É só pena não proceder da mesma forma — louvável, mais do que louvável — com conceitos tão ou mais estranhos, e sobretudo com estrangeirismos e neologismos. Haja esperança.

Ensino do Português

Agora só falta trabalhar


Foram divulgadas na segunda-feira as recomendações da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, realizada em Maio deste ano. Respigo do Jornal de Notícias de ontem: «“Importa sensibilizar e responsabilizar todos os professores, independentemente da sua área disciplinar, no sentido de cultivarem uma relação com a língua norteada pelo rigor e pela exigência da correcção linguística”, aconselhou o comissário da reunião, Carlos Reis. No que respeita aos erros ortográficos, o professor e também reitor da Universidade Aberta alertou para o efeito prejudicial do excesso de tolerância perante tais falhas. «É fundamental que o ensino da língua considere o erro como efectiva transgressão de um sistema linguístico que tem regras. Assim, o professor de Português (e, com ele, os professores de todas as outras disciplinas) deve encarar o erro, alertando para a sua ocorrência e desincentivando a sua prática”, sublinhou. Neste contexto, deve instituir-se esta cultura de rigor e exigência na própria formação dos docentes, acrescentou, ainda» («Reforçar a gramática», Ana Oliveira Rodrigues, 18.09.2007, p. 9). Como seria de esperar, a Associação de Professores de Português (APP) não concorda que haja tal atitude permissiva. «“Nem pensar, não há qualquer permissividade. Nos exames os erros são penalizados e os alunos sabem disso”, contrapõe», segundo o Diário de Notícias de ontem, a vice-presidente desta associação, Edviges Ferreira. As recomendações finais foram ainda a de reintroduzir o ensino da gramática na aprendizagem da língua e integrar textos literários nas aulas.

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