Léxico: vicário

Sucedâneos seguros

«Só que o cidadão médio fica em casa, longe de qualquer ameaça ou de qualquer perigo, e se treme pela sua segurança, como dizem os jornais, treme com o gozo vicário do amador de soft-porn» («Espectáculos», Vasco Pulido Valente, Público, 9.09.2007, p. 44).

Vicário adj. (do latim vicarius, -a, -um) Que substitui outra coisa ou pessoa.

Gíria: capeador

É bom saber

«Em linguagem de rua, “era um grande capeador”. Um capeador é uma espécie de sinaleiro. Passa a vida junto a uma boca de tráfico de droga, a orientar “clientes” (toxicodependentes) para o seu “patrão” (o traficante). “Vai ao S.! O S. é que é bom!” Acumulava estas funções com as de mensageiro: detectava dois indivíduos, cheirava-lhe a polícia, gritava: “Água! Água!” Luís tinha o seu valor como mensageiro. “Via muito bem a bófia e ver muito bem a bófia é salvar o traficante.”» («Luís era um grande capeador», Ana Cristina Pereira, Público, 9.09.2007, p. 13).

Dalai-lama

Como?

«“Oficialmente, Dalai Lama não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio”, declarou a jornalistas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, à margem da reunião informal dos chefes das diplomacias dos Vinte e Sete, que ontem terminou em Viana do Castelo» («Governo evasivo sobre visita de Dalai Lama», Público, 9.09.2007, p. 8). O dislate não é, desta vez, do jornalista, mas do ministro. Dito assim, até parece que «dalai-lama» é o nome e não a função da pessoa, neste caso Tenzin Gyatso. Sendo uma função equivalente à de papa, substitua então o ministro um pelo outro e diga, sem se rir: «Oficialmente, Papa não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio.» O jornalista, repito, escreveu correctamente: «Instado sobre por que razões considerava óbvia a recusa do Governo de Lisboa em receber oficialmente o Dalai Lama, Luís Amado afirmou: “Pelas razões que são conhecidas.” Apesar de não ser recebido pelo Governo nesta sua segunda visita a Portugal, para uma conferência pública e ensinamentos budistas, o Dalai Lama vai manter encontros com deputados portugueses e com o alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio.»

Ortoépia: transgénico

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Tens a culpa, Eufémia


Não sou, nem pouco mais ou menos, um recta-pronúncia, embora procure sempre falar bem, articulando correctamente as sílabas. Não sou, por isso mesmo, suspeito ao afirmar que estranho muito e condeno que muita gente — e especialmente, que é o que interessa aqui, pelas repercussões, os jornalistas — não pronuncie o s da palavra «transgénico». «Trangénicos», dizem eles. «Crime», digo eu. Se o s está lá, é para se ler, ou não?

Clareza e precisão

Não percebo

      Lê-se no editorial, assinado por Nuno Pacheco, do Público de hoje: «Agora que Kate e Gerry McCann, pais de Madeleine, foram constituídos arguidos (o que não quer dizer culpados ou réus, distingam-se os conceitos) por, diz a PJ, suspeita de envolvimento num crime de ocultação de cadáver (são estes os termos usados), é mais do que nunca necessária uma atitude prudente e distanciada da imprensa, tal como é fundamental que a polícia cumpra o que lhe é exigido desde o início neste caso, que exige respostas claras e pistas seguras e não bodes expiatórios para proveito mediático» («O caso Maddie e os riscos que ainda se corre», 8.09.2007, p. 36). Porquê a oração parentética «são estes os termos usados»? Como se os referidos termos — que suponho serem somente os últimos dois: «ocultação de cadáver» — fossem algo abstruso, de tão incomum, incompreensível para o leitor. São, quem escreve sabe-o bem, os termos da lei, o artigo 254.º («Profanação de cadáver ou de lugar fúnebre») do Código Penal. Nem a recentíssima, de 4 do corrente, vigésima terceira alteração (Lei n.º 59/2007) ao Código Penal, que é de 1982, buliu nos termos deste artigo. Logo num tempo, e esta edição do Público é particularmente ilustrativa da tendência, em que se verifica uma judicialização extrema da sociedade e dos meios de comunicação, estranha-se a estranheza.

