Uso do travessão

Para pensar

Talvez já não possamos ignorar por muito mais tempo o uso expressivo do travessão que é feito em inglês. Atente-se no exemplo:

«“A week or two?” he shouted in disbelief. “Mother, wait, what do you expect me to—“
The line went dead. Seething, he dialed her number again, and got a busy signal.»

Na verdade, o travessão não tem aqui o mesmo valor das reticências. Aqui, o travessão representa quase sempre uma interrupção brusca e involuntária da fala da personagem, seja por uma fala de outra personagem, seja por um qualquer fenómeno natural ou acção exterior. O que é muito diferente de, por exemplo, isto:

«“So peaceful here,” he said with an apologetic half-smile. “I just wanted… Listen for a moment.”»

O eventual problema é o de o corte assim assinalado coincidir com a passagem do discurso directo para o indirecto, entre nós ainda generalizadamente marcado, e bem, pelo travessão, desvirtuando-se então a intenção do autor. Porque nunca iríamos duplicar o travessão, claro.

Interjeições

Tsch, tsch, tsch


Outside of a dog, a book is the best friend of a man. Inside a dog, it’s too dark to read.
Groucho Marx

Num noticiário da Antena 1, ouvi na semana passada um jornalista começar uma notícia com um teatral «tananã». Na antiga Emissora Nacional, seria motivo para despedimento com justa causa, mas não é disso que quero falar. Uma vez um tradutor estrangeiro pediu-me uma lista de interjeições e de onomatopeias. E eu dei-lha, é claro, porque apreciei o esforço que ele fazia para perceber a idiossincrasia de uma língua em aspectos aparentemente menores como estes. Não é raro ler nas traduções interjeições como mmm, er, wow, hey, he, entre outras igualmente estranhas à nossa língua. Ora, se não dizemos ¡ay! nem ¡guay!, porque havemos de considerar que mmm ou er, as mais frequentes em obras de língua inglesa, são familiares ao leitor português? Hum, acho que há aqui qualquer coisa mais do que falta de cultura… E a propósito, nem tudo o que parece interjeição na banda desenhada o é. Por exemplo, a representação de um beijo — smack — é na verdade um clique: um som oclusivo produzido pela sucção do ar preso entre duas oclusões, como é designado em Fonologia. Usado como interjeição, isso sim.

Etimologia: náusea

Nas vascas da agonia

      Cara Luísa Pinto: o vocábulo «náusea» vem directamente do latim nausea e este do grego nausía, derivado de nautes («navegante», como em aeronauta, aquanauta, argonauta, astronauta, cosmonauta, infonauta, internauta, lunauta, oceanauta, protonauta), do qual provém também a palavra grega naos («nave»). No início era, pois, apenas padecimento de navegantes provocado pelo movimento repetitivo das embarcações, tendo também a designação de naupatia. (Um termo mais geral é cinetose, e este é mal que atinge desde o feliz mochileiro trota-mundos ao infeliz funcionário público que atravessa o Tejo de cacilheiro. Passando, claro, pelos antigos trota-conventos.) Por extensão de sentido, «náusea» passou também a designar a repugnância ou aversão por alguma coisa — nas grávidas e em todos nós.

Apostila ao Ciberdúvidas

Só para mestres

Um consulente do Ciberdúvidas, Leonel Mayer, quis saber se a construção «intime-se-a» é errónea. Trata-se, pois, da conformidade de se com outros pronomes. O consultor Carlos Rocha afirma categoricamente que «o pronome se, seja qual for o seu valor (partícula apassivante, sujeito indeterminado, pronome reflexo), não é compatível com o pronome átono de obje(c)to dire(c)to da 3.ª pessoa (o/a, os/as)». Conclui dizendo que «a frase em questão é, portanto, agramatical (*«intime-se-a»)».
Invulgar, sim, mas sempre a tive como correcta. Se um argumento de autoridade servir, leia-se Fernando Venâncio na obra Maquinações e Bons Sentimentos (Campo das Letras, 1.ª ed., 2002): «Tome-se um português, observe-se-o de todos os lados, por dentro e por fora, da ponta dos pés ao cimo da alma» (da crónica «O português em quatro volumes», p. 65). Distracção do autor, acha Carlos Rocha? Mais um exemplo, ao virar da página: «Apreciando distanciadamente os hábitos gerais, pegava-se de quando em quando um indivíduo pelo chumaço, e deixava-se-o ir logo depois, amarrotado, desconjuntado, ávido de que chegasse a vez de outro.» Continuaria por aqui fora, com exemplos deste e de outros bons autores — mas tenho ali o pequeno-almoço à minha espera.

