Balcãs

Cosmopolitismo

Talvez por estar, anacronicamente, na Sociedade das Nações, Nuno Rogeiro diz sempre «Balkans». Ora, sendo notoriamente a pessoa que em Portugal mais usa a palavra, convinha que a dissesse em português, porque — já reparou? — na nossa língua também existe. O termo «Balcãs», de um étimo turco que significa «viscoso de sangue», começou a ser usado na Europa Ocidental no século XVIII.
Esta cadeia montanhosa, parte dos Cárpatos, tinha, na Antiguidade, o nome de Haemus mons, que agora só existe na Lua. Os (supostos, supostos) habitantes da Lua são os selenitas. Lunáticos e nefelibatas, só na Terra. Camilo Pessanha. O efidro (Ctesíbio!) é o recipiente superior da clepsidra. Gnómon. Os erros d’O Código Da Vinci. Cloux. Clos. Natália Correia. Ary dos Santos. Outra vez em casa. Sim, associação de ideias. Policiário. É do calor, estão 40 ºC em Lisboa.

Rio Tamisa ou Thames?

Livre de Estilo

Não deixo de lamentar os nove mortos causados pelas cheias no Reino Unido. Mas, para já, preferia que Anabela Mota Ribeiro, correspondente da Antena 1 em Londres, dissesse «Tamisa». Diz «Thames», o que pode ser uma escolha. Mais surpreendente ainda: certa vez, uma professora de Inglês ergueu as sobrancelhas quando eu disse «Tamisa». Ignorava, confessou. Contudo, até os dicionários etimológicos ingleses registam: «The Thames is first mentioned in English around 893 in King Alfred the Great’s Orosius. At the time it was called the Temese, a form believed to come from an earlier, unrecorded English *Tamisa.» Noé Monteiro, enviado especial da RTP ao Reino Unido, diz «Tamisa». Bem podemos dar-lhe os parabéns: noe.monteiro@rtp.pt. Tanto a um como ao outro, ouvi-os na Antena 1. E ainda que assim não fosse: afinal, trata-se da Rádio e Televisão de Portugal. Diz-se agora que o «processo de discussão» do Livro de Estilo da redacção da RDP se inicia até ao fim do ano.

Etimologia: quórum


The truth is not a matter of majority opinion, even of near-unanimity. On contrary.
George Steiner

Depois de uma reunião


E já que usei o vocábulo «quórum» no penúltimo texto, aproveito para dizer donde vem. Nos corpos colegiais da antiga Roma, cada novo membro era recebido mediante a fórmula «quorum vos unum esse volemus» — dos quais queremos que tu sejas um. Por vezes, na verdade, não queremos tal, e até preferíamos que o indivíduo pertencesse a outra associação, a outro condomínio, a outra assembleia. A outro país, a outro continente. A outro universo. «Pensa mal das pessoas, não te enganarás», recomendou Cesare Pavese. Em italiano soa melhor: Pensa mal, non ti sbaglierai.

Semântica: trovador

Procura e achar-me-ás

O que é um poeta senão um achador? Achador de modos de expressão, de ideias originais. Pois os trovadores provençais e galego-portugueses faziam isso mesmo e o nome reflectia-o, já que «trovador» vem do provençal trobador, achador, do verbo trobar. Aliás, em catalão (assim como nos vários dialectos do aragonês, mas não no galego, e em castelhano somente como termo antigo) ainda hoje o verbo trobar significa também «descobrir una cosa que hom cercava». Vol vendre’s la casa, però no troba comprador. O vocábulo passou a fazer parte do catalão no século XII e, segundo o Gran Diccionari de la LLengua Catalana, terá vindo do latim vulgar *tropare, variante reduzida do latim tardio contropare, «falar figuradamente, comparar», derivado do latim tropus, e este, do grego tropos, «figura retórica»(1). De «criar, inventar formas poéticas» passou a «inventar, descobrir», em geral. Em termos semânticos, é próximo do latino invenire, que também significa encontrar algo e criar literariamente.



(1) Entre nós, Rodrigues Lapa afirma o mesmo, discordando assim dos que vêem o étimo em turbare. Contudo, até do ponto de vista fonético *tropare se afigura mais provável. Tem sido desde sempre questão muito controversa.

Chegar, verbo pessoal

Chega-me aí uma gramática

Mário Crespo perguntou anteontem, no Jornal das Nove (Sic Notícias), ao deputado social-democrata Miguel Relvas: «Chega dois candidatos?» A resposta não interessa nada; a pergunta, muito. Está mal formulada, enferma de um erro comum. O verbo chegar concorda com «dois candidatos», porque não é impessoal. Pode variar em pessoa e número concordando sempre com o sujeito. Aquilo que chega ou não é o sujeito sintáctico do verbo. Erro a fazer lembrar outro, o do verbo faltar, já aqui duas vezes referido. Estes dois e ainda o verbo bastar, todos grandes vítimas de atropelos, são verbos pessoais. Bastavam mais uns votos para o candidato ser eleito. Basta um candidato. Faltam cinco meses para o fim do ano. Falta um condómino para termos quórum. Chega um pacote. Chegam dois candidatos?