Uso do hífen

Simples, por favor

Atenção: o jornal Público começou hoje a escrever o conjunto «casa de banho» com hífenes! «Um apito e uma lanterna para obrigar indianos a ir à casa-de-banho» (Público/P2, 8.09.2007, p. 5). Parece ser uma convicção firme, pois escreve assim onze vezes, mas recentíssima: no dia 2 do corrente, por exemplo, punha o senador Larry Craig a instar por sexo contranatura numa casa de banho convenientemente desifenizada: «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, P2, 2.09.2007, p. 7). E dois dias depois, ainda, como não, a propósito do picolho hipócrita, lá estava uma latrina do mesmo género, igualmente desataviada de hífenes: «Então não é que um senador do Partido Republicano dos EUA, conservador e puritano, anti-gay, foi preso por conduta obscena numa casa de banho de um aeroporto do Minnesota?» («A conduta obscena da lei americana», José Vítor Malheiros, 4.09.2007, p. 33). Como é que em quatro dias se esqueceram de que nas locuções substantivas o hífen é dispensável?

Estrangeirismos

Take guilt

Um leitor, Júlio Alves, avisa-me: «Já temos um chief nursing officer, por despacho do Ministro António Correia de Campos (DR, 2.ª série, 31/08/2007). Aguarda-se a nomeação do xerife (não na sua etimologia árabe…).» Fui confirmar para lamentar. De facto, na 2.ª série do Diário da República, n.º 168, lá está o Despacho n.º 19 816/2007: «Considerando a importância que tem para o País a função de chief nursing officer, no âmbito da política de enfermagem, que providencia um aconselhamento especializado nas matérias desta área da prestação de cuidados, com relevância específica no que concerne a medidas de intervenção na actuação dos enfermeiros; Considerando as qualidades pessoais e experiência profissional do enfermeiro Sérgio Gomes, mestre em Ciências de Enfermagem, designadamente o seu trabalho como representante da Direcção-Geral da Saúde nas reuniões do Chief Nursing Officers desde 2005; Considerando que o enfermeiro Sérgio Gomes se encontra actualmente a coordenar a organização da próxima Reunião Internacional para os dias 15 e 16 de Novembro de 2007, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia: Designo o enfermeiro Sérgio David Lourenço Gomes para chief nursing officer, competindo-lhe desenvolver as seguintes atribuições: […].»
É assim que os governantes defendem a língua portuguesa? Pergunto: não saía da cachimónia de nenhum assessor uma designação legitimamente portuguesa? O Inglês obrigatório é para isto? Na página 3 da edição n.º 13, de Julho de 2004, da revista da Ordem dos Enfermeiros, leio a seguinte nota do tradutor em relação à locução chief nursing officer: «A tradução literal “chief nurse” e “chief nursing officer” não se adequam à realidade nacional [,] pelo que optamos por adaptar a tradução à função desempenhada por estes enfermeiros na maioria dos estados-membros [sic].» A designação encontrada foi «assessor ministerial de enfermagem».

Antropónimos gregos

Clássico mas pouco

      Da recensão da obra A Civilização Grega, de André Bonnard (Edições 70), publicada por José Pedro Serra no Público/Ípsilon de hoje, extraio o seguinte parágrafo final, com interesse para tradutores e revisores: «A tradução de José Saramago é fluente e agradável, mas é inaceitável o modo descuidado como foram vertidos para português os nomes próprios gregos. De entre os muitos casos, indico apenas alguns exemplos mais flagrantes: Fénis (31) por Fénix; Nannô (88) por Nano; Árete e Cibele (130) por Arete e Cíbele; “Orésteia” (156, 168, 169, 179) por “Oresteia”; Átridas (168, 170, 171) por Atridas. No caso presente, não se trata de gralhas. Quanto aos nomes, a confusão é grande: Pártenon, ora aparece nesta grafia correcta (7, 195…), ora na incorrecta forma Parténon (193ss — ao contrário do que ocorria na tradução publicada em 1966); Eurípides, não poucas vezes, é mencionado como Eurípedes (97, 128, 134, 160…), e Erecteu aparece na grafia Erectêione (193) e Erecteion (231). Os mapas apresentam inúmeros erros, além de neles constarem designações em francês. É este mesmo descuido na edição que faz com que as poucas citações em grego estejam cheias de erros (466, 705). Esta obra justificava uma revisão cuidada dos nomes — e bastaria consultar F. Rebelo Gonçalves, “Vocabulário da Língua Portuguesa” ou Maria Helena Prieto, “Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos”» («A herança grega», José Pedro Serra, Público/Ípsilon, 7.09.2007, p. 39).

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