Tradução: «cumbre»

Imagem: http://web88.p15187858.pureserver.info/

Cimeiras e baixeiras


Dizia o original, de uma clareza meridional: «Fue un gran honor para ella ser elegida como uno de los cincuenta delegados de organizaciones no lucrativas en la cumbre presidencial sobre el futuro de América; recientemente ha sido designada como “luz del día”.» O tradutor arriscou: «Foi uma grande honra para ela ser eleita um dos cinquenta delegados de organizações sem fins lucrativos no auge presidencial sobre o futuro da América; recentemente foi designada como “luz do dia”.» Como foi na administração Clinton, auge, clímax, bem… É pecha bem conhecida: quando se trata de traduzir alguma palavra que desconhecem, alguns tradutores não passam da primeira acepção que lêem no dicionário. Claro que cumbre, que vem do latim culmen, -ĭnis, é «cimo», «auge» — mas não no contexto, caramba. Cumbre ou conferencia cumbre também é «reunión de máximos dignatarios nacionales o internacionales para tratar asuntos de especial importancia».

Léxico: «categute»

Cose-te com estas linhas

«Anything can be said about anything»,
George Steiner


      Anteontem, ouvi na Antena 1 uma médica falar da «consulta de revisão» de uma mulher que dera à luz um mês antes. O marido desta queixava-se de que lhe sentia na vagina como que uns dentes. A médica rira-se, confessou. (A modéstia fica bem, mas aos outros.) Estupidamente, veio depois a saber-se, porque, às vezes, como diz Joaquim Manuel Magalhães, o que não é possível põe-se a acontecer: a mulher tinha mesmo lá uns «dentes»: o seu organismo não absorvera os pontos de catgut, como normalmente acontece. Catgut, pois. Ainda recentemente alguém me disse que «categute» (como está aportuguesado e prefiro) era um termo desusado. Pois, pois. Catgut, literalmente, é «intestino de gato» (de cat, gato + gut, intestino), mas na verdade é um fio de colagénio feito — sobretudo na Índia, país que fornece igualmente metade da encomenda anual de vacinas das Nações Unidas, que são administradas a dezenas de milhões de crianças dos países em desenvolvimento — a partir da serosa (tripa) bovina, sendo considerado um material absorvível. A forma antiga da palavra era kitgut (de kit, pequeno violino + gut, intestino), pois o material também é usado para cordas de instrumentos musicais, e em especial para violinos.
      «Categute, m. (do inglês catgut). Fio animal, geralmente de tripa de carneiro, usado em ligaduras e suturas» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). A Academia das Ciências de Lisboa extraviou, infelizmente, este verbete.


Bode expiatório

Vai para longe

Contaram-me, certa vez, que um homem pernóstico de Ferreira do Alentejo (ou seria de Grândola?) dizia convictamente «bode respiratório». Um dia tinha de acontecer: um tradutor escreveu «bode expiratório», o que constitui uma aproximação muito razoável. Dizia o original: «Buscar un cabeza de turco: no le gustaría a outra persona (por ejemplo, de la oficina central).» E a tradução: «Procurar um bode expiratório: não agradaria a outra pessoa (por exemplo, do escritório central).» Esta é a oportunidade para dizer que os termos inglês e francês são muito mais claros, quase auto-explicativos: scapegoat e bouc émissaire. Em espanhol também se diz chivo expiatorio. A explicação está na Bíblia, em Levítico 16: 8-10: «Aarão tirará à sorte os dois bodes: um para o Senhor e outro para Azazel. Aarão deverá oferecer ao Senhor o bode que a sorte designou para tal, apresentando-o em sacrifício pelo pecado; e o bode, que a sorte designou para Azazel, deverá ser apresentado vivo diante do Senhor, a fim de fazer sobre ele o rito da purificação e ser enviado a Azazel, no deserto.» Era pois por meio de um bode que os Judeus expiavam as suas culpas diante do Senhor. Como o bode era carregado, no Dia do Perdão, com as culpas dos homens e enviado para o deserto, a expressão passou a designar o inocente sobre quem recaem as culpas dos outros. No original, o termo traduzido por bode expiatório era hazazel (que está dicionarizado em português com este mesmo significado), presumivelmente o nome de um demónio do deserto, embora, ao que parece, não se trate de um vocábulo hebraico. O próprio ritual terá tido origem entre os antigos Egípcios.

Léxico: «poceiro»

Poceiro no Quénia: http://ngishili.com/

Mais uma cavadela


      Ainda haverá poceiros em Portugal? Bem, isso agora talvez não interesse tanto como saber que a palavra inglesa well-digger se traduz assim, o que é, francamente, muito melhor do que «cavador de poços». Em qualquer circunstância, aliás, é melhor uma palavra do que uma locução. Poceiro vem do latim putearĭus. Na Índia e em África, isso é certo, há poceiros. Regozijemo-nos: a Academia das Ciências de Lisboa não extraviou este verbete.

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