Erros e gralhas


Eros e tralhas
Erros e gralhas



      Está, admitamo-lo já, no sítio certo: na rubrica «Errâncias» (p. 14), do Público/Fugas de hoje. O paginador esqueceu-se deste trecho de latim tapa-buracos. Ninguém deu por nada, de tão habituados que estão a ler os clássicos latinos. E lá temos o leitor exigente deste jornal de referência pollice verso. Mais um caso para o provedor. E, porque de errâncias se trata, lembro-me agora que a palavra espanhola proveedor («fornecedor») costuma ser mal traduzida por «provedor». Mas o provedor dos leitores espanhol é o defensor del lector. Talvez (?) menos grave do que confundir EPAL, IPPAR e EPUL, mas ainda assim pouco abonatório dos conhecimentos dos tradutores.

Gramática

Perdidos e achados

Se fizermos uma pesquisa no Google ao nome Manuel de Faria Calvet de Magalhães, só obtemos dois resultados: um num site brasileiro, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, outro num site português, da Biblioteca do Supremo Tribunal de Justiça, ambos referentes ao Dicionário Trilingue: Português, Francês e Inglês, publicado em 1960 pela Editorial Confluência. Está assim no limbo uma gramática — Gramática Prática da Língua Portuguesa — do mesmo autor que supera muitas das gramáticas escolares actuais. A secção dos barbarismos e solecismos devia ainda hoje figurar em qualquer gramática, tal como a secção sobre os usos do infinitivo, os empregos das preposições e a construção da perifrástica. Um bom serviço seria uma editora reeditar esta obra de tão grande utilidade.

Linguajar pseudojurídico

Para ti também


      Datado de 17 de Maio deste ano, eis um despacho do juiz substituto brasileiro Marcus Abreu de Magalhães, da comarca de Sonora: «Declino à conspícua escrivania o presente encartado, com fincas ao dealbar nesta urbe do luculento arconte, que inaugura a comarca.» Tão-só. Este sibilino despacho foi descoberto por Sérgio Rodrigues, autor da excelente coluna No mínimo A palavra é…, que hoje chega ao fim. Se algum dos meus leitores conseguir encontrar algo na justiça indígena que se aproxime remotamente em comicidade, por favor contacte-me com urgência.

Apostila ao Ciberdúvidas

Mude-se a realidade


      É verdade que os dicionários não registam a palavra «peticionante», como refere o consultor do Ciberdúvidas Carlos Marinheiro, mas daí não se segue que a palavra só pode ser «peticionário». E só espero que o consulente Luís Ameixa, que julgo tratar-se do deputado socialista pelo círculo de Beja Luís António Pita Ameixa, não se levante, como advogado que também é, indignado em plena sala de audiências e, perante a declaração do juiz de que «o peticionante é condenado no montante de x unidades de conta», desate a exclamar que isso nunca — pois a palavra nem sequer existe! Ou, em sessão plenária da Assembleia da República, vote contra uma petição só porque é usada a palavra «peticionante». Devemos mudar a realidade ou os dicionários?


Uso do travessão

Para pensar

Talvez já não possamos ignorar por muito mais tempo o uso expressivo do travessão que é feito em inglês. Atente-se no exemplo:

«“A week or two?” he shouted in disbelief. “Mother, wait, what do you expect me to—“
The line went dead. Seething, he dialed her number again, and got a busy signal.»

Na verdade, o travessão não tem aqui o mesmo valor das reticências. Aqui, o travessão representa quase sempre uma interrupção brusca e involuntária da fala da personagem, seja por uma fala de outra personagem, seja por um qualquer fenómeno natural ou acção exterior. O que é muito diferente de, por exemplo, isto:

«“So peaceful here,” he said with an apologetic half-smile. “I just wanted… Listen for a moment.”»

O eventual problema é o de o corte assim assinalado coincidir com a passagem do discurso directo para o indirecto, entre nós ainda generalizadamente marcado, e bem, pelo travessão, desvirtuando-se então a intenção do autor. Porque nunca iríamos duplicar o travessão, claro.

Interjeições

Tsch, tsch, tsch


Outside of a dog, a book is the best friend of a man. Inside a dog, it’s too dark to read.
Groucho Marx

Num noticiário da Antena 1, ouvi na semana passada um jornalista começar uma notícia com um teatral «tananã». Na antiga Emissora Nacional, seria motivo para despedimento com justa causa, mas não é disso que quero falar. Uma vez um tradutor estrangeiro pediu-me uma lista de interjeições e de onomatopeias. E eu dei-lha, é claro, porque apreciei o esforço que ele fazia para perceber a idiossincrasia de uma língua em aspectos aparentemente menores como estes. Não é raro ler nas traduções interjeições como mmm, er, wow, hey, he, entre outras igualmente estranhas à nossa língua. Ora, se não dizemos ¡ay! nem ¡guay!, porque havemos de considerar que mmm ou er, as mais frequentes em obras de língua inglesa, são familiares ao leitor português? Hum, acho que há aqui qualquer coisa mais do que falta de cultura… E a propósito, nem tudo o que parece interjeição na banda desenhada o é. Por exemplo, a representação de um beijo — smack — é na verdade um clique: um som oclusivo produzido pela sucção do ar preso entre duas oclusões, como é designado em Fonologia. Usado como interjeição, isso sim.

Etimologia: náusea

Nas vascas da agonia

      Cara Luísa Pinto: o vocábulo «náusea» vem directamente do latim nausea e este do grego nausía, derivado de nautes («navegante», como em aeronauta, aquanauta, argonauta, astronauta, cosmonauta, infonauta, internauta, lunauta, oceanauta, protonauta), do qual provém também a palavra grega naos («nave»). No início era, pois, apenas padecimento de navegantes provocado pelo movimento repetitivo das embarcações, tendo também a designação de naupatia. (Um termo mais geral é cinetose, e este é mal que atinge desde o feliz mochileiro trota-mundos ao infeliz funcionário público que atravessa o Tejo de cacilheiro. Passando, claro, pelos antigos trota-conventos.) Por extensão de sentido, «náusea» passou também a designar a repugnância ou aversão por alguma coisa — nas grávidas e em todos nós.

Apostila ao Ciberdúvidas

Só para mestres

Um consulente do Ciberdúvidas, Leonel Mayer, quis saber se a construção «intime-se-a» é errónea. Trata-se, pois, da conformidade de se com outros pronomes. O consultor Carlos Rocha afirma categoricamente que «o pronome se, seja qual for o seu valor (partícula apassivante, sujeito indeterminado, pronome reflexo), não é compatível com o pronome átono de obje(c)to dire(c)to da 3.ª pessoa (o/a, os/as)». Conclui dizendo que «a frase em questão é, portanto, agramatical (*«intime-se-a»)».
Invulgar, sim, mas sempre a tive como correcta. Se um argumento de autoridade servir, leia-se Fernando Venâncio na obra Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 1.ª ed., 2002): «Tome-se um português, observe-se-o de todos os lados, por dentro e por fora, da ponta dos pés ao cimo da alma» (da crónica «O português em quatro volumes», p. 65). Distracção do autor, acha Carlos Rocha? Mais um exemplo, ao virar da página: «Apreciando distanciadamente os hábitos gerais, pegava-se de quando em quando um indivíduo pelo chumaço, e deixava-se-o ir logo depois, amarrotado, desconjuntado, ávido de que chegasse a vez de outro.» Continuaria por aqui fora, com exemplos deste e de outros bons autores — mas tenho ali o pequeno-almoço à minha espera.

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