Sob e sobre, outra vez

Deixa-me rir

Eduardo Madeira — o humorista, não o ciclista — é, sem qualquer dúvida, muito talentoso, mas tem de ter atenção a certas coisas elementares na escrita, e não é exigir muito a quem vive desta: «A lógica desta junta parece-me, sobre um certo ponto de vista, acertada» (Destak Fim-de-Semana, «Lógica kafkiana», 6.07.2007, p. 7. Ver aqui). É sob que se diz e, melhor ainda, conforme ensinava o Prof. Vasco Botelho de Amaral, de: «A lógica desta junta parece-me, de um certo ponto de vista, acertada.» Já que somos tão solícitos em imitar os estrangeiros, que imitemos o melhor deles. Não é, infelizmente, a primeira vez que aqui falo desta questão tão comezinha.

Está bem?

Obrigado

Ao passar por uma rua aqui em Benfica, vejo uma engomadaria com um nome que é um achado: Passar Bem!, a saudação brasileira. Por associação de ideias, lembrei-me do meu pai, que cumprimentava sempre as pessoas com um «está bem?», e não o, agora comum, «está bom/boa?». Lembrei-me depois de ter lido algo sobre o assunto em Pedro da Fonseca — não o Aristóteles Lusitano, de Proença-a-Nova, mas o padre Pedro da Fonseca, de Vide-entre-Vinhas, autor de um estimável (mas a precisar de uma revisão tipográfica profunda, não se podendo fazer um expurgo anti-reaccionário) Venha Comigo Aprender Português, publicado em 2002. «“Bom ou mau”, referido a pessoas, denotam, por certo, qualidades morais, boas ou más. Trata-se, pois, de comportamento ou de sentimentos. Saudando alguém, não temos em vista as suas qualidades ou atitudes, como também os sentimentos pessoais. Indagamos, sim, da maneira como vive… se tudo corre bem ou então vai mal. Em razão disto, a forma correcta é a seguinte: Está bem? Está mal?» (p. 7 da obra citada).

Conjugação perifrástica

Ah, não

«O meu minuto vai para um somatório de tiques autocráticos do actual Governo e da actual maioria que começam, pelo seu volume, a serem preocupantes» (Guilherme Silva, deputado social-democrata ao Jornal das Nove, da SIC Notícias, 4.7.2007). «Começam a serem»? Na conjugação perifrástica, se o verbo auxiliar, que não seja um infinitivo, preceder um infinitivo, é incorrecto flexionar este último. Na TLEBS, que ainda não morreu, ou se está morta jaz insepulta, no subdomínio da semântica frásica, considera-se a forma começar a (tal como acabar de, andar a, continuar a, deixar de, estar a, ficar a, ir a e vir a) + infinitivo como marca da categoria aspecto gramatical. O aspecto, lembremo-lo, exprime o ponto de vista do locutor em relação ao desenrolar da acção, que, neste caso, é inceptivo ou incoativo, ou seja, exprime o começo de acção. O aspecto incoativo pode ser expresso não somente pela perifrástica como também pelo próprio conteúdo lexical do verbo (Elas adormeceram logo.) ou pelo sufixo (Amanhecia e era Setembro.).

Comuníssimo

Se não sabe, não diga

«Eu dou um exemplo, quer dizer, que é comunsíssimo» (Prof. Diogo Leite Campos, fiscalista, em entrevista ao Jornal das Nove, Sic Notícias, 4.7.2007). Valha-me Deus! O superlativo absoluto sintético de comum é comuníssimo. Porque provém do latino commune-. Como é que um professor universitário se exprime assim? Que alguém lhe diga: dlcampos@fd.uc.pt.

Ora seja?

Id est

Já não há dúvidas: Mário Crespo, ora seja muito bem-vindo de novo a este espaço, julga que ao dizer «ora seja» está a dizer qualquer coisa com o mesmo significado da locução explicativa «ou seja», «isto é». Não está. E seria bom que alguém lhe dissesse, porque Mário Crespo não tem manifestamente conscientia sceleris. A bem dos telespectadores.

