Círculo e ciclo

Viciosos e virtuosos

«Ciclo de amigos»? Já bastou ter de aturar alguém a resmungar que não se diz, «que estupidez», «círculo vicioso». Mas diz, é esta a expressão consagrada. E, argumento de analogia, é assim em várias línguas. «Após a divulgação nos media de que a criança poderia ter sido morta na casa onde passavam férias e a viatura dos MacCann* ser submetida a uma perícia, juntamente com as do seu ciclo de amigos, as suspeitas atingiram também os pais de Maddie» («Pais de Maddie mais reservados em relação à PJ», Idálio Revez, Público, 9.8.2007, p. 8).

* «Dos MacCann»? Em que língua é que isto está escrito? Em português não é, certamente, e em inglês a regra também é pluralizar os apelidos. Basta ver: «Truth, lies and the smearing of the McCanns» (The Independent); «100 days on, and the agony sharpens for the McCanns» (The Observer); «Emotional Farewell For The McCanns» (Sky News).

Léxico: «brontocrata»

Olha quem fala

Ao que parece, foi o actual presidente do Senegal, Abdulaye Wade, quem cunhou o termo «brontocrata», em referência aos dirigentes que estão há muitos anos no poder: Robert Mugabe, Félix Houphouet-Boigny, Yoweri Museveni… E ele sabe do que fala, não tanto por estar há muitos anos na presidência (embora esteja na política desde 1974), mas por ter sido reeleito, em Fevereiro, para o cargo, que ocupa desde 2000, tendo 80 anos. Só falta ceder à última tentação: alterar a constituição para poder concorrer a um novo mandato, prática a que são atreitos muitos líderes africanos.

Tradução: «scarlet letter»

Falemos de cores e não de cor

A locução scarlet letter, encontrável no corpus legal anglo-saxónico, tem origem no título homónimo da obra de Nathaniel Hawthorne. Nos EUA, vigora actualmente uma lei que impõe uma scarlet letter: «a license plate that indicates the automobile’s owner has been convicted of driving while drunk». Num dicionário online, pode ler-se: «Etymological Note: This is a more specific sense of scarlet letter ‘a badge or symbol worn to indicate the bearer has committed a crime,’ often used figuratively. It originated in Nathaniel Hawthorne’s 1850 book The Scarlet Letter, in which a scarlet-colored A was worn as punishment for adultery.» Para o leitor português, tal locução pouco significará, mesmo que se lhe acrescente o qualificativo «internacional». (Claro que não ajudará nada que, entre nós, o título da obra-prima de Hawthorne tenha sido traduzido por «A Letra Escarlate» e «A Letra Encarnada». Como traduzirão scarlet fever? «Encarnadina»?) Um exemplo: se o Conselho de Segurança das Nações Unidas congela os bens e proíbe alguém (habitualmente um ditador ou um criminoso de guerra) de viajar, isso é o equivalente a uma «international scarlet letter». Equivalente, ou seja, a locução não faz parte da linguagem jurídica internacional. A scarlet letter é um estigma.

Etimologia: «pelouro»

À lei da bala



      «Pelouro» é, convenhamos, uma boa palavra, de sabor antigo. Inicialmente, um pelouro era apenas uma bala de pedra ou de metal usada nas antigas peças de artilharia. Nem mais. Leia-se Camões n’Os Lusíadas: «Com toda hũa coxa fora, que em pedaços/Lhe leva um cego tiro que passara,/Se serve inda dos animosos braços/E do grão coração que lhe ficara;/Até que outro pelouro quebra os laços/Com que co alma o corpo se liara:/Ela, solta, voou da prisão fora/Onde súbito se acha vencedora.» Estes eram pelouros que os vereadores desdenhariam, ou, quando muito, apenas apreciariam como pesa-papéis, nunca como meio de verearem fosse onde fosse. Como é que então de uma bala de pedra ou de metal se passou para a designação dos sectores da administração de um concelho ou freguesia? Pois muito simplesmente porque os pelouros também eram bolas de cera ocas em que se introduziam os votos para a eleição do juiz ordinário e vereadores da governação local. Estes pelouros eram depois guardados na arca dos pelouros.

Pronúncia: Dario

Melões reais

O meu avô materno chamava-se Manuel Maria e não era filósofo. Quando um dia decidiu ter uma mercearia, um dos dois fornecedores de melancias e de melões chamava-se Dario. (O outro era o pai de Paco Bandeira, mas essa é outra história.) Tanto o meu avô, que não era filósofo, como o fornecedor, que se chamava Dario, pronunciavam o antropónimo com tónica no i. Ambos ignoravam, presumo, a existência do rei persa Dario I, o Grande, e as regras da ortoépia — único ponto em comum com a apresentadora Herança de Verão, Tânia Ribas de Oliveira, que pronunciou /Dário/.

Falsos cognatos

Por acaso…

      Quando falamos de falsos cognatos, esquecemo-nos quase sempre da palavra «casual». Claro, salta logo à vista que um eventually quase nunca é «eventualmente», como namely nem sempre é «designadamente» e aparently nunca é o nosso «aparentemente». Por casualidade, deixamos passar o «casual». Ele, seja lá quem for, aparece «strolling casually up to the plane like he was walking down the street to the local convenience store to get the paper». Pode comprar um jornal por acaso, mas ali vai descontraidamente. Casual no sentido de informal é puro anglicismo semântico — dispensável.

Viriato e viriatos

Revisionismo

Sabia, mas já não me lembrava: Viriato nem sequer se chamava Viriato! Depois do choque, já só memória, de ter sabido que os Espanhóis o acham uma personagem histórica deles, o que, bem pensado (e depois do choque), nem sequer pode ser contestado com muita razão, releio esta afirmação de Roby Amorim: «Barão (aliás varão) é o homem, a figura viril, ousada, responsável. Os lusitanos já tinham adaptado a palavra do latim. Os seus chefes denominavam-se viriatos (o homem que lutou contra as legiões de Décio Junio Bruto chamar-se-ia qualquer outra coisa, o seu cargo é que era o de viriato — e por isso usava uma argola na coxa, a viria, como símbolo da sua virilidade)» (Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis, Edições Salamandra, Lisboa, 2.ª edição revista e ampliada, p. 82).

Paradoxo de Baker/baker

O coiso… Como é que ele se chama…

No rescaldo do julgamento dos agressores do eurodeputado Francisco Assis, o que mais me impressiona (logo depois da cobardia dos agressores, mas essa foi cominada pela juíza) é a profissão deles: um alfaiate, um sapateiro, um empregado de balcão e, por último, um vigilante. Bem sei que tudo se passou na província, mas parece reflectir — com excepção, talvez, do vigilante — a composição da população de há cem ou duzentos anos. Mas não é de aspectos demográficos e socioeconómicos que quero falar, mas sim do facto de dificilmente retermos o nome de certas pessoas. Reparem: três dos quatro agressores têm como último apelido Sousa; o quarto tem como apelido Rodrigues. Ninguém se recordará dos seus nomes (nem, no caso, há razão para tal). Mais facilmente nos recordaremos das suas profissões. Os Anglo-Saxões chamam a isto o paradoxo de Baker/baker. Só faltou um padeiro, para tudo ser perfeito.

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