Etimologia: gaforina, marrafa

Retrato de Elisabetta Gafforini: http://purl.pt/

Pilosidades


É interessante ver como a partir de certa altura a moda passou a consagrar o nome de certas figuras da sociedade. Quando hoje usamos o termo «gaforina», a quem ocorre logo que provém do nome de uma soprano italiana, Elisabetta Gafforini, que passou no início do século XIX pelo Teatro de S. Carlos? Tirando o penteado espalhafatoso, só sabemos que era senhora de uma voz límpida, ressonante e dúctil. Eça de Queirós, nas Cartas de Paris (II), usa o termo: «A sua aparência era hoffmânica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes numa face ascética e uma gaforina descomunal, crespa, revolta e cor de estopa.» E, antes, já António Feliciano de Castilho o fizera: «— Acabou-se a tua enfiada de despropósitos? — perguntou D. Luís, dando em face do espelho o último toque de pente à gaforina e ao bigode» (Mil e Um Mistérios, Capítulo XXII).
Nos cortes masculinos, foi o dançarino italiano Marraffi, que também passou pelo Teatro de S. Carlos, ainda no final do século XVIII, que deu o nome à marrafa. Antes, para as mulheres, os penteados à Pompadour tinham estado em voga. Mas ainda o cabelo. À escovinha, à garçonne, à inglesa, à máquina zero, à tigela, afro, carapinha, carrapito, grenha, guedelhas, juba, madeixa, mecha, melena, poupa, rabo-de-cavalo, repas. Rente. E as tranças, os totós e os bandós. Intonso. As cãs, os caracóis e as ondas. E o cabelo de Medusa transformado, por castigo, em serpentes. E o cabelo de Sansão. E os capachinhos e chinós. E o peyos dos judeus. E o sendi dos hindus. E dos iogues o xendi. E o chindim no alto da cabeça. E o rabicho dos antigos chineses. E os bigoudis («“Papelotes”, vizinha, diz-se “papelotes”!»). E o contrário disso: os calvos. Glabros. Glabriúsculos. Glabérrimos. E a tonsura. Para ficarmos ainda em França, foi lá que nasceu o general Louis-Eugène Cavaignac (1802-1857), que deu nome ao cavanhaque, agora quase esquecido. E as peras, a barba passa-piolho (como a do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia), as suíças, a costeleta, as favoritas e as patilhas. E o bigode calamistrado. E as guias enceradas. E Hanun, que rapou metade da barba dos servos de David. E os leigos ou conversos barbati. Nome feminino a condizer com este texto é Madalena, que vem do hebraico e significa «a dos cabelos penteados». Mas não vale a pena chorar nem ficar pelos cabelos.

Ortografia: cardiorrespiratório

Da falência do tojo

«Isabel sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus em 55 por cento da superfície corporal, que foram determinantes de um quadro de choque séptico, com falência multiorgânica, que lhe provocaram uma paragem cardio-respiratória e a sua morte, nos Hospitais da Universidade de Coimbra» («Vinte anos de prisão para professor que regou ex-namorada com gasolina e ateou o fogo», António Arnaldo Mesquita, Público, 19.07.2007, p. 13). Todos os dicionários que consultei registam «cardiorrespiratório». A «falência multiorgânica» é escusado jargão médico. Por mim, e suponho que por todos os leitores, trocava-o de bom grado pela correcção da grafia. E, já agora, se não fosse pedir demasiado, também teria sido bom que não se dissesse um disparate como este: «O acórdão salienta que, inconformado com a renitência da ex-namorada em manter o relacionamento amoroso, o professor atirou Isabel para cima de uns arbustos e tojos.» O que julga o jornalista que são tojos? Fósseis? Tojo e arbustos é tudo arbustos — não é preciso ser-se licenciado em Botânica para o saber. É só, pergunta o leitor? Não, não é: a começar pela diferença de regência do verbo atear no título e no corpo da notícia, passando pela «superfície corporal» (que qualquer médico-legista não enjeitaria), muito havia a alterar.

Regência do verbo «atender»

Realmente

      «01h25 — Ambulância chamada ao clube Tiger Tiger, em Haymarket, para atender a uma pessoa doente. Os tripulantes vêem fumo sair de um Mercedes estacionado próximo» («Cronologia da investigação», Susana Moreira Marques, Público, 30.06.2007, p. 16). Na escrita jornalística, não é muito vulgar esta regência, correctíssima, do verbo atender — no sentido de prestar apoio, cuidar de —, em que surge como transitivo indirecto.

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