Semântica: «mongolismo»

Uma controvérsia


      A leitora M. A., em conversa com um amigo, usou o termo «mongolismo», tendo sido censurada por o ter feito, pois, na opinião desse amigo, era termo «popularucho», querendo com isso significar que era próprio dos ignaros usá-lo. M. A. quer saber a minha opinião. Bem, é verdade que algumas, pouquíssimas, publicações e sites se vêem forçados a explicar que é termo «popular» ou usado pelo «vulgo». Contudo, é bom ver mais longe. Assim, só em 1964 é que a revista médica The Lancet deixou de usar o termo; a Organização Mundial de Saúde (OMS) fê-lo em 1965 e o Index Medicus só em 1975 o expungiu. Aliás, se é pejorativo é para os Mongóis, pois foi a representação da Mongólia junto da OMS a primeira a apresentar um protesto formal pelo uso do termo em medicina. À luz da teoria da evolução, parecia o termo adequado, e a designação síndrome de Down, que é uma homenagem ao médico inglês John Langdon Haydon Down (1828-1896), que em 1866 descreveu algumas crianças com esta síndrome internadas num asilo em Surrey, só mais tarde foi adoptada. Somente em 1958, com a descoberta do Dr. Jérôme Lejeune (1927-1994) de que esta síndrome é provocada pela existência de um cromossoma 21 supranumerário, é que se passou a designar por trissomia 21. Nenhum dos dicionários que consultei dá conta do facto de ser vocábulo pejorativo, excepto o Dicionário Médico de L. Manuila et al., publicado pela Climepsi, que diz que é «termo actualmente rejeitado», embora não se abstenha de, no verbete «síndrome de Down» (e, significativamente, não deixa de ter o verbete «mongolismo»), referir os «Mongóis» e o «fáceis mongólico».

Ortografia: videoconferência

A propósito

      «E-mail e vídeo-conferência no televisor lá de casa» (Nuno Sá Lourenço, Público/Digital, 30.06.07, p. 7). O Público insiste em grafar desta forma a palavra, embora não ignore que o elemento video- se solda sempre ao elemento que se segue: videoalarme, videoamador, videocâmara, videocassete, videofone, videografia, videojornal, videoteca…      Mais à frente: «Uma das soluções que estamos a estudar é receber no televisor as suas mensagens. Ou [,] por exemplo, vídeoconferência no mesmo televisor.» Pelo acento agudo, percebe-se que falta o hífen repetido na linha de baixo. Faltará mesmo? Lembram-se das instruções para as propostas de escrita das provas de aferição de Português? Pois bem, recordem-se que são erros ortográficos, entre outros (e o perigo de esta indicação não ser taxativa está à vista), a «ausência de duplo hífen na translineação de palavras com hífen». Isto é o que toda a gente diz, se bem que as gramáticas e prontuários afirmem algo diverso: «Como se sabe, o hífen usa-se no final de uma linha, se é necessário partir a palavra para continuá-la na linha seguinte. No caso de a palavra já conter em si um hífen e partir por aí no final da linha, é preferível repetir o hífen na linha seguinte, pois a escrita ficará mais clara» (Novo Prontuário Ortográfico, José Manuel de Castro Pinto, 2.ª ed., Plátano Editora, 2002, p. 179). Preferível. Não me parece muito judicioso tornar obrigatório o que sempre foi opcional.

Léxico: «edêntulo»

Assim não morde


      A leitora Ana Correia quer saber o que significa «edêntulo», pois não vê a palavra dicionarizada. Não sei se viu ou ouviu a palavra isolada ou, pelo contrário, inserida numa frase. Se foi isto que aconteceu, estava decerto a qualificar, pois é um adjectivo, uma «mandíbula» ou um «maxilar». É conversa de dentistas, pois o vocábulo pertence ao léxico especializado desta profissão. Edêntulo, que provém do latim edentŭlus,a,um, significa desprovido de dentes, desdentado. Está registado no Dicionário Houaiss.



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